terça-feira, 21 de março de 2017

A festa rolou solta

Ontem, segunda-feira, 20, o amigo doutor Itajar Maldonado Chaves, empresário  e advogado de renome em São Gabriel, esteve aniversariando. A idade não se revela, porque o desejo é que permaneça sempre como está, em plena forma fisica e mental.

O doutor Itajar demonstra bom gosto, ao torcer pelo Sport Club Internacional, o único clube gaúcho campeão mundial FIFA. E maior vencedor de campeonatos gaúchos e Grenais. A festança foi grande e rolou solta na sua residência, onde se reuniram familiares e amigos para lhe abraçarem e cantarem o "Parabéns a Você". O blog "Viva São Gabriel" se associa a esse momento tão lindo. (Fotos: Liane Chaves)



domingo, 19 de março de 2017

Feriado de 20 de Setembro teve origm em São Gabriel

A transformação do dia 20 de setembro como feriado estadual teve a sua origem em Sao Gabriel, através de uma cavalgada promovida por 13 tradicionalistas. A ideia era homenagear a primeira senadora gaúcha, Emilia Fernandes, e por isso foi organizada a "Cavalgada Unidos pelo Tradicionalismo Riograndense, que saiu de São Gabriel no dia 19 de dezembro de 1994, às 16h30min, em direção a cidade de Livramento.

Segundo Valandero Fagundes Ferreira, autor da ideia, a cavalgada foi apartidária e oficializada pela Associção Cultural Alcides Maya. Numa Assembléia realizada na Câmara Municipal , ficou acertado que no contato com a senadora, seria reivindicado que o 20 de setembro fosse transformado num feriado estadual.

A partir de então, com o pedido assinado pelos 13 tradicionaslistas, começou o trabalho no Senado e na Assembléia Legislativa do Estado. O deputado Jarbas Lima foi o autor da proposta para que cada Estado pudesse escolher uma data para ser feriado.

A senadora Emilia Fernandes teve uma grande influência, destacou Valandro Ferreira, pois Lei 9.093, sancionada em 12 de setembro de 1995 dispoe sobre os feriados e possibilitou que o aniversário da Revolução Farroupilha fosse feriado estadual.

O trabalho dos 13 tradicionalistas foi reconhecido pelo vereador José Renato Martini, de Dom Pedrito, que mostrou ter tido uma preocupação semelhante. A Cavalgada levou quatro dias e os cavalarianos foram recepcionados pela senadora Emilia Fernandes no "CTG Marca de Casco". (Fonte: Jornal "Folha da Fronteira", edição de 17 de setembro de 1999)


segunda-feira, 13 de março de 2017

Um mar de sangue no Cerro do Ouro

Ao escrever a matéria sobre a Revolução Federalista de 1893, em que o solo gaúcho se pintou de vermelho pelo sangue das degolas, propositalmente deixei de me aprofundar no “Combate do Cerro do Ouro”, desdobrado em terras gabrielenses, porque foi um episódio que merecia uma atenção histórica maior.

Conta o historiador Aristóteles Vaz de Carvalho e Silva, em seu livro “São Gabriel na história”, que em agosto de 1893, o coronel Francisco Rodrigues Portugal estava acampado com cerca de 1.200 homens no Cerro do Ouro, em São Gabriel.

Da coluna faziam parte o doutor Fernando Abbott e os coronéis Marinho e João Fernandes Barbosa, comandantes de brigadas. Eles foram avistados pela vanguarda de Gumercindo Saraiva, que imediatamente tiroteou a coluna governista.

Esta força confiava na proteção da guarnição federal de São Gabriel, composta das três armas e ainda contava com a junção, a qualquer momento, da coluna comandada pelo general Bacelar, que precedia de Paraizinho, zona de Bagé, em reforço da coluna de Portugal, já avisada da presença de Gumercindo Saraiva.

Tomadas as providências necessárias, a 27 de agosto travou-se a batalha conhecida na história por “Combate do Cerro do Ouro”, tendo sido amplamente desbaratadas as forças governistas, que retiraram-se em completa desordem para São Gabriel.

O RELATO DE GUMERCINDO SARAIVA

Ao término do combate, Gumercindo Saraiva enviou correspondência ao general Luiz Alves de Oliveira Salgado, comandante-em-chefe das forças revolucionárias relatando o ocorrido.

Disse que verificada a presença do inimigo e a posição que ocupava, calculando a sua força em cerca de 1.200 homens, houve um tiroteio durante o dia 26. As 5 horas da manhã do dia  27, Gumercindo passou o arroio do Salso, em uma picada aberta na véspera.

E às 7 ½ horas da manha encontrou o inimigo, cujas forças ocupavam o dorso da Serra de Serafim Caetano, junto ao Cerro do Ouro, estrada de São Gabriel.

As forças de Gumercindo ocuparam uma linha de colinas, bem a frente de onde se encontrava o inimigo, o que permitia que se batessem os contrafortes e grotas que partem desse cerro em direção perpendicular a essa linha, e que seriam ocupados pelo inimigo quando avançasse.

O flanco direito das forças revolucionárias estava protegido por uma profunda e invadeável canhada, que desagua no arroio Salso junto ao Passo Real, que era defendida pela coluna inimiga para impedir, como impediu, que fosse mandado auxilio e proteção.

À hora supramencionada caiu um denso nevoeiro, e Gumercindo dispôs suas forças na seguinte ordem, que permitia envolver o inimigo:

CENTRO. Brigada do coronel Aparício Saraiva, composta de duas Companhias de Infantaria, sob o comando do major Antônio Nunes Garcia; de dois Corpos de Cavalaria comandados pelos tenentes coronéis Augusto Xavier do Amaral e Júlio Varela. O Piquete de Gumercindo, comandado pelo tenente coronel Pedro Sancho e dois Corpos de Cavalaria ao mando dos coronéis Vasco Martins e Fontoura Roquinho.

DIREITA. Dois corpos e um Esquadrão de Cavalaria ao mando dos coronéis Estácio Azambuja, Carlos Chagas e Carlos Nogueira da Gama, um Corpo de Cavalaria do 2º Corpo ao mando do coronel Isidoro Dias Lopes.

ESQUERDA. As Brigadas do general Guerreiro Vitória e Torquato Antônio Severo.

Às 8 1/2 horas, dissipado o nevoeiro, a Infantaria e todos os atiradores das Brigadas e Corpos, abriram nutrido fogo sobre o inimigo, que, aproveitando-se do nevoeiro, ocupara os contrafortes e grotas descritos.

Durante meia hora, e sem resultado apreciável continuou o fogo. Dispondo apenas de 300 atiradores e de 12 mil cartuchos, sentindo que seria forçado a retirar-se acabada a munição, Gumercindo tentou, apesar das dificuldades do terreno as manobras de Cavalaria, um esforço supremo.

Fazendo cessar o fogo dos atiradores, foi ordenado uma carga simultânea de Lanceiros sobre os flancos e contra o inimigo. Com tal arrojo e valor foi ela executada que o inimigo abandonou as fortes posições que ocupava e retirou-se sobre a estrada, onde debandou, após uma segunda carga, sendo perseguido até três léguas além do campo de combate pela Brigada do coronel Aparício Saraiva e pelos Corpos dos coronéis Vasco Martins e Estácio Azambuja.

A ESTATÍSTICA DO COMBATE

Foram arrecadados no campo de combate os seguintes objetos: quatro estandartes, 221 comblains, cinco Spencer, três remingtons, um mauser, 124.250 cartuchos comblains, 140 barracas, 193 ponchos,45 espadas, 39 lanças e três carretas, das quais uma com 223 peças de roupas e viveres, sete carroças e inúmeros cargueiros e arroios, etc, etc.

Gumercindo calculou as perdas do inimigo em cerca de 300 homens, pois só no campo de combate propriamente dito, foram contados 127 cadáveres. A estrada por onde o inimigo retirou-se também estava tomada de mortos.

Foram aprisionados do inimigo um alferes e 56 praças, das quais sete feridos.

Entre os numerosos documentos arrecadados no campo de combate figurava uma ordem-do-dia do coronel Portugal, dando a organização da divisão com a qual houve o combate, e que era composta de 10 Corpos.

O 1º Corpo do Exército sofreu 45 baixas, 12 mortos e 33 feridos. Entre os mortos encontram-se os valentes tenentes coronéis Pedro Gomes Jardim e Fortunato Silva, os tenentes B. Reikest e Boaventura da Costa, bravo rio-grandense que contava apenas 17 anos de idade.

Pedro Diogo, pela elevação de seu caráter, pelo tino militar, pela bravura de que deu sempre prova em todos os combates que o Exército Libertador tem travado desde o inicio da Revolução, tinha-se imposto à estima e respeito de todo os seus camaradas.

Interpretando fielmente os sentimentos de seus comandados, Gumercindo pediu a valiosa proteção da Junta Revolucionária para a numerosa família, hoje pobre e desamparada, do heroico irmão.

Entre os feridos gravemente encontravam-se os valentes coronel Carlos Chagas, tenente coronel Júlio Varela, capitão Alberto Amaro da Silveira e tenente Carlos Noé. O ajudante de ordem de Gumercindo, major Pedro Amaral foi ferido levemente.

Ao encerramento da missiva, Gumercindo Saraiva disse que a alegria pela vitória conquistada foi rudemente contrabalanceada em seu coração, pela profunda dor que nele despertou a perda de tantos e tão bravos irmãos, amigos e adversários.

O general Oliveira Salgado concorreu de maneira efetiva para a grande vitória do Cerro do Ouro, atacando junto ao arroio do Salso o coronel Marinho, sem contudo conseguir desalojar este bravo governista que afinal caiu prisioneiro.

Secundando a perseguição orientada por Aparício Saraiva, às tropas em fuga, o general Oliveira Salgado perseguiu-as até as proximidades de São Gabriel.

De acordo com alguns historiadores, a intenção de Oliveira Salgado era atacar São Gabriel onde, na própria guarnição contava com extremados partidários de sua causa. Porém se teve o intuito, deve ter desistido em vista da aproximação das tropas do general Bacelar, já referidas, que a 28 de agosto, acamparam muito próximo da retaguarda dos revolucionários.

Além disso, já estavam alertadas as tropas dos generais Lima e Pinheiro Machado, com, cerca de 3 mil homens bem armados e municiados, cujas vanguardas se aproximavam céleres.

Em São Gabriel o alvoroço era enorme, segundo contou o major Porfirio da Cruz Metelo.

PÂNICO EM SÃO GABRIEL

Dia 27 de agosto foi domingo. A relativa calma então reinante na cidade foi bruscamente quebrada, pelos clarins marciais tocando “reunir acelerado”. É que a Divisão das forças do Governo, sob o comando do general Francisco Rodrigues Portugal, havia sido estrondosamente derrotada no Cerro do Ouro.

Pânico em toda a cidade. Cavalarianos fugidos e extraviados, entrando em grupos ou sós, com notícias alarmantes de morte de diversos chefes, tanto militares como civis. Famílias que passeavam, aproveitando a féria domingueira, em tropel se recolhiam alvoraçadas a seus lares. Confusão! Correria de civis às trincheiras.

Conforme Porfirio, a parte oficial desse combate deve existir no arquivo da Presidência do Estado, ditadas pelos generais de linha Antônio Joaquim Bacelar e, honorário, Francisco Rodrigues Portugal, coronel honorário da Guarda Nacional, Hermenegildo Laureano da Silva e consultor técnico, doutor Fernando Abbott.

O fazendeiro Leônidas de Assis Brasil escreveu um relato do que foi esse combate.

A Revolução de 93 teve como seu chefe o eminente homem público Gaspar Silveira Martins, cujas ideias parlamentaristas foram seguidas pelo caudilho Gumercindo Saraiva, homem de valor pessoal, convicção política e experimentado cabo de guerra.

Em prosseguimento ao grande movimento revolucionário contra o então presidente do Rio Grande do Sul, Júlio de Castilhos, homem regionalista por existência, embora patriota e de raras convicções políticas. Esse regionalismo e outros motivos, foram causas que o separaram de Assis Brasil, cunhados e amigos.

Em julho de 1893, aos auspícios de Castilhos, Pinheiro Machado, Fernando Abbott e vários caudilhos castilhistas, os então “republicanos”, embora também o fossem os “maragatos” dessa época, mantinham organizada em São Gabriel uma divisão de Corpos de Infantaria e Cavalaria, embora com armamentos deficientes, em contraste com o ardor da causa que defendiam.

Por outro lado, os revolucionários, que propugnavam com alguma divergência e eram contra Castilhos, já estavam em campo e prontos, em defesa de suas idéias e consequentemente apresentava-se em estado latente a famosa guerra de 93, entre irmãos, onde se viram medir os valores dos gaúchos rio-grandenses, cujos símbolos eram os lenços brancos e os colorados, divisas que até hoje caracterizam partidos adversos.

Exaltados os ânimos pelas idéias opostas, nada seria possível senão a degenerescência em tremenda guerra, cujas armas, de parte a parte, comblains, garruchas, mosquetes e artilharia, guardadas por fortes esquadrões de lanceiros em seus cavalos crioulos, que bem compreendiam o horror da guerra, muito embora os objetivos fossem os mais sublimes.

Em agosto de 1893, numa madrugada de densa neblina, feriu-se o célebre “Combate do Cerro do Ouro”, cujo nome se originou por ter sido ferido no arroio do Salso, que é marginado por um mato baixo, grotas e cerritos.

As forças do Governo, os “patriotas”, de lenços brancos, se constituíam da 1ª e 2ª Brigadas, comandadas respectivamente pelo general Rodrigues Portugal e coronel Hermenegildo Laureano da Silva, ambos veteranos da guerra de 1851, Campanha de Rosas, ditador, e do Paraguai, de onde trouxeram suas condecorações, que são vistas em suas fotografias.

Borges “Mentira”, Juca Antunes, João Rodrigues Menna Barreto, intendente Dioclécio, morto em combate, Acácio Farias e outros, faziam parte daquelas forças.

Ao escurecer, na véspera da renhida luta, Fernando Abbott, amigo e companheiro de Hermenegildo, foi a barraca deste, dizendo de seus propósitos, bem como de Portugal e outros correligionários, de darem combate a Gumercindo que ocupara a outra margem do arroio do Salso.

AS FORÇAS MARAGATAS

Hermenegildo, homem que vinha de muitas refregas, tentou convencer Abbott da ineficiência de suas forças para combater uma mais antiga organização, as forças “maragatas”, de maior contingente, melhor montada e ainda com outras vantagens, inclusive estar com a iniciativa das ações.

Se bem que em ar de caçoada, Fernando Abbott teria dito a Hermenegildo: “Estás, por acaso, com medo?” Hermenegildo, em resposta a Abbot, teria dito: “Para demonstrar o contrário, concordaria com a proposição de Abbott, e consentiria em atacar Gumercindo”.

Ficou assentado que Hermenegildo com sua Brigada, a segunda, guardaria o “passo” de baixo, posição de fácil acesso a Gumercindo, onde as forças deste ao clarear do dia tentaram afastar com forte fuzilaria, a retaguarda da 2ª Brigada. Encontrando ele, porem, tenaz resistência, subiram em direção ao outro “passo”, guardado pela 1º Brigada a mando do general Rodrigues Bacelar.

Cessado o ataque a 2ª Brigada e como nada mais fosse sentido ou ouvido, Hermenegildo chamou seu ajudante de ordens, Manoel Martins Alves, vulgo “Manoel Plácido”, natural de São Pedro e, apontando para o “cerrito” que até hoje se vislumbra naquela zona, disse-lhe: “Plácido,  suba aquele cerro e veja o que se passa”.

Voltando Plácido, informou ao seu comandante Hermenegildo, já terem os maragatos transposto o arroio, no “passo” onde antes ocupara a a 1ª Brigada e que o inimigo já estava tentando cortar a retaguarda, com o objetivo de obstar a retirada de Hermenegildo.

Este, com a experiência e calma que lhe era peculiar, organizou a retirada, contendo as unidades com o auxilio do bravo João Rodrigues Menna Barreto que comandava a Cavalaria.

Desse trágico momento até ao escurecer, recuou a Brigada de Hermenegildo, fazendo custosa retirada e ao longe presenciou com seus comandados a carnificina que a gente de Gumercindo fazia nos debandados da 1ª Brigada.

Já bem a tarde começou a entrada dos feridos em São Gabriel, os que escaparam da perseguição tenaz do inimigo. E só não tomaram São Gabriel, foi porque estava guardada por forças do Exército com Cavalaria, Infantaria e o 1º Regimento de Artilharia de Campanha, o famoso “Boi de Botas”.

No dia seguinte, já serenados os espíritos, forças da Guarnição e “patriotas” foram recolher os mortos e feridos, em viaturas daqueles tempos.

E assim terminou um dos mais renhidos combates da cruenta Revolução de 93, conhecido na história sul-rio-grandense como o ”Combate do Cerro do Ouro”.

A OPINIÃO DO HISTORIADOR

Segundo o historiador Osório Santana Figueiredo, São Gabriel foi palco de encontros sangrentos e houve muitos casos de sevicias e degolamentos de pessoas importantes. Trocou de governos algumas vezes, quando então eram ajustadas as contas e muitos pagaram com a vida por certas atitudes de liberdade em prol dos seus grupos.

O Combate do Cerro do Ouro é lembrado até hoje por um monumento erguido em uma colina próxima, homenageando os que ali tombaram.

O monumento é um obelisco de cimento armado, onde na parte de baixo existem 12 postes interligados por grossas correntes de ferro, protegendo um quadrado onde estão sepultados os combatentes mortos. Tem uma cruz ao centro onde se lê: “Em memória das vítimas que o destino da Pátria fez inimigos e a morte os tornou irmãos nesta cova de bravos”.

O historiador diz: “Caro Nilo Dias. Passei vários anos pesquisando em arquivos e no local do “Combate do Cerro do Ouro” onde deixamos dois monumentos. Um de forma piramidal e outro cobrindo a "Cova dos Mortos", onde foram sepultados mais de uma centena de vítimas.

É impossível dizer o número dos que tombaram no combate, porque daquele local até próximo a cidade, os maragatos em feroz perseguição, vieram matando pica-paus e sepultados onde eram encontrados. E foram muitos.

O número de mortos no livro “A História de São Gabriel”, é erro do autor. Aconselho o amigo ler o livro "As Revoluções da República" do mesmo autor, onde aparece uma foto do "Apertado", um corte num cerro onde passa até hoje a estrada para o arroio do Salso.

Segundo ouvi de muitos, pois nasci bem perto da local daquela carnificina, anos depois foram encontrados esqueletos embaixo de  árvores. Eram de criaturas que, apavorados, feridos, ali se escondendo, morreram sem ser encontrados.

Nada foi registrado e as partes escritas sobre aquela carnificina, em que se digladiaram maragatos (revolucionários) e pica-paus (governistas), nada dizem. Estes foram derrotados fragorosamente, perseguidos e mortos até pertinho da cidade, sendo encontrados alguns cadáveres em chácaras, no Bomfim, de hoje.

Tudo que escrevemos, ninguém mais o fez, foi recolhido da tradição oral. Vivemos por mais de ano pesquisando in loco no Cerro do Ouro, por vezes acampados, pesquisando e ouvindo contemporâneos daquela tragédia, inclusive pica-paus e maragatos combatentes.

Um governista, velho, recolhido ao Asilo São João, disse-me que eram três Batalhões castilhistas de 600 homens. No outro dia ao do combate, reunidos no quartel dos Fuzilados, só puderam contar um só.

Por isso escrevi, na página 118, da obra citada: "Calcula-se em mais de 400 mortos." O doutor Ângelo Dourado, por vezes exagera nas suas cartas maravilhosas que escrevia à esposa, depois transformadas em livro - "Voluntários do Martírio". E Wenceslau Escobar, pior ainda. Há muita, muita, muita coisa sobre o Combate do Cerro do Ouro. Por hoje é só. Abraço. Osorio

Nas linhas governistas, lamentava-se a morte do coronel João Fernandes Barbosa, tio do doutor Fernando Abbott, e a prisão do coronel Marinho, feita pelas tropas do general Salgado.

No dia seguinte foi dada sepultura aos mortos, o que durou três dias. Corpos eram arrastados ou puxados a cavalo, a maior parte mutilados. Já em decomposição, eram enterrados onde se encontravam, e estavam em toda a parte.

TESTEMUNHA OCULAR DO COMBATE

O doutor Ângelo Dourado, médico baiano, radicadio em Bagé e que esteve ao lado dos revolucionários gaúchos, testemunha ocular do sangrento combate, assim o narrou em certo trecho de seu livro “Voluntários do Martírio”:

Ouviam-se de todos os pontos ocupados por nossas forças, os clarins a tocarem sem cessar as notas lúgubres, que ordenam cargas e carnificina. Os nossos lanceiros subiam e desciam dos cerros como fantasmas que voam sobre os rochedos.

As bandeirolas brancas das lanças pareciam asas de aves de rapina que se se precipitam sobre a presa. Era um baixar e erguer-se sem cessar. Em pouco tempo aquelas bandeirolas tomaram a cor do sangue em que se molhavam.

Gritos, lamentos, súplicas, promessas, gemidos, estertores, imprecações, insultos, formavam a harmonia desse cataclismo que se chama guerra civil, onde um mata para libertar-se, e morrendo quase que sorri, e outros matam ou morrem por obediência, para que os que mandaram matar, possam gozar.

Depois os grupos se afastaram ou corriam para poderem viver e outros voaram após para matar. O meu caminho era indicado pelos cadáveres e feridos. Por onde passávamos, via-se o triste rastro de um exército em derrota. Um fato doloroso desta guerra, onde os pequenos se matam pelo gozo dos grandes.

Durante o período em que esteve ao lado dos federalistas, Dourado efetuou registros do que via e vivia nos campos de batalha. E assim, em carta dirigida à sua esposa Francisca, e datada de 23 de julho de 1893, começava o primeiro de um longo conjunto de relatos de suas experiências na Revolução Federalista.

Tais relatos, escritos primeiramente como cartas e logo após como uma espécie de diário, foram organizados pelo próprio Dourado sob a forma de livro. O livro recebeu o nome de “Voluntários do Martírio – Factos da Guerra Civil”.

Finda a guerra, a obra foi publicada pela “Livraria Americana”, da cidade de Pelotas, no ano de 1896. Na verdade, “Voluntários do Martírio” constitui-se num livro de “memórias”, pois a intenção do autor era que suas impressões diante de tantas agruras não caíssem no esquecimento.

O próprio Dourado assume que não pretendeu escrever a história da Revolução de 1893, pois ele achava isso prematuro demais, uma vez que “a tinta em que deve-se mergulhar a pena de fogo para escrevê-la deve ser de justiça, e para isso é preciso tempo”.

A obra nos fornece uma descrição detalhada do conflito. Espectador perspicaz do desenrolar das batalhas, Dourado narra com fluência e objetividade a marcha da Revolução Federalista

A obra do médico baiano foi bastante utilizada e recomendada por  aqueles que escreveram a história do Rio Grande do Sul, de modo geral, e da “Revolução Federalista”, de modo específico, desde Guilhermino César, Dante de Laytano e Sérgio da Costa Franco, de um lado, e Joseph Love, John Chasteen, Sandra Pesavento, Moacyr Flores, Helga Piccolo e Núncia Constantino, entre outros.

Outras obras descrevem a Revolução Federalista, como “Apontamentos para a história da revolução rio-grandense de 1893”, de Wenceslau Escobar (1857-1938), publicada originalmente em 1919 e reeditada em1983 pela editora da UnB.

“Diário da Revolução Federalista”, de Luiz de Senna Guasina publicado em 1999 pelo Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul. “A verdade sobre a revolução”, de Germano Hasslocher. “Memórias da revolução de1893”, de Fabrício Batista de Oliveira Pilar. “A guerra civil de 1893”, de Sérgio da Costa Franco. “O regionalismo gaúcho e as origens da revolução de 1930”, do americano Joseph L. Love. “A Revolução Federalista”, de Sandra Jatahy Pesavento e “Heróis a cavalo, vida e época dos últimos caudilhos gaúchos”, do historiador norte-americano John Charles Chasteen. (Pesquisa: Nilo Dias - Publicada no jornal "O Fato", de São Gabriel (RS), edição de 10 de março de 2017)

Monumento ao Combate do Cerro do Ouro.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Campeonato do Ginásio São Gabriel

Esta foto é de 1956. O time de Futebol de Salão dos alunos da 3ª Série, vice-campeões do certame Inter-Séries promovido pelo antigo Ginásio São Gabriel. Em pé: Ruben Kielling, Rui Silveira, Simão Bicca, Lauro Souto e Antônio Almada Prestes. Agachados: Ayrton Meyer Corrêa, Edilberto Bittencourt (Betinho), Edilson Vieira da Cunha, Pedro Augusto Medeiros e Antônio Paulo. (Fonte desconhecida)

segunda-feira, 6 de março de 2017

Do "Túnel do Tempo"

Nos anos 60 São Gabriel teve uma boa equipe de Basquetebol, conforme nos mostra o amigo Gastão Dubois, em foto enviada desde Florianópolis, onde reside há vários anos. Vejam só os craques: Em pé: Souza, Arnufo, Fernando Camargo, Neguinho, Nairo Gonçalves, Facin e Cazézinho. Agachados: Berbigier, Pelé, Porciuncula, Lampert e Elmano.


sábado, 4 de março de 2017

“Gaitinha” um tradicionalista autêntico

Luiz Carlos Azambuja o “Gaitinha” é figura das mais populares de São Gabriel. Talvez seja um dos últimos tradicionalistas autênticos que existem na cidade. Acho que ninguém até hoje viu o “Gaitinha” sem que estivesse devidamente pilchado, com botas, bombachas, poncho ou pala, chapéu de aba larga e lenço no pescoço.

E sua coleção é grande. Tem vestimentas de tudo que é cor, claro com predominância para o vermelho, verde e amarelo, que simbolizam a bandeira do Rio Grande do Sul.

“Gaitinha” não é filho de São Gabriel. É natural de Rio Pardo, onde nasceu em 16 de novembro de 1943. Veio para São Gabriel quando tinha apenas 11 meses de idade.

Nada indica que ele tenha qualquer preferência política do passado riograndense, das brigas entre “maragatos” e “pica-paus”, pois usa lenço vermelho ou branco, tanto faz, cores dos velhos partidos adversários no Rio Grande do Sul.

A história conta que as batalhas costumam ter começo e fim. No caso da Revolução Federalista, que ocorreu de 1893 a 1895, não é bem assim. Mesmo já passados quase 120 anos, a impressão que se tem é de que a rivalidade entre “maragatos”, soldados rebeldes e “pica-paus”, militares legalistas ainda não acabou.

A briga secular continua alimentada pela tradição oral, histórias passadas de pai para filho e não morre porque netos e bisnetos recontam os fatos.

Essa rivalidade lembra muito a de Grêmio e Internacional. O vermelho foi a marca registrada dos “maragatos”. A branca, dos “pica-paus”. O azul gremista esteve longe das batalhas de antigamente, mas ganhou força esportiva com o tempo.

Até recordo de um acontecimento ocorrido na minha terra natal, Dom Pedrito, que a exemplo de São Gabriel é local onde as disputas políticas são sempre acirradas.

Não lembro mais o ano em que isso ocorreu, sei que foi na década de 50 quando ainda havia o Partido Libertador, herança dos velhos “maragatos”. E num comício do PTB de Getúlio Vargas, adversário dos “colorados” no Rio Grande do Sul, alguém jogou no meio da multidão um cachorro com um lenço vermelho, no pescoço.

O coitado do animal, que nada tinha a ver com política, foi morto a tiros de revólver, enquanto o animador do comício gritava em alto e bom som: “Matamos um cachorro maragato”, para delírio do povo.

Mas o nosso amigo “Gaitinha” não deve se importar muito com esses acontecimentos históricos. Está mais ligado às tradições gaúchas e nesse item “Maragatos” e “Pica-Paus” se equivalem.

CHAPÉU DE BOIADEIRO

Certa vez quis agradar o amigo “Gaitinha”, levando para ele de presente um chapéu desses de boiadeiro, marca registrada dos cantores sertanejos do Centro-Oeste do Brasil. Educadamente, ele aceitou, mas levou para sua casa e nunca usou, pelo menos nas suas andanças pelas ruas da cidade.

Ele disse, acho que apenas por desculpa, que usava o chapéu quando estava em casa. Mas a razão correta, com certeza, é que usando um chapéu tipo cowboy, estaria desvirtuando a sua condição de gaúcho autêntico. E ninguém duvida disso.

Fiz um esforço danado para carregar aquele chapéu dentro de uma mala de viagem, sem amassá-lo. Respeito a decisão de “Gaitinha” em não querer ser confundido com algum cantor sertanejo.

De minha parte, não tenho nenhum constrangimento em usar esses chapéus do “Cerrado”. Comprei vários, de palha e de feltro. E uso com a mesma alegria de um autêntico chapéu gaúcho, que adquiri na “Selaria do Gringo”, em São Gabriel.

Esse chapéu faz sucesso nos bares que frequento, pois dificilmente se vê deles em Brasília. Muitas “gurias” e “guris” daqui o pedem emprestado para tirar fotografias com ele.

Nos fins de semana é comum aqui por Brasília o pessoal colocar roupas velhas e chapéus amassados, para os encontros etílicos nos bares da cidade. A Teresinha, minha mulher e filha de São Gabriel, costuma dizer nessas ocasiões que estou “fantasiado”.

No tempo em que eu apresentava o programa tradicionalista “Invernada Gaúcha”, na Rádio Batovi, que ia ao ar nos domingos de manhã, às 10 horas, “Gaitinha” era sempre convidado especial. E dava show tocando ao mesmo tempo a sua inseparável gaita de boca e um pandeiro, e ainda conseguia cantar. Uma proeza e tanto.

Volta e meia por lá também aparecia o “Nico”, um ferroviário aposentado, que foi meu vizinho nos tempos que morei em São Gabriel, e que tocava gaita de 8 baixos. Ele na rua Rivera, e eu na Francisco Hermenegildo. E também o Ronoel Rodrigues Vieira, conhecido mecânico que era mestre no cavaquinho.

Nico, Ronoel e “Gaitinha” de repente formavam um trio, ocupando quase todo o tempo do programa. Mas o que importava é que os ouvintes gostavam e telefonavam para dizer isso. Os amigos de “Nico” e Ronoel, por gozação, diziam que eles formavam a dupla “Nojento” e “Que Nojo”.

Eu, o Ronoel e o Nico também jogávamos no time do Ferroviário, que tinha um campo ao lado da rua Rivera. Todos os domingos de manhã havia jogo. Dos adversários lembro os Veteranos do Nacional, onde também joguei, e Supermercado OK.

Sempre juntava muita gente naqueles jogos. A sombra era garantida por frondosas árvores. Havia uma “copa” que vendia cerveja gelada e generosas doses de cachaça. Não lembro que houvesse brigas por lá.

FREQUENTADOR ASSÍDUO DE BARES

“Gaitinha”, além de ganhar algum dinheiro com suas apresentações artísticas em CTGs ou festas de amigos, também entrega o jornal “O Imparcial”, para assinantes. E é um verdadeiro “Caxias” na tarefa. Pedir para ele um jornal de presente é perda de tempo, pois garante que sempre leva o número exato para ser distribuído.

Quando morava em São Gabriel, sempre encontrava o “Gaitinha” nos bares que frequentava, e que na maioria eram os mesmos que ele: “Bar Du Caio”, na esquina da Santa Casa; “Bar Du Caio”, ao lado da Rádio Batovi; “Bar Pilequinho, do Flavinho, na rua Mauricio Cardoso com Maria Barros Salgado; “Bar do Lima”, antes na Tristão Pinto, agora na Mascarenhas de Moraes e “Bar A Toca”, do Marciano Bastos, frente à Prefeitura e tantos outros.

É claro que “Gaitinha” levava uma grande vantagem nesse quesito, pois também era cliente de carteirinha de casas comerciais no interior do município. Certa vez ao voltar de uma pescaria, junto dos amigos tenente Dutra e Flávio, irmão do Zé Lucca, encontramos o “Gaitinha” dando show e derrubando umas que outras no Bar da Lagoa, no Batovi.

Semanalmente ele participa de programas tradicionalistas na Rádio Batovi, levados ao ar desde o “Galpão Canário Alegre”, sob a direção de Gilberto Mello. E aos sábados a tarde com o José Boaventura Félix. E ainda em programas na Rádio São Gabriel, e creio que nas FMs da cidade.

BAILÃO DO MARAGATO

Eu não lembro quando e onde conheci “Gaitinha”. E não tenho certeza se ele frequentava, ou não, o antigo “Bailão do Maragato”, que ficava ao lado da Rádio São Gabriel. Sei que foi do Sérgio Mércio e depois do “Nica”, que diziam, “quieto ninguém fica”.

Recordo que depois do fechamento do “Maragato”, por insistência dos moradores da Mascarenhas de Morais, que não aguentavam os problemas verificados na rua, brigas e outras “cositas” más, o “Nica”, foi para mais adiante, creio que no prédio do Circulo Operário, ou ao lado, onde não durou muito tempo.

Local polêmico, ou não, a verdade é que o “Maragato” marcou história na noite gabrielense. Era conhecido por outras querências. Certa vez o Rio-Grandense, de Rio Grande veio jogar com a S.E.R. São Gabriel e o meu saudoso amigo e compadre, Bento Peixoto Castelã, que era técnico do time “papa-areia”, quis conhecer o famoso bailão.

E lá estivemos. Casa lotada, boa música e a presença feminina em grande número. Bebemos umas cervejas, ensaiamos umas danças e fomos embora quase ao amanhecer. E tudo correu na maior tranquilidade.

Bochincho grosso lá dentro, pelo que sei só aconteceu uma vez, em que o filho de um conhecido comerciante “patrício” da cidade descarregou o revólver, dando tiros no meio do salão. A sorte é que não acertou em ninguém.

PROBLEMAS DE SAÚDE

“Gaitinha”, em março de 2011 andou enfrentando alguns problemas de saúde. Teve trombose em uma das pernas e precisou ser hospitalizado na Santa Casa por alguns dias.

Nesses momentos é que se sabe quem é amigo de verdade. Por justiça conto isto: o “Braguinha”, outro grande divulgador das coisas do Rio Grande do Sul foi um verdadeiro anjo da guarda, que deu toda a assistência ao nosso gaiteiro, que não tem familiares em São Gabriel.

E trombose é coisa séria. Sei disso, pois já enfrentei o problema em duas oportunidades. Se não fizer o tratamento correto, a pessoa corre o risco de ir pro “beleléu”. Hoje, sou obrigado a tomar o remédio “Varfarina”, 2,5 miligramas pelo resto da vida.

E assim mesmo, volta e meia sinto dores nas pernas. E isso causa muito medo. Não descuido de tomar o medicamente diariamente. E também “Metformina” 850 miligramas, contra a diabetes e “Losartana Potássica”, 50 miligramas, para combater a hipertensão. O que não impede que consuma outros “medicamentos” não receitados por médicos, como a cervejinha gelada.

E também não refugo uma boa pinga, especialmente daquelas misturadas com algumas ervas medicinais tipo “carqueja”, “losna”, “guaco” e naturalmente o nosso tão apreciado “butiá”.

ALVO DE BANDIDOS

Bandido tem para tudo que é lado. E não distingue suas vítimas. Não quer saber se o sujeito é rico ou pobre, branco ou preto. Nem o nosso querido “Gaitinha”, figura popularíssima, que não faz mal a ninguém, escapou dessa violência que atinge todas as cidades, sejam grandes, médias ou pequenas.

Em março de 2015, quando ele caminhava, como sempre faz, pelas ruas da cidade, foi atacado por malfeitores que carregaram a sua mala de garupa, onde guarda documentos, dinheiro e a gaita de boca.

Com a surpresa do inesperado ataque, “Gaitinha” sofreu um mal súbito. Por sorte algumas pessoas que passavam pelo local e a tudo assistiram, o socorreram e os agressores fugiram em disparada. Levado ao hospital se recuperou em seguida. O acontecido revoltou boa parte da comunidade, que gosta e admira o destacado tradicionalista.

A partir dai tomou o cuidado de não andar sozinho pelas ruas da cidade tarde da noite. Quando faz alguma apresentação noturna, sempre pede a alguém que o leve até sua casa. E como é querido por todos, sempre encontra alguém que o ajude.

São Gabriel não é nenhuma metrópole, mas já convive com a violência, hoje presente em qualquer lugar. A cidade ainda não se recuperou do recente brutal assassinato de um PM, no Posto Batovi, que virou lugar de concentração de gente de toda a espécie.

Pelo que sei, nem o centro da cidade escapa. Seguidamente acontecem brigas generalizadas frente a um clube social, promovidas por elementos ligados a facções conhecidas por “bondes”.

TORCEDOR DO INTERNACIONAL

Nunca vi “Gaitinha” entrar no estádio Sílvio de Faria Corrêa para torcer pelo time da cidade. Mas sei que ele é torcedor do Internacional, de Porto Alegre. Embora não saiba dizer a escalação do time ou o nome de qualquer atleta, sempre se declarou torcedor do “Colorado”.

Até penso em lhe presentear com uma camisa do Internacional, com o nome “Gaitinha” gravado às costas. Tenho certeza que ele vai gostar e vestir. Não vai fazer o mesmo que o chapéu goiano. Acho que é colorado por influência do amigo comum, “Seco” Assis Brasil.

Cada vez que falo de torcedores colorados em São Gabriel, não posso esquecer o saudoso Adão (não sei o sobrenome), carroceiro que trabalhava para lojas de móveis da cidade, especialmente a Colombo. Toda a vez que passava no “Bar Pilequinho”, parava a carroça e beijava o escudo do Internacional, na camisa que orgulhosamente sempre vestia.

Quem não gostava nada disso era o Caio, meu amigo que na época trabalhava na Colombo e é gremista de quatro costados. Mas essa é outra história.

No “Bar Du Caio” (agora não é mais), perto da Santa Casa é sempre possível assistir na TV os jogos do Campeonato Brasileiro, especialmente do Internacional. E muitas vezes vi “Gaitinha” por lá, sentado pertinho do amigo Luiz Eduardo Assis Brasil, o “Seco”, colorado de primeira linha, igual aos irmãos Luiz Marengo e Caio Rangel.

NO LIVRO AMENIDADES 7

Frequentador assíduo do bar é o amigo doutor João Alfredo Reverbel Bento Pereira, mas sem coragem de assistir por lá os jogos do seu Grêmio, porque é lugar comum só se ver “colorados” ocupando mesas e cadeiras.

Mas ele não poderia deixar de falar algo sobre “Gaitinha”. Essa descrição do nosso estimado herói está no livro “Amenidades 7”, leitura obrigatória. E o amigão João Alfredo escreveu essa passagem, em crônica publicada no dia 16 de abril de 2014.

Contou ele que “num domingo, no bar "Du" Caio, estava a parceria toda reunida e em ebulição, quando chegou o “Gaitinha” e, como estava fresquinho, quase frio, desencavou um sobretudo do fundo do baú, além da camiseta, do moletom, da camisa, do colete, do casaco, do pala e do indefectível chapéu de aba larga, com uma fita do “Sentinela do Forte”.

Como se não bastasse tudo isso, uma cruz missioneira balançava no peito. Era uma figura assustadora. Atracou-se numa branquinha, misturada com catuaba, além de um pacotinho de amendoim. Apesar da vestimenta e da mastigação, é bom ouvinte. Participativo, riu bastante, sem perder o ar de bonomia, sempre mastigando.

Sou observador e, enquanto sorvia a minha “Kaiser Radler”, de baixíssimo teor alcoólico, pensei no grande Liberato Vieira da Cunha, que disse: "Você captura o efêmero, na ingênua tentativa de emprestar-lhe um levíssimo traço do infinito".

Como já estava passando da uma hora da tarde, levantei, fiz a despedida, paguei a conta e tomei o rumo de casa, com o domingo ganho.

MÚSICA SERTANEJA

Certa vez estava no “Bar Du Caio”, ao lado da Rádio Batovi. E por lá se encontravam várias pessoas que iam participar de um programa tradicionalista no “Galpão Canário Alegre”, na simpática emissora onde tive a honra de trabalhar.

E o pessoal aproveitava o espaço de tempo que ainda restava, para dar uma “amaciada” na garganta. E o que se viu foi de arrepiar: dois moços, devidamente pilchados, de botas, bombachas, tirador, chapéu quebrado na cabeça e lenço no pescoço, cantando músicas sertanejas.

Só “Gaitinha” se manteve fiel as nossas tradições. Pegou sua gaitinha de boca e o pandeiro, e salvou a noite. Eu o cumprimentei por isso, sob os olhares desconfiados dos “pseudos” gaúchos presentes.

E não foi só no “Du Caio” que aconteceu isso. Em muitos bares e lojas comerciais de São Gabriel se houve a todo volume músicas sertanejas. Nos carros de som pelas ruas, também. Até no “Galeto do Brito”, meu grande amigo, certa vez um enorme telão mostrava “Bruno e Marrone”. Quase perdi a vontade de almoçar.

Aqui fora ninguém quer saber da música tradicionalista do Rio Grande do Sul. Eu sou testemunha disso. Muitas vezes nos bares que freqüento em Brasília tentei colocar CDs gaúchos e a bronca foi geral.

Teixeirinha e Berenice Azambuja ainda toleram, e assim mesmo raramente. Então, não vejo razão para darmos atenção a coisas que nada tem a ver com a gente.

E às nossas rádios também tem culpa no cartório, pois até apresentam programas tipo campo e sertão. Com isso acabam incentivando o gosto por um tipo de música, que deveria ser chamada de “sertanojo”.

Os nossos CTGs, que poderiam fazer campanhas contra essa invasão musical, também não são mais como antigamente. Prova disso são os rodeios, que já viraram cópias de Barretos (SP), até com locutores gritando a todo o pulmão: “Segura peão”. Assim, parece que a coisa não tem jeito mesmo. (Por Nilo Dias - Publicado no jornal "O Fato", de São Gabriel (RS), edição de 24 de fevereiro de 2017)


sexta-feira, 3 de março de 2017

Encontro de ex-militares

No dia 6 de janeiro deste ano, aconteceu no Clube dos Sub-Tenentes e Sargentos do 6º BE Comb. o "1º Encontro de Ex-Integrantes da 13ª Companhia de Comunicação". Foi um momento de emoção, alegria e confraternizaçao. A partir de agora, todos os anos, no mês de janeiro o encontro será repetido. Foi uma iniciativa dos ex-soldados Figueiredo (1981) e Benilson (1982). (Fonte: Página de Benilson Moreira no Facebook) 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

*Boa tarde. Acabei de ler uma postagem sua sobre o Carnaval de São Gabriel. Outro dia me peguei ensaiando sobre o Carnaval de lá. Primeiro, tenho de me apresentar, sou filho e sobrinho de duas fundadoras da "Escola de Samba Filhos da Lua".

Talvez o senhor não saiba, mas a Escola foi fundada por uma dissidência dos "Canelas  Pretas", na rua Celestino Cavalheiro, 513, debaixo de um pé de salso chorão.

Eu tinha até pensado em fazer uma matéria sobre o Carnaval, mas me faltaram subsídios, os quais encontrei na sua postagem.

No que toca aos "Filhos da Lua”, infelizmente quando minha mãe faleceu foi perdida muita coisa, e nem sei onde anda até a ATA de fundação, que eu tinha guardada. Mas como moro em Porto Alegre e ela faleceu em São Gabriel, não sei onde está.

Em seu livro "100 anos de futebol em São Gabriel", o senhor lembrou do meu  pai como árbitro de futebol, Inocêncio Teixeira.

Um abração

Flávio Antônio Macedo Teixeira

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O grande "Chicão"

Cândido Francisco Silva de Campos, o popular “Chicão”, nasceu em São Gabriel no dia 9 de março de 1940. Desde cedo, mostrou sua paixão pelo futebol. Jogou como lateral-direito no Olaria F.C., tradicional equipe amadora da cidade. Depois, vestiu a camisa do Oriente F.C., o “Leopardão” da Vila Maria.

Quando deixou os gramados, foi nomeado delegado local da antiga Federação Rio Grandense de Futebol (FRGF), hoje Federação Gaúcha de Futebol (FGF), cargo que ocupou por longos 35 anos. Paralelamente, foi conselheiro da S.E.R. São Gabriel. Nos últimos anos, foi presidente do Conselho Deliberativo do São Gabriel F.C.

"Chicão" é casado com dona Luiza Maria, de cuja união nasceu a filha Maria Fabiana. Funcionário da Câmara de Vereadores há vários anos, agora aposentado, "Chicão" recebeu uma justa homenagem quando completou 25 anos de Casa. Foi o destaque esportivo de São Gabriel em 2009, e condecorado pela Câmara de Vereadores com o título de “Gabrielense Emérito”.

Não é só no futebol que "Chicão" se destaca. Carnavalesco apaixonado presidiu a "Escola de Samba vai Mesmo", uma das mais populares da cidade. Também foi presidente do antigo Clube 7 de Setembro e é membro efetivo da Sociedade Artística Gabrielense.

Time do Olaria Futebol Clube, sem identificação. Se alguem souber o ano e os nomes dos jogadores, por favor ajude, informando. Desde já agradeço. (Foto: Página de Cândido Francisco de Silva Campos no Facebook)

"Chicão" e um atleta do Olaria, sm identificação, com as faixas de campeões, (Foto: Página de Cândido Francisco de Silva Campos no Facebook)

"Chicão" pronto para o desfile da "Escola de Samba Vai Mesmo".  (Foto: Página de Cândido Francisco de Silva Campos no Facebook) 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

São Gabriel em 1922

São Gabriel em 1922 contava com nove ruas longitudinais e oito transversais. As principais vias públicas da cidade eram:  Barão de São Gabriel, Forte de Caxias, João Manoel, Coronel Tristão Pinto, Coronel Soares, Andrade Neves, Coronel Sezefredo, General Mallet, Laurindo Nunes e Praça Fernando Abbott.

Em 1886 a cidade de São Gabriel contava com 496 prédios; em 1897, 597; em 1900, 695; em 1912, 865; em 1913, 961; em 1917, 1.236; em 1918, 1.344 e em 1921, 1.360. A população urbana e suburbana somava 13.350 pessoas, segundo o último recenseamento.

A cidade contava com cinco praças, sendo três delas arborizadas e a avenida Doutor Júlio de Castilhos. As ruas eram amplas, bem alinhadas e cuidadas, sendo 12 calçadas a pedra. Possuíam bons passeios de laje e mosaico, sendo algumas arborizadas.

A edificação, no geral era boa, apresentando a cidade agradável aspecto, e sendo bastante movimentada. A iluminação pública e particular já era elétrica, fornecida por empresa particular.

Dentre os edifícios públicos e particulares destacavam-se os seguintes: Igreja Matriz, Casa de Caridade, Collégio Elementar, Collégio das Freiras, Quartel do Exército, Estação Férrea, Banco Pelotense, residências dos senhores Zeno de Castro, Ricardo Bicca Filho, Sebastião Menna Barreto, Jacob Olympio de Lima, João Pedro Nunes, Franklin Lima, coronel Francisco Hermenegildo da Silva, dona Corina Menna Barreto de Azambuja,  Olympio Farias Estrázulas, Heitor Brandão, Antônio Macedo, João Baptista Chagas, José Narciso Antunes, doutor Tito Prates da Silva, Victor Pires, Alfredo Faria Corrêa, doutores Camillo Mércio e Fernando Abbott, Casino Gabrielense, União Caixeiral, Coliseu, etc.

A Intendência Municipal, era o principal edifício da cidade, tendo custado 400 contos de réis. (Fonte: Livro, "O Rio Grande do Sul", de Alfredo R. da Costa)

Quartel do 3º Regimento de Artilharia e Quartel General da 3ª Brigada de Artilharia. (Foto: Livro, "O Rio Grande do Sul", de Alfredo R. da Costa)

Santa Casa e cemotério em 1922. (Foto: Livro, "O Rio Grande do Sul", de Alfredo R. da Costa)

Igreja Matriz. (Foto: Livro, "O Rio Grande do Sul", de Alfredo R. da Costa)


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Visita a São Gabriel

Recentemente os irmãos jornalistas Lúcio e Mariúza Vaz estiveram em visita a São Gabriel. Mariuza foi a localidade de Passo do Ivo, onde nasceu, depois de 50 anos. Visitaram parentes e amigos e Lúcio matou a saudade de um bom churrasco de ovelha. Já Mariuza abandonou o hábito de comer carne já há algum tempo. (Fotos: Júlia Vaz)

Lúcio e Mariuza no Passo do Ivo.

Lúcio em visita aos tios Téo e Olavo em Ponta dos Salsos.

Lúcio e os tios Téo e Olavo, preparando um churrasco de ovelha.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Uma história que parece lenda (Final)

A primeira visita a Pedras Altas em 1910 foi a do tenente Mário de Sá, redator do jornal “O Comércio”, de São Gabriel, tido por Assis Brasil na conta de brilhante escritor.

Reformando-se ainda como tenente, Mário de Sá radicou-se em Porto Alegre, em cuja imprensa militou, alcançando renome como polemista. Terminou seus dias na redação do “Correio do Povo”, como editorialista de forma escorreita e estilo castigado.

Em 24 de fevereiro de 2008 tiveram início as obras do castelo, com os trabalhos de escavações. Em 14 de dezembro foi lançada a pedra fundamental. O projeto foi traçado pelo próprio Assis Brasil.

Os primeiros animais vacuns adquiridos por Assis Brasil, com vistas a incorporá-los a uma granja-modelo, como seria a de Pedras Altas, foram da raça Jersey. Em 1895, quando era ministro plenipotenciário em Lisboa adquiriu duas vacas Jersey, na Inglaterra, que pertenciam ao plantel da Rainha Vitória.

Mantidas inicialmente em Portugal, foram levadas para Ibirapuitã e, posteriormente, para Pedras Altas, onde constituíram a base do plantel ali formado.

Os cavalos criados por Assis Brasil só corriam em seu nome quando não havia comprador. Infenso a disputar prêmios nos hipódromos, também o era às apostas em corridas. Concentrava na criação dos animais todo o seu interesse pelo puro sangue inglês.

E o fazia movido pela ideia de que era indispensável, até por imperativo de segurança nacional, melhorar a qualidade do cavalo crioulo, através de cruzamentos com o árabe e o inglês de corrida.

Fundado na Estância do Ibirapuitã, o seu haras foi transferido para Pedras Altas e, posteriormente, localizado na Estância de Itaiaçu, estabelecimento por ele adquirido no município de Uruguaiana.

INTRODUTOR DO DEVON NO BRASIL

Foi também Assis Brasil que introduziu no Brasil o gado Devon. Este era originário da Cabanha Loraine, instalada em Paisandu, no Uruguai, pelo inglês J.G. French, que ali viveu e trabalhou por mais de 30 anos.

Era um grande estancieiro. Seu estabelecimento, contava com 3.500 reses Devon, a maioria puras por cruza e muitas de pedigree, subdividiam-se em 28 potreiros.

Depois de adquirir os primeiros animais Devon para Pedras Altas, Assis Brasil partiu para importações diretas da Inglaterra, berço da raça. O dono de Pedras Altas acumulou a experiência de criar gado Devon em larga escala.

E dizia que se tratava da mais antiga de todas as raças aperfeiçoadas do mundo, considerando-se estabelecida definitivamente há mais de 500 anos.

Outros importantes criadores de gado Devon, desde os primeiros tempos: Rafael Barcelos Gonçalves, de Rosário; José de Assis Brasil, de São Gabriel; Visconde Ribeiro de Magalhães, de Bagé; Nicolau Kroef, de São Sebastião do Cai e Luiz Dutra, de Bom Jesus.

Foi também Assis Brasil que trouxe as primeiras ovelhas da raça “Karakul”, para o Brasil.

Em 30 de junho de 1913 foram realizados o primeiro almoço e também jantar da família no Castelo, com a presença do casal Pedro Osório. Nessa data também, além do castelo propriamente dito, foi inaugurada a adega, com verdadeiras preciosidades, entre as quais um “Xerez”, de 1895 e um “Napoleon”, conservado em velho casco, atribuído a safra de 1694. Ainda havia garrafas centenárias de vinhos “Mariscal Sucre” e “Pitt”.

Grande conferencista, Assis Brasil colheu um dos maiores êxitos de sua vida pública ao falar sobre “Idéia de Pátria”, no Teatro Municipal de São Paulo, a 22 de setembro de 1917, atendendo convite da Liga de Defesa Nacional.

Em 1914, Assis Brasil esteve em São Gabriel, onde ficou por dois dias. Aproveitou para visitar a “Estância do Trilha”, fundada pelo seu mano João. Foi nessa casa, cedida pelo proprietário, que se instalou o primeiro clube republicano do município.

Em 21 de agosto de 1915 Assis Brasil procedeu a arborização da antiga Praça São Luiz, em São Gabriel, que depois teve o nome mudado para 15 de Novembro.  O trabalho encerrou dia 23 e as mudas foram plantadas pessoalmente pelos sobrinhos Ptolomeu, José e Leônidas.

Diversas pessoas do lugar, inclusive o chefe político Fernando Abbott e o intendente Francisco Menna Barreto, também ajudaram no trabalho de arborização, plantando numerosas mudas por suas mãos. Foram plantadas diversas espécies, exóticas e nativas, inclusive quatro pés de angico e quatro de carvalho.

UM GRAVE INCIDENTE

Em 3 de março de 1916 deu-se um grave incidente, quando Francisco, filho de Assis Brasil, desobedecendo ordem formal do pai, retirou uma arma de um armário e esta disparou, acidentalmente atingindo o amigo João Menditeguy.

A bala deu em cheio na base do pescoço, na abertura do esterno. Por um milagre não ofendeu nenhuma artéria. Estava na Granja, naquele dia, o médico doutor Pedro Osório que fez os necessários curativos. Depois de consultas com outros profissionais, o ferido ficou são.

Percival Farqhuar o riquíssimo proprietário de estradas de ferro, nas duas primeiras décadas do século, ao visitar a sala de Armas do Castelo de Pedras Altas em 1916 perguntou a Assis Brasil: “Por que tinha tanto armamento”. Assis Brasil respondeu-lhe sobranceiramente: “tinha muitos inimigos”.

Em 1924, tendo surgido um movimento revolucionário, exilou-se no Uruguai. Em 1927 os sufrágios de seus correligionários o elegeram deputado federal. Nesse mesmo ano teve participação destacada na fundação do Partido Democrático Nacional.

Em 1928, com Raul Pilla, fundou o Partido Libertador. Em 1929, o presidente Washington Luís pretendeu impor a candidatura de Júlio Prestes para a sucessão presidencial.

Assis Brasil aconselhou o Partido Libertador a cerrar fileiras em torno de Getúlio Vargas, então Presidente do Estado, que se opunha ao candidato oficial e prometera aceitar o voto secreto se eleito presidente.

Em 1930 Washington Luís foi deposto e Getúlio Vargas assumiu o poder como Chefe do Governo Provisório, do qual Assis Brasil fez parte como Ministro da Agricultura, cargo ao qual renunciou em protesto contra o empastelamento do jornal “Diário Carioca”, por pessoas ligadas ao tenentismo.

Em 1932, foi o grande idealizador do Código Eleitoral, baseado em sua obra “Democracia Representativa: do voto e do modo de votar”. Neste código está a primeira menção à urna eletrônica, quando ele levantou a hipótese da utilização de uma máquina de votar.

Em 1934 foi em missão especial a Buenos Aires, para ocupar a Embaixada do Brasil, acéfala desde o movimento revolucionário argentino de 1930, por não haver o presidente Washington Luís reconhecido o governo do General Uriburú.

Assis Brasil disse a Mem de Sá sobre a repartição de cargos e ministérios na Revolução de 1930: "Menino, todo homem tem seu preço. O venal se deixa comprar por dinheiro. O meu preço é o Código Eleitoral. E como vale mais a pena ladrar dentro de casa do que fora dela, aceito o ministério".

Suas últimas participações em conferências internacionais foram a chefia da “Delegação Brasileira à Conferência Econômica Preliminar”, em Washington, e à “Conferência Monetária e Econômica Mundial de 1933”, em Londres.

Em 1933 foi eleito deputado à Assembleia Constituinte. E retribuiu a visita que o Príncipe de Gales fizera ao Brasil. Ao retornar, resignou a todos os cargos oficiais e voltou à vida do campo, que sempre preferiu a tudo o mais.

A MORTE DE ASSIS BRASIL

Em agosto de 1938 adoeceu em consequência de uma gripe. O seu coração, de 80 anos, não resistiu. Na noite de 24 de dezembro, no Castelo de Pedras Altas, fechou para sempre os olhos, com a consciência tranquila de haver cumprido o seu dever e trabalhado pela glória da pátria, realizando na vida o que afirmou em um dos seus mais brilhantes manifestos.

Seu corpo descansa no local denominado “Boa Viagem”, cemitério particular localizado nos fundos do castelo. Lá também estão sepultadas à esposa Lídia e as filhas Cecília e Joaquina.

Pedras Altas resiste até hoje. Cercado por parreirais, o castelo, com 44 cômodos, 12 lareiras, torre com ameias e mais de 100 anos de história, construído como uma declaração de amor à mulher amada, agora enfrenta uma dura batalha contra o tempo e o vento.

Há um século, os trens que ligavam as cidades do oeste gaúcho, Bagé, por exemplo, aos portos de Rio Grande e Pelotas paravam em frente ao Castelo de Pedras Altas, mesmo que não houvesse passageiros para subir ou descer.

Isso, para o embarque de pacotes com a produção da Granja de Pedras Altas. Eram queijos, manteiga, doces e frutas secas. E lã de ovelha. E banha de porco.

Frequentemente, saíam dali vagões lotados de animais das raças Devon, Jersey, Karakul, Ideal e puro-sangue inglês, todos vendidos como matrizes, jamais como carne para açougue.

Foi nesse lugar ermo, a 20 km da fronteira com o Uruguai, que o legendário Assis Brasil tentou provar o que havia aprendido em suas visitas a fazendas dos Estados Unidos e da Europa, onde atuou como embaixador do Brasil na virada para o século XX.

Ele quis demonstrar que em uma pequena área bem manejada se poderia obter resultados melhores do que nas tradicionais estâncias gaúchas onde o gado era criado ao Deus-dará, como no tempo dos Jesuítas.

No piso da entrada do jardim do castelo de Pedras Altas, Assis Brasil mandou gravar na pedra a seguinte quadra de sua autoria:

Bem-vindo à mansão que encerra
Dura lida e doce calma.
O arado que educa a terra.
O livro que amanha a alma.

O projeto andou enquanto Assis Brasil viveu, sempre cercado de amigos, clientes, políticos e admiradores. Inimigos? Não os teve. Quando muito arranjou adversários, a quem enfrentava exclusivamente na palavra, sem jamais recorrer às armas, que só usava para se exibir – era excelente atirador.

Metido no meio dos caudilhos, consagrou-se como “chefe civil da revolução”, movida pelos maragatos contra o chefe chimango Antônio Augusto Borges de Medeiros, “o eterno presidente” do Rio Grande do Sul entre 1898 e 1927.

O ex-senador Paulo Brossard, que descreveu Assis Brasil em livro, resumiu-lhe o caráter e o estilo em uma única palavra: “cavaqueador”. Assis era um conversador profissional, dava um boi para entrar em uma polêmica; e uma boiada para não sair dela.

A “CACHAÇA” DE ASSIS BRASIL

A luta pelo poder foi sua “cachaça”, sua glória e sua perdição: ao entrar em paradas políticas que mais de uma vez o levaram ao exílio, ele comprometeu o futuro do seu empreendimento que, além de objetivos rurais, tinha pretensões culturais.

Quando morreu, na noite de Natal de 1938, Assis Brasil deixou dívidas que nos anos seguintes exigiram a venda de outras propriedades das quais a família tirava renda para ajudar a sustentar o sonho de autossuficiência da sua granja.

Reduzido a 170 hectares (metade da área original), o projeto seguiu em pé, mas expurgado de fantasias destruídas pelo tempo e o vento. Dos pomares, por exemplo, restaram alguns vestígios, como pereiras gigantescas e o suporte das videiras.

Entretanto, em uma confirmação de que o fundador tinha razão quanto às propriedades do solo e do clima para a fruticultura de clima temperado, nos arredores de Pedras Altas começaram a aparecer os vinhedos implantados por empresários da região de Bento Gonçalves, a capital do vinho gaúcho.

O DIÁRIO DE CECÍLIA

O dia-a-dia de Pedras Altas não foi contado apenas por Assis Brasil. Sua filha Cecília, também redigiu um diário. Numa época marcada por sabres ensanguentados, botas embarradas e relinchos de cavalos, a jovem, que devorava as poesias do norte-americano Henry Longfellow em inglês e ouvia sinfonias de Ludwig van Beethoven na solidão do pampa, registrou o cotidiano e as revoluções do início deste século.

No seu diário, tão preciso quanto sensível, Cecília contou a vida no castelo e as conflagrações entre maragatos (libertadores de lenço vermelho no pescoço) e chimangos (republicanos de lenço branco).

Cecília herdou do pai esse hábito, e por mais de uma década (o primeiro diário conservado é de 1916, mas se sabe que ela começou a escrever antes, e o último, de 1932) manteve também diários com a intenção de informar o pai, que devido a sua intensa vida pública constantemente viajava, o que se passava com a família, não apenas em Pedras Altas, mas também nos outros lugares em que moraram.

Conforme Maria Helena Câmara Bastos, “Além da Granja de Pedras Altas, Cecília escreveu seu diário em Pelotas, Rio Grande, Bagé, Rio de Janeiro e em quatro pequenos estabelecimentos rurais – Chácara Bela Vista, Estância Nova, Coxilha Grande e Berachi”.

Cecília e os irmãos eram muito estimulados, em casa, a ler clássicos da literatura e a aprender línguas. Cecília lia fluentemente em inglês e em francês. A encenação de peças de teatro domésticas, pelos irmãos, também era uma atividade bastante apreciada.

Cecília, de brincadeira, escrevia peças para o divertimento da família, como relatou Joaquina, sua irmã, quando falava sobre o teatro na família:

“Ah! Mas era de brincadeira! Nós apresentávamos até óperas. Fazíamos a “Dama das Camélias”, como sempre! “La Traviata”... Era muito engraçado porque a gente improvisava tudo na hora. Escrevi uma peça em inglês. Há poucos dias ainda a vi lá em cima. Cecília também escrevia. Era só para a gente se entreter”.

Cecília, no entanto, nunca se viu como escritora. Seus diários chegaram até nós em 1983, quase 50 anos após sua morte, por iniciativa de Carlos Reverbel, que pediu autorização da família Assis Brasil para selecionar as passagens que considerasse
Interessantes, “em função do próprio conteúdo”.

Primeira filha do segundo casamento de Joaquim Francisco de Assis Brasil, Cecília era diferente da maioria das moças da virada do século. Ela nasceu em Washington, a 26 de maio de 1899, quando Assis Brasil era embaixador nos Estados Unidos.

Morreu aos 35 anos, solteira, fulminada por um raio quando cavalgava nas proximidades do castelo de Pedras Altas. Era uma mulher de olhos morenos arrebatadores, mãos delicadas, feições suaves e um sorriso compreensivo. Cecília amava os cavalos e o seu morreu junto com ela.

Joaquim Francisco de Assis Brasil escreveu a um amigo sobre a
trágica morte da filha dileta, Cecília, vitimada por um raio num dia de tempestade em Pedras Altas:

Antes de tudo, deixe-me agradecer-lhe cordialmente, também em nome de Lídia e nossos filhos, sua demonstração de simpatia com nossa indizível dor. Perdemos uma filha que mereceria o título de “predileta”, se não fosse para nós um dogma a igualdade do afeto dispensado a todos os filhos. E de que nós a perdemos! [...].

Nada poderá consolar-nos desta perda. Apenas nos esforçamos por considerar uma felicidade ela haver sido poupada de qualquer sofrimento ou de deficiência física causada por doença, ela que tanto merecia gozar da vida.

Eu comprei o livro “O Diário de Cecília Assis Brasil”, também escrito por Carlos Reverbel. Não vou esmiuçá-lo aqui, como fiz agora, com o diário de seu pai, porque as histórias muitas vezes se repetem.

UMA ATRAÇÃO TURÍSTICA

O Castelo é uma das principais atrações turísticas de Pedras Altas, que inclui uma visita dentro da propriedade. Joaquim Francisco de Assis Brasil deixou para a eternidade um acervo histórico para que o visitante possa se inspirar, e se reportar a uma época em que poucos pensavam em empresa rural, com diversificação de atividades, transformação dos produtos primários em derivados, família trabalhando na atividade do campo com cultura, tecnologia e conforto.

Assis Brasil construiu a Granja para que ela fosse visitada e uma visita valesse uma lição de coisas. Ele dizia que em certas ocasiões vale mais um dia de ver do que um ano de ler. As visitas na propriedade devem ser agendadas. Informações: 53 - 6130099 - 6130075 - 81131417.

Imponente por fora na solidez dos granitos rosados, com os torrões medievais parecendo vigiar a solidão dos campos, o castelo de Pedras Altas também impressiona por dentro.

Móveis de madeira maciça, lareira fumegando, estátuas, espadas antigas, relógios que gemem pesadamente e retratos amarelecidos revelam segredos da família de Joaquim Francisco de Assis Brasil e mostram fragmentos da história do Rio Grande do Sul. Entrar na fortaleza é como espiar uma época de sonhos, revoluções e ideais.

Logo no hall de entrada do castelo tem um biombo com aplicações em couro, onde constam assinaturas dos famosos da época, como Bento Gonçalves, Santos Dumont, etc.

A mesa, onde os visitantes assinam o livro de visitas, é a mesma em que foi assinado o término da revolução de 1923.

O arquivo de Assis Brasil permanece no castelo de Pedras Altas, residência do destacado rio-grandense, de 1908 a 1939, ano de seu falecimento.

Parte considerável desse arquivo foi microfilmado, encontrando-se no Gabinete de Pesquisas Históricas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O acervo de Pedras Altas é constituído por inúmeros documentos, nem, todos compulsados pelos pesquisadores.

PATRIMÔNIO DO ESTADO

Erguido entre 1909 e 1913, em estilo medieval, a granja e o castelo foram tombados em 2009 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado.

O tombamento dos bens móveis do castelo inclui uma extensa lista de mobiliário, adornos, esculturas, lustres, louças, pratarias, quadros, tapetes, livros e documentos, entre outros objetos que pertenceram ao líder político Joaquim Francisco de Assis Brasil.

Os espaços contêm mobiliário e objetos de época, trazidos por Assis Brasil principalmente de Lisboa, Paris, Washington e Buenos Aires, locais em que viveu com a família quando exercia atividade diplomática.

Os móveis são todos em madeira maciça e vieram de Paris. Na parede ainda sobrevive intacto, o relógio que pertenceu a Bento Gonçalves.

No castelo até os vidros quebrados tem história. Lembram a época da invasão dos republicanos durante a Revolução Farroupilha. Assis Brasil, ao não deixar que os vidros fossem recolocados, disse: “Todas as casas devem ter suas cicatrizes”. A Biblioteca guarda 15 mil livros, entre clássicos em inglês, francês e latim.

O castelo sempre foi habitado pela família. Hoje é sua neta Lídia, quem toma conta do local, com a ajuda das filhas e de uma funcionária.

Há fotografias de autoridades e personalidades que marcaram o mundo, como o retrato de uma brincadeira entre Assis Brasil e Santos Dumont. Exímio atirador, o diplomata acertou uma maçã colocada sobre a cabeça do “pai da aviação”.

Também é destaque uma peça de bronze que era usada para chamar as pessoas à mesa.

NECESSIDADE DE RESTAURAÇÃO

Em 1923 foi assinado no castelo o “Pacto de Pedras Altas”, que pôs fim à Revolução de 1923. A Granja de Pedras Altas, que além do castelo inclui edificações rurais e áreas abertas como jardins e potreiros, já possui tombamento estadual, por razões históricas, desde 1999. A proteção estadual aos bens móveis existentes no castelo é uma complementação ao tombamento da Granja.

Em outubro de 2009, a Federação da Agricultura do Estado (Farsul) decidiu arrecadar recursos para a restauração do prédio, estimada em 5,6 milhões de reais. Entretanto, a documentação necessária para obter a verba não foi apresentada e não houve interessados.

Os familiares que ainda moram na Granja dizem que é difícil manter o patrimônio. Por ser tombado, quem tem a preferência de compra são a prefeitura e os governos estadual e federal.

A degradação ameaça o acervo do castelo, que contém uma grande biblioteca, e limita o número de visitantes. Há um projeto para transformá-lo em um centro cultural no futuro.

Manchas escuras ganharam as paredes, como se quisessem desenhar o mapa de um país inexistente. As infiltrações parecem hemorragias que teimam em não ser estancadas, enquanto que o húmus pespega nos metais que adornam as aberturas.

Os torreões se mantêm firmes, tal como verdadeiras sentinelas templárias, mas parece que o velho centenário perdeu a alma. Falta-lhe a vitalidade dos tempos de glória, a azáfama diária de seus moradores.

O advogado e estudioso de história, Fernando Antônio Freitas Malheiro Filho, disse muito bem: E a memória, nesse país de desmemoriados, agoniza com a agonia do castelo, que em seu silêncio ruge e reclama a restauração, a utilização à altura de seu legado.

Espera que aqueles que têm o poder de fazê-lo, realmente o façam como é de sua obrigação: evitar o sepultamento do que há de mais relevante para um povo, sua identidade.

A RBS TV, de Porto Alegre, apresentou até recentemente uma série de programas intitulados “Fazendas e Estâncias”, em que mostrava através de documentários como eram as propriedades rurais do Rio Grande do Sul.

Em novembro de 2005 foi transmitido um capítulo dedicado à Granja de Pedras Altas, falando de sua história e apresentando depoimentos sobre sua construção e histórias ali passadas.

Participaram do programa, por ordem de apresentação, Antônio Vargas, escritor, Lídia Costa Pereira de Assis Brasil, neta de Assis Brasil, Francisco Pinheiro, peão da década de 1970 e Luiz Francisco Pereira de Assis Brasil, bisneto de Assis Brasil. (Pesquisa: Nilo Dias - Publicado no jornal "O Fato", de São Gabriel-RS, em 4 de fevereiro de 2017))

Cemitério da Boa Viagem, onde Assis Brasil está sepultado.
*Amigo Nilo Dias. Li, esta semana, no jornal "O Fato", a reportagem que escreveste sobre Joaquim Francisco de Assis Brasil. Apesar de conhecer, desde criança, relatados por meu pai, alguns episódios da vida desse brilhante gabrielense e, mais tarde, tomar conhecimento de outros fatos, na convivência  com o  doutor Milton Teixeira (uma verdadeira enciclopédia ambulante), foi lendo teu artigo que consegui complementar essas  informações esparsas, e ficar conhecendo um pouco mais sobre a verdadeira participação  de Joaquim Francisco de Assis Brasil, tanto no desenvolvimento  agropequário, como na história do Rio Grande do Sul.

Parabéns, pois, pela excelente reportagem (como todas as de tua autoria, aliás) que muito deve  contribuir para que os gabrielenses conheçam um pouco mais da vida de um dos nossos mais ilustres conterrâneos. Um grande abraço.

Elody Helena Veiga de Menezes