quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Ana Rita Focaccia

A Ana Rita Chiappetta Focaccia é, no meu entender, a filha que mais parece com seu pai, Dagoberto Focaccia. A independência de seus atos, a firmeza de suas opiniões, o talento e a paixão pelo jornalismo e futebol, são atributos herdados do meu amigo Dagô.

Eu lembro dela ao microfone, animando eventos públicos e tudo o mais que viesse. Voz bonita e desembaraço. A foto abaixo, tirada de sua página no Facebook, por si só já basta para mostrar que ela domina com perfeição qualquer situação.  


domingo, 4 de dezembro de 2016

*Tenente Sezefredo Mesquita nosso tio bisavô. De sua grande prole na fazenda Sobradinho em Umbu é a origem dos Mesquita na região. Comandou a 3ª Brigada de Cavalaria na Batalha de Tuiuti. Faleceu em Tuiucuê em 3 de fevereiro de 1867, de cólera

Antônio Carlos Mesquita do Amaral

Com referência a postagem: https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=3765766403064658429#editor/target=post;postID=2356414636063447143;onPublishedMenu=allposts;onClosedMenu=allposts;postNum=4;src=postname
*Parabéns Nilo, pelo lançamento do seu livro. Você é sem dúvida um grande gênio.

Maria Lucília Oliveira

sábado, 3 de dezembro de 2016

Três gerações dos Bragança

O amigo doutor Ricardo Bragança, com os netos Mathias e Augusto e o senhor Máximo Bragança, na "juventude" de seus 81 anos e a felicidade de ser bisavô. (Foto: Malu Bragança)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Claudio Castro em três momentos

Fui eu quem trouxe o Cláudio Castro de Rio Grande para São Gabriel. Foi quando da fundação da Rádio Batovi. Os pioneiros da emissora foram eu (Nilo Dias), minha esposa Teresinha Motta, Paulo Gilberto Hoher (pai) Paulinho Hoher (filho), João Francisco, o JF, José Antônio (secretário), Miguel (operador de som), Odilom  Ramos, Miguel Monti e naturalmente Claudio Castro. Se faltou alguém, peço perdão. Em homenagem a ele publico três momentos de sua exitosa carreira. (Fotos: Página de Cláudio Castro, no Facebook)

Na Rádio Batovi. Rodeado por João Francisco (JF) e Everaldo Schimidt (de preto)

Início de carreira em Rio Grande.

Ainda no início da carreira em Rio Grande.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Heron Domingues, um gênio da radiofonia brasileira

Heron de Lima Domingues é pouco lembrado em São Gabriel, sua terra natal. O único vestígio existente sobre ele na cidade é uma pequena rua de apenas pouco mais de 100 metros, localizada atrás do Estádio Sílvio de Faria Corrêa. De resto, nada.

E Heron Domingues, que nasceu no dia 4 de junho de 1924 e faleceu no Rio de Janeiro em 9 de agosto de 1974, não foi pouca coisa. Trata-se do maior locutor de notícias da história do rádio brasileiro. Talvez o silêncio reinante em sua terra natal se explique pelo fato dele não ter tido nenhum contato com o rádio local.

O historiador Osório Santana Figueiredo certa vez escreveu um elucidativo artigo sobre a vida de Heron Domingues, do qual este jornalista retirou boa parte deste trabalho. Como, por exemplo, que seu pai era o tabelião Gabriel Pedroso Domingues, chefe de cartório e sua mãe dona Gelsa Lima Domingues, do lar.

Tinha mais quatro irmãos, Ceres, Vera, Eurydice e Eudyceléia. Eles viviam em uma casa que ainda existe na rua General Mallet, 637 e com a mesma fachada. Em 1935 seu Osório conheceu toda a família.

Quando criança em São Gabriel, Heron inventou um Circo e ele próprio representava todas as cenas. Certa vez, conta o historiador, ele afinou uma pera com a faca até deixar tipo vela. Mas ninguém sabia.

Cravou um toco de pau de fósforo na ponta. Todos pensava que era uma vela mesmo. Depois das suas comparações pôs fogo no pau de fósforo e comeu a vela.

INTELIGÊNCIA PRECOCE  

O senhor Sady Barbosa, seu contemporâneo, também de saudosa memória, contou a Osório que Domingues como guri era singular. Dotado de uma inteligência precoce, desde menino mostrava vocação para ser radialista.

Quando havia futebol numa cancha que existia na Praça Doutor Camilo Mércio, antiga “Praça da Cadeia”, ele pegava uma caneca de lata e irradiava toda a partida com perfeição que causava admiração a todos.

Em 14 de junho de 1939, quanto tinha 15 anos, Heron perdeu sua mãe, que foi vítima da tuberculose. Entristecido com o golpe seu pai resolveu mudar-se para Porto Alegre, onde Heron completou o curso ginasial no Colégio Rosário, tendo como colega, entre outros, o veterano jornalista Flávio Alcaraz Gomes.

Quis o destino que Heron iniciasse a carreira de radialista longe de São Gabriel. Aos 16 anos participou de um concurso para cantor na Rádio Gaúcha, de Porto Alegre. Era um domingo do mês de dezembro de 1941, dia escolhido pelos japoneses para bombardear “Pearl Harbour”, no Havaí.

Como para tudo é preciso ter sorte, não havia nenhum locutor na emissora naquele momento e coube a Heron, que nem funcionário era, lançado às pressas aos microfones para dar a notícia em primeira mão.

Não participou do concurso, mas saiu da rádio empregado. Depois foi para ás Rádios Difusora e Farroupilha, onde apresentou o “Grande Jornal Falado Farroupilha”, ao lado de Ruy Figueira.

Em 1944, mudou-se para o Rio de Janeiro, para trabalhar na Rádio Nacional, como apresentador do “Repórter Esso”, o mais importante noticiário radiofônico da época, que estava no ar desde 28 de agosto de 1941. Heron Domingues apresentou o “Repórter Esso” por 18 anos.

Foi o primeiro noticiário de radio jornalismo do Brasil que não se limitava a ler as notícias recortadas dos jornais, pois as matérias eram enviadas por uma agência internacional de notícias sob o controle dos Estados Unidos.

Nos primórdios do rádio era comum o recorte de notícias dos jornais, para serem lidos nos noticiários. A sabedoria popular apelidou essa prática de “Gillette Press”. Algumas emissoras custaram a abolir isso e criar seus próprios Departamentos de Notícias.

Em uma das emissoras que trabalhei, o dono contratou um funcionário só para fazer isso. E contavam-se muitas histórias de foras monumentais ocorridos em razão disso. Não conto por razões óbvias.

O PATROCÍNIO DA ESSO

O “Repórter Esso” era patrocinado pela Esso Brasileira de Petróleo e já existia em cidades como Nova York (EUA), Buenos Aires (Argentina), Santiago (Chile), Lima (Peru) e Havana (Cuba) – fruto da “Política de Boa Vizinhança” dos Estados Unidos com os países da América Latina, seus aliados na guerra.

O programa era produzido no escritório de uma agência estrangeira de Publicidade e Propaganda, sediada no Rio de Janeiro, a partir de informações distribuídas pela agência internacional de notícias United Press International (UPI).

Minutos antes do programa entrar no ar um estafeta cruzava a Avenida Rio Branco até a Praça Mauá e entregava o noticiário, no 22º andar do edifício “A Noite”, na Rádio Nacional, do Rio de Janeiro.

Os locutores que fizeram maior sucesso no noticioso foram: Munir Mieli Kalil, Gontijo Teodoro, Luiz Jatobá e Heron Domingues.

Munir Mieli Kalil foi o primeiro Repórter Esso no Brasil e em São Paulo, na época, o noticiário mais famoso da TV Tupi. Nasceu em 2 de dezembro de 1930 e faleceu em 13 de abril de 1970, num acidente na Marginal Pinheiros em São Paulo.

Luiz Jatobá foi dono de uma das mais belas vozes da locução e narração no rádio, cinema e televisão, durante 45 anos. Depois de trabalhar nos Estados Unidos voltou ao Brasil, tornando-se o apresentador do primeiro noticiário da TV brasileira, o “Repórter Esso”, na TV Tupi, do Rio de Janeiro. Faleceu em 1982 em Nova York, aos 67 anos.

Gontijo Teodoro ficou famoso por comandar o popular "Repórter Esso", programa que marcou época na televisão brasileira. A célebre frase "Amigos ouvintes, aqui fala seu Repórter Esso, testemunha ocular da história", sempre era acompanhada por uma das vinhetas musicais mais conhecidas na história da TV brasileira.

O apresentador comandou o programa entre 1953 a 1970, na extinta TV Tupi. Gontijo morreu aos 78 anos de idade, vítima de enfarto, no Rio de Janeiro.

O “Repórter Esso” também lançou no Brasil o primeiro guia impresso para orientar radialistas na preparação do noticiário. O “Manual de Produção” destacava três regras básicas cumpridas com rigor pelo programa:

O “Repórter Esso” é um programa informativo. O “Repórter Esso” não comenta notícias. O “Repórter Esso” sempre fornece as fontes da notícia.

Determinava que seria de 5 minutos a duração no ar de cada edição normal do “Repórter Esso”. Vinte segundos a abertura e encerramento, quatro minutos notícias locais, nacionais e internacionais. Quarenta segundos mensagem comercial. 

A abertura seria padronizada: “Prezado ouvinte, bom dia (boa tarde ou boa noite). Aqui fala o Repórter Esso, um serviço público da Esso Brasileira de Petróleo e dos revendedores Esso com as últimas notícias UPI”.

Encerramento: “O Repórter Esso voltará ao ar logo mais (ou amanhã) às (...) horas. Até lá, muito bom dia (boa tarde ou boa noite) e... lembre-se: dá gosto parar num posto Esso”.

E também aconselhava que cada edição do informativo contasse com 40% de notícias locais, 40% de notícias nacionais e 20% de notícias internacionais. O conceito de “furo” subordinava-se à verdade do acontecimento; precisava dar a notícia certa, se possível, em primeira mão.

Heron Domingues fundou em 1948, na Rádio Nacional, uma seção de jornais falados e reportagens com a finalidade de dar uma linguagem própria ao Radiojornalismo.

Até esta época, e pouco antes da chegada do manual de redação, o Repórter Esso era apresentado com os telegramas lidos da forma que chegavam diretamente da agência UPI. Heron Domingues descobriu a medida de tempo de leitura de uma notícia, que correspondia a 15 linhas por minuto.

A CREDIBILIDADE DE HERON DOMINGUES

Boa parte da grande credibilidade do “Repórter Esso” junto aos ouvintes na época da guerra foi resultado da locução de Heron Domingues, escolhido entre centenas de candidatos para dar voz ao noticioso. Milhares de ouvintes se acostumaram e aprenderam a confiar no estilo de locução de Heron, que passou a ser imitado em todo o País.

Ele mesmo relatou que trabalhou no “Repórter Esso” de 1944 a 1962, sem um dia de folga. Levantava ás 6h45min e voltava para casa à 1h30min da madrugada. Nos períodos críticos, dormia na rádio, que tinha uma cama na redação.

Durante a guerra, dormia na Rádio Nacional com um fone no ouvido, diretamente ligado a UPI. Sempre que havia uma notícia importante, ele era despertado e colocava a emissora no ar e Transmitia a notícia.

Para o fim da guerra, a emissora preparou uma programação especial do “Repórter Esso”, em que a notícia seria dada fundida com o repicar de sinos. Com medo de se emocionar muito diante do microfone, gravou o início da transmissão: “Atenção! Atenção! Acabou a guerra”.

Acampado no estúdio da Rádio Nacional, Heron Domingues, aguardava sôfrego pelo telegrama que confirmaria o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Deveria fazer jus ao apelido a ele atribuído, “o primeiro a dar as últimas” e não arredaria pé da rádio até que anunciasse as boas novas.

Após passar Natal, Ano-Novo e Páscoa em alerta, os colegas insistiam para que ele fosse descansar em casa. Aceitou o conselho a contragosto e, para sua decepção, foi em casa que o radialista soube do fim do armistício, pela emissora concorrente, a Tupi, na voz do repórter Carlos Frias.

Este, além de locutor era apresentador, repórter e produtor, tendo exercido a profissão de 1943 até 1967. Nasceu em 1917, no Rio de Janeiro e morrei em 21 de dezembro de 1977, também no Rio de Janeiro, aos 60 anos de idade.

Ele foi apresentador do programa "Boa Noite para Você", em 1946. Doi namorado da cantora e atriz Dircinha Batista (1943-1965). Aposentado, também atuou na política. Sofreu um grave acidente automobilístico, em 1946, quase perdendo parte da língua, que foi preservada pela insistência do produtor de rádio e médico Paulo Roberto, que proibiu a amputação do órgão.

Depois de ter perdido a chance de noticiar primeiro o fim da guerra, indignado, Heron Domingues ligou para a UPI e responderam que “devia ter sido a Associated Press passando adiante dos fatos”.

Chamando uma edição extraordinária, Domingues anunciou que o “Repórter Esso” estava atento à espera da confirmação do fim do conflito, e que a UPI ainda não tinha notícias acerca do acontecimento e que os fatos divulgados ainda eram prematuros.

A Rádio Nacional teve de ser protegida pela polícia porque agitadores acusavam o “Repórter Esso” de derrotista e fascista e ameaçavam apedrejar a emissora. No entanto, a guerra realmente terminara, como anunciou Carlos Frias, na Rádio Tupi.

Para consolo, sua credibilidade ressoou: “Se o Repórter Esso ainda não deu, não deve ser verdade”, comentava-se pelo país. Só depois que empostou sua inconfundível voz ao microfone é que a notícia ganhou veracidade. E foi ao ar às 11 horas da manhã do dia 7 de maio de 1945.

NOTÍCIAS DE MAIOR IMPACTO

Segundo Heron, às cinco notícias que lhe causaram maior emoção foram:

O lançamento do primeiro satélite artificial em órbita terrestre. O fim da II Guerra. A conquista pelo Brasil da Copa do Mundo de 1958. O lançamento da bomba atômica em Hiroshima e o suicídio do presidente Vargas que, segundo suas palavras, o levou às lágrimas.

Depois da Segunda Guerra Mundial, o Repórter Esso noticiou grandes fatos, como a Guerra da Coréia (1950) e a Revolução Cubana (1959). No dia 5 de agosto de 1955, a notícia da morte da cantora Carmem Miranda parou o Brasil. Heron Domingues foi o primeiro a noticiar o fato, em edição extraordinária do “Repórter Esso”.

Mas não informava, por exemplo, notícias da Europa, da Ásia e da África se não houvesse interesses norte-americanos envolvidos. O programa terminou suas transmissões em 31 de dezembro de 1968 com Heron Domingues narrando a abertura, e Roberto Figueiredo despedindo-se dos ouvintes bastante emocionado.

Depois que o “Repórter Esso” saiu do ar, Heron trabalhou como comentarista internacional dos jornais “A Imprensa” e “A Noite”, redator da United Press e locutor dos jornais cinematográficos da Atlântida.

Possuía uma leitura cadenciada e com pausas, além de uma ótima memória fotográfica. Caracterizava-se por interpretar as notícias, transmitindo emoção e dramaticidade.

Independentemente de pequenos percalços, Heron Domingues fazia valer, em cada notícia, uma espécie de norma pessoal. Narrava o fato como se estivesse em uma trincheira. E deixou lições para as gerações de profissionais que vieram depois. Estagiou durante três anos nas grandes redes de TV americanas.

Na televisão, trabalhou na extinta TV Rio, onde apresentou o “Telejornal Pirelli”, ao lado de Léo Batista. A partir de 1972, se tornou comentarista do “Jornal Nacional”, da Rede Globo.

Quando foi trabalhar na televisão, teve de fazer um regime para perder 20 quilos. E ainda mudou o guarda-roupa e o corte do cabelo, tudo para aprimorar o visual.

Era um profissional cuidadoso, tinha o costume de ligar para as embaixadas a fim de confirmar a pronúncia de nomes estrangeiros e retificava os textos entregues pelos redatores para que ele os apresentasse.

UM BOÊMIO INVETERADO

Sua voz era um primor. Heron acreditava ser uma dádiva de Deus, e por isso nunca cuidou de preservá-la. Boêmio inveterado, bebia e fumava sem o menor controle. Depois do expediente, era comum ir para a casa de amigos para notívagos bate-papos.

Quando as visitas partiam, virava-se para a esposa, a jornalista Jacyra Domingues, e dizia: “Já faz muito tempo que estou em casa, vamos sair para dançar.”

Uma equipe médica estudou a voz de Domingues por dez anos e nenhuma alteração foi observada, um fenômeno. “Bebo e fumo em excesso”, disse ele. “Pois continue bebendo e fumando”, teriam lhe aconselhado os médicos.

Um professor de Direito da “Faculdade Cândido Mendes” chamou Heron Domingues, na frente dos alunos, de “gênio da califasia” – a arte de bem pronunciar as palavras. 

Desde 1972, estava na TV Globo, eufórico para anunciar com exclusividade a renúncia do ex-presidente americano Richard Nixon, sem imaginar que seria seu último noticiário. Poucas horas depois, amigos acreditam que Domingues foi vencido pela emoção e por isso morreu dormindo, vítima de um ataque cardíaco, em 9 de agosto de 1974.

Causa da Morte: Heron Domingues morreu dormindo, aos 50 anos de idade em sua residência no Rio de Janeiro, devido à ocorrência de infarto. O corpo foi sepultado no dia 10, no Cemitério São João Batista no Rio de Janeiro.

O jornalista Telmo Ferrari, seu contemporâneo e amigo dizia que Heron foi um dos mais completos repórteres de rádio e televisão de todos os tempos. Lembra que era um apaixonado pela carreira que amou e dignificou.

O famoso radialista Saint Clair Lopes, na Rádio JB, dizia que "quando o Repórter Esso entrava no ar, podia-se acertar o relógio. A pontualidade era britânica".

E era verdade. Sua pontualidade era tal, que para ser colocada no ar a fanfarra composta pelo maestro Carioca, característica musical do noticiário, os relógios precisavam ser antes acertados.

Saint–Clair nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1906 e faleceu na mesma cidade, em 6 de março de 1980, aos 73 anos. Ele foi locutor, ator, apresentador, redator, diretor e professor.  Atuou em rádio e em cinema. Seu nome completo era Saint-Clair da Cunha Lopes.

Formou-se em Direito, mas foi professor na Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil e da PUC, onde lecionou rádio e jornalismo.

Em 1937, iniciou sua carreira em rádio como locutor, através de um concurso promovido pelo famoso homem de rádio da época, Renato Murce.

Depois Saint-Clair foi para a Rádio Nacional, onde permaneceu por 34 anos, e onde fez de tudo: foi locutor, animador, apresentador, produtor e diretor. Fez parte do elenco da primeira novela da emissora, em 1951, “O Direito de Nascer”, no papel de Dom Rafael. Fez parte também do programa: “O Sombra”, que ficou no ar por seis anos.

O publicitário Chico Socorro escreveu no site “Caros Ouvintes”, que Villas-Boas Corrêa, o mais antigo analista político em atividade no país, fez em 2003 um interessante relato sobre a notícia da morte de Getúlio Vargas dada por Heron Domingues e que vale a pena transcrever:

“Na época eu trabalhava no jornal “O Dia”, que ficava na rua Marechal Floriano, e no “Diário de Notícias”, na rua da Constituição, transversal da Praça Tiradentes”. O desfecho, ao que tudo indicava, estava próximo: Getúlio ia tirar uma licença, que se transformaria em renúncia. Era uma fórmula menos polêmica.

Como o jornal era matutino, a edição estava pronta e tinha todo mundo ido para casa. Eu fui o último porque tinha que fazer a matéria de “O Dia”, que era vespertino. Estava morto de cansado após uma noite em claro; lavei o rosto e fui me arrastando para a Praça Tiradentes.

A notícia do suicídio explodiu quando eu estava na altura da Uruguaiana. Numa loja de rádios, ouvia-se alto a voz de Heron Domingues lendo a carta-testamento. Bem na minha frente estava uma senhora negra, baixota, gorda, com duas sacolas na mão.

Ela parou e parecia inchar. De repente, berrou com violência: “Canalhas, ladrões, mataram nosso amigo, mataram o velhinho”. Ela fez um comício desesperado.

Heron Domingues, aos 50 anos, veio a falecer, vítima de um ataque cardíaco fulminante, na noite de 9 de agosto de 1974 em que dava destaque ao dramático discurso de renúncia do presidente Nixon através do “Jornal Nacional” na TV Globo.

Pela repercussão de seu trabalho, Heron não encontrou rivais em 30 anos de rádio. Tinha o dom de personalizar a notícia.

Tem toda a razão o historiador Osório Santana Figueiredo ao dizer que existe apenas uma rua sem expressão, para lembrar que ele nasceu em São Gabriel.

E completa: “Acredito que o primeiro dever de um povo é honrar a imagem daqueles que contribuíram, expressivamente, para o seu engrandecimento. Esquecer os seus valores morais é promover a falência cultural das gerações futuras”.

Essa declaração do nosso querido historiador me faz lembrar que a última menção pública ao nome de Heron Domingues, em São Gabriel, deve ter sido feita há muitos anos atrás, quando o decano dos radialistas locais, embora filho de Pelotas, o incomparável Dagoberto Focaccia ainda narrava futebol e dizia: “A nossa S.E.R. São Gabriel vai atacar na goleira de fundo, a goleira Heron Domingues...”

Heron Domingues empresta seu nome a um colégio estadual na cidade de Marechal Cândido Rondon, Paraná, e também ao Grêmio Estudantil do mesmo educandário. É nome de praça em Porto Alegre e de rua em Ribeirão Preto (SP), Rio de Janeiro, Novo Hamburgo (RS), Londrina (PR), São Paulo, Guarulhos (SP), São Bernardo do Campo (SP), Ourinhos (SP), Santo André (SP) e Araruama (RJ),
(Publicado no jornal "O Fato", de São Gabriel-RS, edição de 25 de novembro de 2016. Pesquisa: Nilo Dias)


terça-feira, 15 de novembro de 2016

A Revolução dos horrores (Final)

O livro “Voluntários do Martírio”, publicado em 1896 por Ângelo Dourado, médico da força revolucionária é um verdadeiro clássico sobre o assunto, um valioso documento sobre as forças de Gumercindo Saraiva.

Foi ele que prestou socorro aos feridos no “Pulador”, em que calcula em 1.500 homens a força “maragata”, 800 dos quais lanceiros comandados por Prestes Guimarães, de Passo Fundo, e em 3 mil os combatentes “pica-paus”, distribuídos em três quadrados de infantaria, com mil guerreiros cada.

O general Prestes Guimarães, além de advogado, foi um dos grandes líderes da região, estando à frente inclusive da Revolução Federalista. Segundo o historiador e diretor do Instituto Histórico de Passo Fundo, Fernando Miranda, havia uma rixa entre Prestes Guimarães e o então coronel Chicuta, herói da guerra do Paraguai.

O historiador conta ainda que, por volta de 1892 a briga entre os dois teve início devido a um ser favorável a República da época e o outro contrário. A rivalidade dos dois marcou a história de Passo Fundo, sendo que hoje, Coronel Chicuta se tornou nome de uma das principais ruas da cidade. Já Prestes Guimarães, se tornou nome de uma escola do município.

Ângelo Cardoso Dourado nasceu em Salvador (BA), a 6 de outubro de 1856, e faleceu na cidade gaúcha de Rio Grande, a 23 de outubro de 1905.

Formado pela Faculdade de Medicina da Bahia, em 1880, prestou serviços médicos ao Exército, vindo a deslocar-se para o Rio Grande do Sul e exercendo sua profissão na cidade de Bagé, onde manteve sua família e atingiu projeção política, chegando a ser presidente da Junta Administrativa em 1890. Participou ativamente do movimento rebelde que sacudiu o Sul do Brasil à época da formação republicana.

Adepto dos revolucionários federalistas, Ângelo Dourado emigrou para Melo, no Uruguai, onde também exerceu a Medicina, e foi nomeado coronel do “Exército Libertador”, como se autodenominavam as forças rebeladas, percorrendo as terras do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, com as tropas do chefe maragato Gumercindo Saraiva em suas empreitadas contra as forças governistas.

Encerrada a revolta, permaneceu em terras rio-grandenses e exerceu a Medicina em várias localidades gaúchas, como na cidade de Rio Grande, na qual foi médico oculista.

Após atravessar o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, com mais de cinco mil homens, e ameaçar Curitiba, Gumercindo retornou ao Rio Grande do Sul com um exército reduzido e esfarrapado.

Realizava uma das maiores façanhas militares da história do Brasil, comparável à “Retirada de Laguna”, durante a guerra contra o Paraguai, alguns anos antes, e à “Coluna Prestes”, três décadas depois.

No lugar denominado “Tope”, os revolucionários receberam o comunicado do coronel Veríssimo de que continuava no Passo Fundo, tendo sepultado os seus mortos. Ele calculou o número de cadáveres deixado pelo inimigo em 800, não podendo se saber ao certo, porque muitos estavam confundidos com os dos inimigos.

O POTREIRO DAS ALMAS

A prática da degola dos prisioneiros não foi rara em ambos os lados contendores, adquirindo o caráter revanchista. Por muito tempo foi atribuído ao coronel maragato Adão Latorre a degola de 300 "Pica-paus" prisioneiros, às margens do Rio Negro, contidos em um cercado (mangueira de pedra) para gado, que ficou conhecido como “Potreiro das Almas” nas cercanias de Bagé, hoje em território do município de Hulha Negra, em 23 de Novembro de 1893, após a "Batalha do Rio Negro".

O fato, porém, é desmentido por vários documentos históricos, como o "Diário" do general Maragato João Nunes da Silva Tavares, que refere o número de 300 como sendo as baixas totais do inimigo, entre mortos em combate e feridos.

O general afirmou que o número de degolados foi de 23 "patriotas", membros das forças provisórias castilhistas, assassinos conhecidos em todo o Estado, pelas tropelias cometidas contra os Federalistas, particularmente no saque a Bagé no final de 1892 pelas forças dos coronéis castilhistas Pedroso e Motta.

Correm histórias em Bagé, que a noite, no “Potreiro das Almas”, os corajosos que se atrevem a ir até lá, conseguem escutar os lamentos dos degolados.

Em 1993, "Centenário da Revolução Federalista", a Urcamp Bagé, através do professor, pesquisador e historiador doutor Tarcísio Antônio da Costa Taborda, realizou um conclave em comemoração a data, quando anunciou que Adão Latorre era um tenente-coronel do Exército Uruguaio e que atuava como mercenário na dita revolução.

Já no ano 2004 membros do "Núcleo de Pesquisas Históricas de Bagé", visitaram o túmulo de “Chico Diabo” (na Guardinha) e logo a seguir o de Adão Latorre (cemitério de Santa Tecla) aproximadamente a oito quilômetros de Bagé.

José Francisco Lacerda, vulgo “Chico Diabo”, nasceu em Camaquã, no ano de 1848 e morreu em Cerro Largo, no ano de 1893. Foi um militar (cabo) brasileiro que lutou na "Guerra do Paraguai" e ficou famoso por ter matado o ditador paraguaio Francisco Solano López, na "Batalha de Cerro Corá", ocorrida em 1º de março de 1870.

"Chico Diabo" nasceu numa família de poucos recursos e, ainda menino, empregou-se na carniçaria de propriedade de um italiano, em São Lourenço do Sul, município vizinho à Camaquã, sua terra natal. Nesta carniçaria fabricava produtos como charque, linguiça e salame.

Em 1863, quando contava apenas 15 anos, Chico descuidou-se da vigilância e um cão entrou no recinto onde estava guardada a carne, devorando alguns pedaços. Ao tomar conhecimento do ocorrido pelo próprio Chico, o italiano passou a agredi-lo.

O menino tomou de uma faca usada no seu trabalho e matou seu patrão. De imediato, fugiu a pé para a casa de seus pais, onde chegou na manhã do dia seguinte, portanto caminhando um dia e uma noite sem parar para descanso.

Ao ver um vulto, ao longe, a mãe de Chico exclamou: “Garanto que é aquele diabinho que vem vindo”. Por causa desta frase, ganhou o apelido de “Chico Diabo” que o acompanhou pelo resto da vida.

Os pesquisadores aproveitaram para conhecer o local onde moravam os pais de Adão Latorre, no lugar conhecido como “Rodeio Colorado”. Sabe-se que o coronel Manoel Pedroso depois de atear fogo na "Estância do Limoeiro" cruzou pelos “Olhos D’Água” e a poucos quilômetros, próximo a Encruzilhada, degolou os pais de Adão Latorre e ateou fogo no seu rancho.

Por esse motivo é que Adão Latorre se apresentou como voluntário aos revolucionários com o intuito de vingar o assassinato de seus pais por Manoel Pedroso, o que aconteceu com a sua degola.

Contam que Pedroso, antes de morrer, pediu a Adão que entregasse um anel de seu uso a uma filha residente em Pelotas, o que foi feito pelo degolador. Passaram-se anos e segundo as pessoas que conviveram com Adão, este era um cidadão de paz, amigo e servidor.

Pedro Antônio de Souza Neto, o “Tio Pedro”, ferreiro do antigo 12º RC, hoje “3º Batalhão Logístico Presidente Médici”, contou que no ano de 1923, com a patente de 3º sargento do Exército, foi designado a integrar um pelotão para fazer o translado do corpo de Adão Latorre, do "Passo da Maria Chica" (Ferraria, Dom Pedrito) para Bagé, onde foi sepultado no cemitério de Santa Tecla onde se encontra até hoje, juntamente com seu irmão, o major João Latorre.

Segundo informações, Adão Latorre foi fuzilado pelos capangas do major Antero Pedroso irmão de Manoel Pedroso em uma emboscada. Pedro Antônio de Souza Neto desempenhou suas funções no "3º Batalhão Logístico", até os 90 anos de idade, vindo a falecer com toda a sua lucidez, aos 93 anos.

Ele tinha dois filhos com sua primeira companheira, Maria Francisca Nunes, João Latorre e Nicamoza Latorre, ambos uruguaios. Deixou oito braças de sesmaria e a casa onde morava para Josefina Machado, sua segunda companheira.

A FACA DE ADÃO LATORRE

Adão Latorre foi contemplado com uma composição musical de autoria de Moisés Silveira de Menezes, intitulada “A faca de Adão Latorre”:

A faca, lâmina, cabo/ferro e pau-ferro fundidos/a faca parte, reparte/corta, perfura, ponteia/passa, perpassa, transpassa./A faca fere se é fera/o mando que ergue a mão/garra tenaz que a sustenta/fera feroz fere a faca/por isso ferro com fio/fio de vida, fio de morte/vida fugaz, fio da faca.

A faca de Adão Latorre/é faca na mão de negro/negro acuado, negro fera/negro ferido de açoite/tronco amarrado no tronco/marcas de algemas nas mãos/correntes nos pés descalços./Tem olhos negros a faca /olhos de medo, assustados/noite nos olhos a faca/olhos de vida fugindo/pelo fio fino da faca.

A faca de Adão Latorre/traz marcas, marcas doridas/canaviais, minas, senzalas/África, banzo, savana/revoltos mares bravios/porão cheio, porão sujo/úmido, fétido, impuro./Grilhões arrastando gente/ao rumo desconhecido/leilão, chicote, trabalho,/não cantavam tribos negras:/"Mérica, mérica, mérica".

A faca de Adão Latorre/é faca rumo à garganta/do branco que tem o mando;/dono de tudo e de todos,/senhor de terras e almas./É faca do oprimido/a mando de outro opressor/cumpre ordens negro velho/brancas ordens, ordens sujas/vai pra história negro Adão/bandido, degolador/feroz de faca na mão.

Um grande rio o Rio Grande/o Rio Negro rubro vivo,/rio de sangue/negro ingrato,/anjo sinistro da morte./A vida no fio da faca/vertendo sangue de irmãos,/irmãos de distintos lenços./Guilhotina em movimento/estranho açougue de gente,/pergunta que não se cala:/A quem vingava Latorre/feroz de faca na mão?

Pedroso, o coronel branco/porque preso, presa fácil/negaceia, regateia/pensa até que a vida vale/vida de homem de bem/vida de homem valente/Vida opressora não vale/na mão de negro oprimido,/mas o mando é sempre branco,/no final, manda Pedroso:/"Então degola, degola/negro filho de uma puta."

A faca de Adão Latorre/cortou bem forte e bem fundo/a carne viva da história./Inconsciente, rude e feia/a cicatriz do Rio Negro/desnuda a casta social/brandindo a lâmina crua/sangrando vidas e vozes./Mas a pergunta não cala:/Cumprindo ordens de branco/a quem vingava Latorre/feroz de faca na mão?

O COMBATE DO BOI PRETO

Em 5 de Abril no “Combate do Boi Preto” houve a degola de 250 maragatos em represália à “Degola do Rio Negro”. O pica-pau “Cherengue” ou “Xerengue” rivalizou com Latorre em número de degolas praticadas. Seu apelido, em linguagem popular, queria dizer faca ordinária.

O “Cherengue” ou “Xerengue” deu lugar a uma poesia feita por um poeta jornalista e que apareceu em “O Canabarro”, em 1903. Tratava-se de uma das costumeiras bicadas do jornal.

Já que pedem, cedo/Por hoje esta bicada;/Mas confesso tenho medo/Do João Francisco e Brigada/Xerengue não é brinquedo/Bicar assim corro risco/Por tanto confesso medo/Da Brigada e João Francisco.

Muitas vezes a degola era praticada em meio a zombarias e humilhações. Embora não com frequência, poderia ser antecedida por castração. Conta-se, por exemplo, que apostas eram feitas em corridas de degolados.

Na degola convencional a vítima, ajoelhada, tinha as pernas e mãos amarradas, a cabeça estendida para trás e a faca era passada de orelha a orelha, como se degolasse uma ovelha, rotina nas lides do campo.

Os ressentimentos acumulados, as desavenças pessoais, somados ao caráter rude do homem da campanha acostumado a sacrificar o gado, tentam explicar estes atos de selvageria.

Do ponto de vista militar e logístico a degola decorria da incapacidade das forças em combate de fazer prisioneiros, mantê-los encarcerados e alimentá-los, pois, ambas lutavam em situação de grande penúria. Procurava-se, pelo mesmo motivo, poupar munição empregando um meio rápido de execução.

Durante a Revolução de 1893, o município de Cruz Alta foi apelidado de "Ninho dos Pica-paus", sendo um dos mais importantes palcos dos acontecimentos, e também o lugar onde a prática da degola neste período foi mais intensa.

Cruz Alta foi atacada em 26 de agosto de 1894 pelas tropas maragatas sob o comando de Aparício Saraiva, irmão de Gumercindo Saraiva (morto dias antes em Carovi, perto de Santiago), com aproximadamente 1.500 homens. A cidade foi atacada por oito horas sem tréguas.

A HIENA DO CATY

No "Combate de Campo Osório", a 24 de junho de 1895, episódio final da revolução federalista e onde foi morto a golpe de lança o almirante Luis Felipe Saldanha da Gama pelos cavalarianos gaúchos da força de provisórios, sob o comando do coronel João Francisco Pereira de Sousa, denominado por Flores da Cunha a "Hiena do Caty", foram degolados dois guardas marinhas das hostes do malogrado almirante.

Com os prisioneiros contidos e deitados, o cabo degolador do coronel João Francisco debruçou-se sobre eles suspendendo com o pé direito a cabeça das vitimas. Com a mão esquerda conteve a respiração, colocando os dedos nas fossas nasais e a palma da mão sobre a boca do rapaz.

As veias do pescoço ressaltadas e entumecidas, neste momento a mão direita enterrava a lâmina da faca logo abaixo do queixo num vai e vem. A degola se consumara.

Este relato consta de uma carta de testemunha ocular do episódio e se encontra no arquivo do historiador gaúcho Alfredo Jacques, através do seu "Dom Ramon", no livro "Os Provisórios”.

E explica: "Degolar não era tão fácil como parecia. Requeria ciência. O gaúcho velho explicava minucias, ensinava processos e concluía: "Hay dos maneras de degolar um cristiano, a la brasilera (dois talhinhos seccionando as carótidas, a la criolla (de orelha a orelha).

Esses processos de degolamento, utilizados em nossas lutas revolucionárias, constituem um ato que desmente todo o tradicional no gauchismo, pois reflete terrível covardia: matar um adversário contido, amarrado, já vencido e muitas vezes ferido.

Inúmeros foram os casos em que a faca do degolador atingiu o osso hióide, as cartilagens de traquéia ou da laringe, não ocasionando morte, mas o ferimento era gravíssimo, pois realizava a abertura dos órgãos respiratórios e digestivos, junto ao pescoço.

Sabe-se de relatos de um médico que suturou vários destes traumatismos durante a revolução de 1923, exigindo trabalho cirúrgico de grande perícia para sua resolução.

O acaudilhamento do chefete-guerrilheiro rural surgia de sua insegurança patrimonial, sem terra, ignorante na interpretação da doutrina politica e da valentia fanfarrona até hoje cantada pelos trovadores.

Um clássico da música nativa do Rio Grande do Sul é “Colorada”, de autoria do cantor e compositor Mário Barbará:

Olha a faca de bom corte olha o medo na garganta/O talho certo e a morte no sangue que se levanta/Onde havia um lenço branco brota um rubro de sol por/Se o lenço era colorado o novo é da mesma cor.

Quem mata chamam bandido quem morre chamam herói/O fio que dói em quem morre/Na mão que abate e não dói/Na mão que abate e não dói.

Era no tempo das revoluções/Das guerras braba, de irmão contra irmão/Dos lenço branco contra os lenço colorado/Dos mercenário contratado a patacão.

Era no tempo que os morto votavam/E governavam os vivos até nas eleição/Era no tempo dos combate a ferro branco/Que fuzil tinha mui pouco e era escassa a munição;

Era no tempo do inimigo não se poupa/Prisioneiro era defunto e se não fosse era exceção/Botavam nele a gravata colorada/Que era o nome da degola nestes tempos de leão.

Há poucos anos a professora de um colégio durante uma festa tradicional, fez um dos meninos recitar publicamente este versinho de nosso folclore: Quem arrogante pisar/No poncho da gauchada/Há de sentir a vacina/Da gravata colorada...

Durante a “Revolução Paulista de 1932”, um grupo de gaúchos, “Os Pé no Chão" de Palmeira das Missões, liderados pelo caudilho Vazulmiro Dutra, entrincheirados perto de um posto paulista, junto à fronteira paranaense, gritavam á noite: "É só te pegar que te passo a gravata colorada".

Pois numa das viagens do então presidente do Brasil, Getúlio Vargas (isso durante o Estado Novo), alguns coronéis e pecuaristas resolveram homenagear o ditador com uma grande churrascada no Country Club. Nessas idas e vindas um tanto fisiológicas, uma década depois, Vazulmiro fora nomeado delegado regional do Instituto Nacional do Mate.

Por coincidência, o coronel estava ao lado de Vargas na imponente mesa quando trouxeram o espeto com a costela para servir o presidente.

Aproveitando a ocasião, Vazulmiro puxou da cintura um facão enorme, oferecendo-se para servi-lo. Getúlio, ao ver de quem se tratava, fitou o coronel com uma cara marota - que entendeu perfeitamente a brincadeira. E respondeu, entre risos gerais: “Calma doutor Getúlio, essa faca o senhor não precisa se preocupar não foi usada ainda”.

A arma fundamental do gaúcho é a faca, instrumento que serve para tudo: carneia o gado, embeleza suas vestimentas, mata o inimigo e até apara e limpa as unhas. Cada vez que alardeia valentia, a faca esta aí para garantir.

Vazulmiro cumpriu as etapas de um genuíno caudilho, conforme escreve Loiva Otero Félix. Exercitou-se na vida econômica, foi estancieiro, assumiu papel político e adquiriu condição de chefe militar.

Patriarca como o foram quase todos os caudilhos do Rio Grande do Sul, exerceu diversas funções públicas. Participou da Revolução de 1923, ao lado do Partido Republicano Rio-grandense, limitando sua ação à região de Palmeira das Missões. Existem várias tendências da historiografia sobre a presença dos caudilhos no Rio Grande do Sul.

OS GRANDES CAUDILHOS

O caudilhismo foi traço marcante no Rio Grande do Sul, em face da ocupação militarizada da área fronteiriça. Não pode ser dissociado de seu contexto platino, já que são constatadas aproximações e semelhanças.

A oligarquia rural é fornecedora de caudilhos, revolucionários e legalistas, tanto em nível regional como nacional, já que a classe dominante rio-grandense, os estancieiros, fazia valer sua posição do poder central, em relação à classe dominante regional, ora apoiando o governo central, se houvesse interesses comuns, ora auxiliando os revolucionários, se em conflito com os interesses oligárquicos.

Os nossos grandes caudilhos foram produtos das planícies: Pinheiro Machado, Borges de Medeiros, Getúlio Vargas, Flores da Cunha, Honório Lemes, Assis Brasil, Felipe Portinho, João Francisco Pereira de Sousa, Antônio Ferreira Prestes Guimarães e o mais famoso de todos, o gabrielense José Serafim de Castilho, “Juca Tigre”, conhecido como “Peito de Ferro” e outros.

Todos os degoladores de nossas forças revolucionárias eram homens ignorantes e sem terra, mas com formação e elã telúrico de valentia inata. O ato de agradar ao patrão que o escravizava, justificava qualquer tarefa e a degola era o que mais impressionava seus chefes.

Psicologicamente o degolador era um místico e o chefe, um realista. Matar era um ato de rotina e o mais fácil era usar a arma predileta a faca, e as carótidas estavam somente protegidas por uma massa muscular mole, facílima de ser seccionada.

E a prática esmerou a técnica. Leonel Rocha que foi um caudilho à pé, não pampiano, e teve como companheiros os "mateiros do Alto Uruguai”, pelo que se conseguiu investigar, não permitiam a degola.

Pequeno agricultor e quase analfabeto, Leonel Rocha trabalhava de enxada em terras que não lhe pertenciam, o que o diferenciava de todos os demais caudilhos gaúchos.

Em 1923, reuniu uma coluna de quase mil homens, mantendo combate com a maior e melhor parte da coluna do General Firmino de Paula.

Os fazendeiros o desprezavam, os roceiros viam nele um espelho de seus próprios sentimentos, um depositário de suas insatisfações, preconceitos e de suas vagas esperanças.

A DEGOLA EM CANUDOS

E a degola gaúcha se fez presente em Canudos, na Bahia. Euclides da Cunha, ao tratar do gaúcho tece loas à combatividade da Infantaria do Sul, que qualificou como “uma arma de choque”: “Podem suplantá-la outras tropas, na precisão e na disciplina de fogo, ou no jogo complexo das manobras. Mas nos encontros à arma branca aqueles centauros apeados arremetem com os contrários, como se copiassem a carreira dos ginetes ensofregados das pampas”.

Apesar desses elogios românticos, a crueza dos fatos venceu o estilo euclidiano. Com seus próprios olhos, o escritor compreendeu o que significava a especialidade daqueles homens no manejo da “arma branca”.

Os gaúchos agarravam cada derrotado pelos cabelos, lhe dobrando a cabeça, esgargalando o pescoço e, francamente exposta a garganta, degolavam-na. Conforme Manoel Benício, correspondente do “Jornal do Commercio”, do Rio de Janeiro, essas degolas ocorriam “sem diferença de sexo e idade”.

Para suas vivências nos cenários da guerra transpunham, assim, as técnicas das “charqueadas” dos pampas, impressionante matadouro destinado a obter a matéria-prima para fabricar o charque (carne-seca), principal produto de exportação, onde se habituavam a conviver com a morte violenta.

É possível imaginar os soldados gaúchos transitando nos espaços dos combates com os canos das botas e as bombachas ensanguentadas, insígnias onde tinham limpado as armas assassinas e onde tinha respingado o sangue das vítimas.

Pensávamos que barbaridades, tão tétricas quanto cabeças decepadas, jamais sairiam do passado. Mas os ditos humanos não têm mesmo jeito. Não é que o barbarismo está de volta? Por sorte, bem longe daqui.

Ele agora nos é servido com uma pitada a mais de crueldade: a divulgação pela Internet dos crimes do “Estado Islâmico”. Os novos Adões Latorre, de rosto escondido, espalham-no pelo mundo, de forma a que todos, inclusive os apavorados familiares das vítimas, o presenciem. (Pesquisa: Nilo Dias)

Gravura de soldados "pica-paus" e "maragatos".

domingo, 13 de novembro de 2016

A Revolução dos horrores (Parte 1)

O jornalista e escritor Juremir Machado da Silva, escreveu no jornal “Correio do Povo”, de Porto Alegre, durante os festejos da “Semana Farroupilha” deste ano, um interessante artigo com o título de “Aos nossos degoladores, com afeto”.

Disse o jornalista que em uma viagem sua para Camaquã, onde foi patrono da “Feira do Livro”, o historiador Luiz Cláudio Knierim, que se tornou muito conhecido depois de ter chamado o acampamento farroupilha de Porto Alegre de “favelão gaudério”, lembrou que estamos rememorando os 120 anos da “Revolução Federalista de 1893”, a revolução da degola.

E, também, os 90 anos da “Revolução de 1923”, o conflito que acabou com o reinado de Borges de Medeiros baseado em eleições fraudadas em que mortos votavam e vivos eram levados no cabresto. E pergunta: “Por que não comemoramos tudo isso?”

Conta que existe um livro maravilhoso sobre nossos heroicos tempos da degola: “Voluntários do martírio, narrativa da revolução de 1893”, do médico e protagonista dos acontecimentos, Ângelo Dourado. É um catálogo dos horrores.

Ângelo Dourado conta que a crueldade na região serrana foi tanta que a simples narração dos fatos causa repugnância. Lembra que, em Cruz Alta, no “Rincão do Cadeado”, havia 108 viúvas de “maragatos” degolados, e que no “Rincão da Cruz”, contavam-se pelos nomes, 86 vítimas da degola.

E que esses números poderiam ser maiores. O município mãe de Passo Fundo era governado pelo caudilho José Gabriel da Silva Lima, que dizia jamais ter pensado que a carne humana fosse tão boa para engordar cães e porcos. Os federalistas ou seus simpatizantes eram presos à noite e, depois, pela manhã, retirados em grupos para serem executados.

Ângelo Dourado é fiel em suas descrições. Conta que quando chegaram em Carazinho os federalistas sentiram o poder da guerra psicológica movida pelos pica-paus. Toda a população do povoado fugira para os matos, levando os velhos e as crianças.

Apenas uma mulher ficara na povoação, dizendo que preferia ver os “maragatos” a morrer de frio nas brenhas e que os republicanos é que eram maus, pois prendiam, açoitavam e matavam, enquanto os revolucionários passavam sem nada fazer, sem arrombar uma casa sequer.

Para os menos afeitos a livros volumosos, Juremir recomenda “Maragatos e pica-paus – guerra civil e degola no Rio Grande”, do saudoso Carlos Reverbel. Eu tenho o livro, é verdadeiramente uma obra prima, na medida em que mostra como nossos degoladores eram eficientes e dedicados.

Reverbel resume tudo cirurgicamente: “A revolução de 93 teve a duração de 31 meses e fez nada menos do que 10 mil vítimas. Destas, mais de mil morreram por degolamento, calculando-se meio por baixo, sem querer forçar os algarismos”.

Chega-se a esta conclusão levando-se em conta a estatística das duas grandes sessões de degolas da revolução, “Rio Negro” e “Boi Preto”, em que as duas perfazem um total aproximado de 700 gargantas cortadas.

Prossegue Reverbel: “Um método limpo, ecológico e econômico”. A sucção, por lâmina cortante, do feixe vásculo nervoso do pescoço, ocasiona o desfalecimento em segundos e a morte em minutos.

MARAGATOS E CHIMANGOS

“Maragato” foi o nome dado aos sulistas que iniciaram a “Revolução Federalista” no Rio Grande do Sul em 1893, em protesto a política exercida pelo governo federal representada na província por Júlio de Castilhos. Os “maragatos” eram identificados pelo uso de um lenço vermelho no pescoço.

O termo tinha uma conotação pejorativa atribuída pelos legalistas aos revoltosos liderados por Gaspar da Silveira Martins, eminente tribuno, e caudilho estrategista e Gumercindo Saraiva, que deixaram o exílio, no Uruguai, e entraram no Rio Grande do Sul à frente de um exército de lenços vermelhos.

Como o exílio havia ocorrido em região do Uruguai colonizada por pessoas originárias da “Maragateria” (na Espanha), os republicanos, então chamados “Pica-paus”, os apelidaram de “Maragatos”, buscando caracterizar uma identidade "estrangeira" aos federalistas.

Com o tempo, o termo perdeu a conotação pejorativa e assumiu significado positivo, aceito e defendido pelos federalistas e seus sucessores políticos.

Na “Revolução de 1923” desencadeada contra a permanência de Borges de Medeiros no governo do estado, novamente a corrente “maragata” rebelou-se, liderada pelo diplomata e pecuarista Assis Brasil.

Seus antagonistas que detinham o governo eram chamados no Rio Grande do Sul, de “Chimangos”, comparando-os à ave de rapina. O lenço vermelho identificava o “Maragato”. O lenço branco identificava o “Pica-pau” e o “Chimango”.

O movimento originou, no Rio Grande do Sul, o “Partido Libertador”, de grande influência regional.

Os federalistas de Gaspar Silveira Martins queriam o fim da ditadura de Júlio de Castilhos. Em “Rio Negro”, perto de Bagé, os “maragatos” passaram a faca nos castilhistas. O negro Adão Latorre teria degolado 300 inimigos sozinho.

O troco veio em “Boi Preto”, em 5 de abril de 1894, no município de Palmeira: de 400 federalistas que caíram prisioneiros, 300 foram degolados.

UM DEGOLADOR PERFEITO

Adão Latorre era perfeito na técnica de exímio degolador das forças federalistas na “Revolução de 1893”. Contido o inimigo, encostava a faca na ponta do nariz do prisioneiro que elevava a cabeça, então a afiadíssima lâmina era introduzida agilmente no pescoço, incisando horizontalmente as estruturas do osso hioideo, de orelha a orelha.

Solta imediatamente a vítima dava um ou dois passos, emitia um grunhido terrível e caia desfalecida. Quando isto não acontecia, o degolamento era incompleto. A vítima era novamente agarrada para executar o "jorramento" do sangue e completar o ato da execução.

Com uma adaga de 15 centímetros, Latorre foi o grande executor. Entre as vítimas estava o oficial “Chimango” Manoel Pedroso, acusado de ter mandado matar a família de Latorre em Bagé, meses antes.

E dizem os que escaparam que Adão chamava um a um e mandava-os pronunciar a letra jota. Aquele que, em vez de jota, pronunciava “rota”, era castelhano e recebia, incontinenti, o aço afiado que lhe abria o talho de orelha a orelha.

Adão Latorre foi morto por fuzilamento na “Revolução de 1923”, pelas rajadas das primeiras metralhadoras utilizadas em guerra no Rio Grande do Sul, e teve seu cadáver degolado.

Foi designado um pelotão para fazer o translado do seu corpo do “Passo da Maria Chica”, na localidade de Ferraria, em Dom Pedrito para Bagé, sendo sepultado no “Cemitério dos Anjos”, em outro ponto da estrada do “Tigre”, em um filete de terra dentro de uma propriedade rural, onde se encontra até hoje, juntamente com seu irmão, o major João Latorre.

O “Cemitério dos Anjos” entrou no esquecimento. Quase não há visitantes, tampouco flores. Somente mato e tumbas esquecidas, um túmulo cravejado a balas e outros demolidos.

Segundo informações, Adão Latorre foi fuzilado pelos capangas do major Antero Pedroso, irmão de Manoel Pedroso em uma emboscada. Ele tinha pouco mais de 80 anos de idade.

A tapera de sua casa se decompõe e desaparece, aos poucos, silenciosa, à beira da estrada que conduz ao “Passo do Tigre”, periferia da cidade de Bagé, em direção ao “Forte Santa Tecla”. Só existe uma parede levantada, muito mato tomando conta e um poço esquecido. Poucos vão visitar.

Contavam muitas histórias a respeito de Adão Latorre. Uma delas fala que existiam questões nunca resolvidas entre os irmãos Tavares, a quem o degolador servia.

Manoel Pedroso, levado ao sacrifício indagou do seu carrasco, Adão: “Quanto vale a vida de um homem valente de bem?” E a resposta veio pronta e seca: “Valente pode ser! De bem não sei, não. A tua vida não vale nada, pois está no fio da minha faca”. O coronel levantou a cabeça oferecendo o pescoço e dizendo: “Então, degola negro filho da puta”.

A MORTE DE GUMERCINDO SARAIVA

A história a seguir está contada no livro “Maragatos e Pica-paus, Guerra Civil e Degola no Rio Grande do Sul”, de autoria do escritor Carlos Reverbel.

Gumercindo Saraiva morreu em 10 de agosto de 1894, após ser atingido por um tiro, desferido à traição, enquanto reconhecia o terreno na véspera da “Batalha do Carovi”. O tiro pegou no tórax, dera certo à tocaia, e o lugar ficou conhecido como “Capão da Batalha”, em área hoje situada no município de “Capão do Cipó”, próximo a Santiago.

Gumercindo também marchava morto, em cima de uma carreta. Mas também marchava. Aos lados, fazendo alas, como numa guarda de honra, marchavam os seus capitães ajudantes de ordens, Lindolfo Weber, Hilário Montiel, João e Henrique Freitas e os seus tenentes ajudantes de ordens, Jerônimo Freitas, Pedro Cabrera e os irmãos Garcia.

Como se ele ainda pudesse precisar dos seus cuidados, o doutor Lucas Bicalho Hungria, primeiro tenente médico do “Encouraçado Aquidabã”, que havia se incorporado ao “Exército Libertador” em Santa Catarina, não se afastava da carreta mortuária.

Ângelo Dourado, o outro médico da coluna, “baiano de bombacha e espada”, no dizer de Augusto Meyer, se ausentara para levar à tropa a última palavra do chefe morto, mas ainda o chefe.

Ele tombara, mas a coluna ainda marchava sob a sua voz de comando. E assim se fez sua última vontade durante toda aquela noite.

No dia seguinte, 11 de agosto, a coluna se deteve às oito e meia da noite, junto ao “Cemitério dos Capuchinhos de Santo Antônio”, um campo santo rústico de campanha, situado entre os rios Camaquã e Itacurubi, nas cercanias da Estância de Antônio Moraes, quase na divisa dos municípios de Santiago do Boqueirão e São Borja.

Baixado o corpo da carreta, ainda coberto com o velho poncho, agora fazendo vezes de mortalha e esquife, foi lhe dado sepultura, quando já anoitecera. Lavrou-se uma ata da cerimônia, assinada por diversos oficiais superiores da coluna e por Cícero Saraiva, representando a família.

Aparício, de acordo com a última ordem do irmão, estava ausente, tomando muito cuidado com o flanco esquerdo da coluna, enquanto Torquato Severo, obedecendo à mesma voz de comando, fazia a retaguarda.

Em 12 de agosto de 1894, um dia após o sepultamento de Gumercindo Saraiva, as forças do “Exército do Norte” que perseguiram os federalistas, chegaram ao “Cemitério dos Capuchinhos de Santo Antônio”.

Desta vez não era a Brigada do coronel Manoel do Nascimento Vargas, que fazia a vanguarda da tropa governista. Era a Brigada do coronel Firmino de Paula, também integrante da “Divisão do Norte”.

Informado de que Gumercindo Saraiva havia sido sepultado naquele local, Firmino mandou reabrir a cova e dela retirar o cadáver do general revolucionário. Colocando-o na beira da estrada, situada um pouco a frente do pequeno cemitério campeiro, ali postou-se a espera da passagem da “Divisão do Norte”.

Esta não tardou a aparecer no alto da coxilha, com os seus cinco mil homens no fastígio do papel que lhes coubera desempenhar na revolução.

Era tal, porém, a fama com que aureolava o nome de Gumercindo Saraiva, como guerrilheiro quase lendário, que os chefes da “Divisão do Norte” fizeram a tropa desfilar ao lado de seu cadáver, para todos ficarem certos de que ele havia efetivamente sido derrotado e estava morto.

A HISTÓRIA DAS CHAPELEIRAS

Era como se estivessem desfilando sobre os despojos da própria revolução. Além de ter chamado para si a profanação da sepultura, o coronel Firmino mandou cortar a cabeça do corpo de Gumercindo, recolhendo-a como precioso troféu, não para si, mas destinada a alguém que julgava mais merecedor de recebê-la.

Então a confiou ao coronel Ramiro de Oliveira, confidenciando-lhe, ao mesmo tempo, a missão que lhe caberia desempenhar. O coronel tocou-se para Porto Alegre, hospedando-se no “Hotel Lagache”, acompanhado de seu ordenança.

O Hotel Lagache, fundado por Gustavo Maynard ficava situado na rua Marechal Floriano. Depois os sócios desfizeram-se do hotel e compraram o “Hotel Brasil”, na Rua dos Andradas, em frente a Praça da Alfândega, situado num antigo prédio onde hoje encontra-se a sede do “Clube do Comércio”. Remodelado, desde 1908 passou a se chamar de “Grande Hotel”.

Sem perda de tempo, encaminhou-se a uma chapelaria, estabelecida na Rua da Praia, onde adquiriu duas chapeleiras. Explicação para a aquisição de duas chapeleiras, segundo o jornalista, ensaísta, poeta, memorialista e folclorista Augusto Mayer: “Para falar a verdade, entra no caso outra cabeça, mas até hoje não se sabe a que tronco pertencia”.

De posse das duas caixas de chapéu, o coronel retornou ao quarto do “Hotel Lagache”. Depois de curta demora, saiu novamente à rua, dessa vez acompanhado do seu ordenança que lhe seguia os passos, guardando certa distância e carregando zelosamente, as duas chapeleiras.

Dirigiram-se para a “Praça Quinze”, onde tomaram um carro, tirado a dois cavalos, mandando o boleeiro tocar para a “Praça da Matriz”. Chegando ao “Palácio do Governo”, informa Augusto Meyer, o coronel foi logo recebido por Júlio de Castilhos, que tratou de saber do misterioso conteúdo daquelas caixas, colocadas bem à vista em cima da mesa, na sala de recepção.

Ao tomar conhecimento da natureza dos troféus que lhe estavam sendo entregues, Castilhos, possuído por violenta cólera, cortou a palavra do sinistro visitante.

E aos gritos mandou que se retirasse. Numa das chapeleiras estava à cabeça de Gumercindo Saraiva. A que ocupava a outra chapeleira jamais foi identificada. Não chegaram sequer a ser abertas na presença de Castilhos, tal o seu assomo de revolta em face da tentativa.

Ele havia fechado os olhos a muita violência contra os adversários, mas não era sádico e muito menos insano. Depois, sabia naquelas alturas que a revolução estava nos seus últimos dias. “Compreendo agora”, teria desabafado no seu assomo de revolta, “porque o povo anda a apontar-me como responsável pelas atrocidades que se pratica em nome da lei”.

O caso das chapeleiras transpirou. Dele se falava à boca pequena nas rodas palacianas. O coronel, na maior das frustrações, reduzidas a zero, quando esperava copiosas benesses republicanas, tratou logo de retornar ao aconchego de seu acampamento.

Momentos antes de tomar o trem, o coronel foi procurado, ainda no quarto do hotel, pelo gerente do jornal “A Federação”, que se fazia acompanhar de alguns amigos e correligionários mais chegados.

Sabedor do episódio, o zeloso gerente desejava saber o fim que tinha sido dado às duas chapeleiras e respectivas cabeças. Elas ainda estavam ali no quarto, embaixo da cama. E o coronel disse que pretendia jogá-las no rio, de dentro do trem, ao passar por uma grande ponte.

O homem de “A Federação” não aprovou a idéia, pelo menos em relação a uma cabeça. Achou que era merecedora de melhor sorte. E sentenciou: “Quem combate com lealdade o adversário político ainda em vida, está na obrigação de respeitá-lo depois de morto”.

Então, com a concordância do coronel, apossou-se da cabeça de Gumercindo Saraiva e foi enterrá-la nos alicerces da casa onde morou, no “Beco do Liceu”. A outra cabeça, provavelmente tenha sido jogada em algum rio.

E Augusto Meyer conclui a sua narrativa do episódio, com estas palavras: “Quanta gente anos a fio, subia e descia a “Ladeira do Liceu”, sem saber que no porão daquela casa, perto da antiga “Chefatura de Polícia”, estava escondida a cabeça, protesto mudo contra as mentiras da doutrinação política, contra as omissões conscientes ou inconscientes dos historiadores”.

E mais de uma coisa neste conto verdadeiro, dá o que pensar. Por exemplo: todos os que andaram às voltas com a fatal cabeça, começaram a desandar na vida.

O coronel passou ao ostracismo político; Júlio de Castilhos morreu na mesa de operação, ainda em pleno vigor; o gerente do jornal “A Federação” enlouqueceu; e os seus amigos ficaram marcando passo, dois para a frente e dois para trás.

O GUERRILHEIRO PAMPEANO

Outro livro que não pode deixar de ser lido é "Gumercindo Saraiva - O Guerrilheiro Pampeano", do saudoso escritor Sejanes Dorneles, que tive a honra de conhecer e de ser seu amigo.

Essa obra é ainda mais completa, pois além do período da revolução federalista, traz outros detalhes da vida de Gumercindo, em especial da época em que o caudilho viveu em Santa Vitória do Palmar, terra adotiva do escritor.

Sandra Pesavento, noutro livrinho introdutório, “A revolução federalista”, sintetizou: “O certo é que de ambos os lados generalizou-se a prática da “degola”, forma de execução rápida e barata, uma vez que não requeria emprego de arma de fogo”.
 
A “Revolução Farroupilha” não tem graça, em número de mortos e de situações singulares, quando comparada com a de 1893. Disso resulta a incompreensão: por que não se faz feriado para comemorar esse momento maior das nossas façanhas? Por que não fazemos mais filmes, minisséries e poemas sobre isso?

Na sua palestra, Knierim mostrou com imagens como a “dança do facão”, parte do sagrado folclore gauchesco, foi adaptada por Paixão Cortes com base nas informações da “Negra Paim” sobre o “maculelê” dos escravos. (Continua na próxima edição - Publicado no jornal "O Fato", de São Gabriel (RS), edição de 28 de outubro de 2016 - Pesquisa: Nilo Dias)


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Um time dos bons

Time de futebol de campo do Ginásio São Gabriel. Pena que não se saiba o ano. Foto publicada na página de João Carlos Bisogno, no Facebook. Ele é o goleiro. Os demais não estão reconhecidos, com exeção de Plauto Ruchiga, ao centro, ladeado por Augusto e Edson de Bem e Silva. Quem souber quem são os outros, pode nos ajudar.

domingo, 23 de outubro de 2016

Corpo de Transporte

Oficialidade do Corpo de Transporte, em São Gabriel, em 1907. Primeira fila: Tenente João Estrella Villeroy, capitão Nero Alvim Borges, Major comandante Viriato Cruz, Capitão ajudante Josimo da Silveira, capitão Alfredo Saldanha, 1º tenente Cândido João Teixeira e 2º tenente Pedro Lopes dos Santos.

Segunda fila: Francisco Obiler, João Zi Menna Barreto, José de Figueiredo Neves, José Cantalice, veterinário Tito Fonseca, 1º tenente Victor Obino e 1º tenente José Luiz de Souza Pires.

Terceira fila: 2º tenente Leopoldo Miranda Ptolomeu, Assis Brazil, Accácio Faria Corrêa, Fermino Netto e Affonso Campos Barbirei Filho. (Foto: revista "O Malho")  

sábado, 22 de outubro de 2016

Enchente em São Gabriel

Fotos de Magro Borin mostram a enchente no rio Vacacai, em São Gabriel. A estátua de Iemanjá, pode ser vista bem distante.





terça-feira, 18 de outubro de 2016

O mestre da culinária gabrielense


O Abelino de Brito, ou simplesmente o “Brito do Galeto”, não é filho de São Gabriel. Ele nasceu em 17 de agosto de 1936 na cidade de São Francisco de Paula, na região dos “Campos de Cima da Serra”. Em sua terra natal trabalhou na roça até os 18 anos de idade. Veio para São Gabriel servir ao Exército Brasileiro em 1955.

No ano seguinte deu baixa e adotou São Gabriel como sua terra, implantando aqui a “Galeteria e Churrascaria do Brito”, que gera mais de 20 empregos diretos e cerca de 10 indiretos, com colaboradores semanais.

Em 1975 ele resolveu ganhar a vida em outra querência, indo para Cianorte, no interior do Paraná. Por lá ficou 10 anos, trabalhando com churrascaria e galeteria, tendo o mesmo sucesso alcançado em São Gabriel, para onde retornou em 1985, e se encontra até hoje.

Conheci o Brito quando ele montou seu restaurante no prédio do Hotel Centenário. Eu morava pouco acima, na avenida Francisco Hermenegildo, bem em frente ao quartel do 9º RCB. E pela proximidade fiz do local um de meus “QGs”, indo lá quase que diariamente.

Eu tinha até um lugar reservado no restaurante. Era a última mesa rente a parede que separava o salão do pátio do hotel. Gostava do lugar, pois a janela aberta garantia um ar fresquinho. Lembro que tinha um pé de louro, cujas folhas são usadas em feijoadas, que quase invadia o recinto, exalando um cheiro forte e gostoso.

Nos mais de 30 anos que conheço o Brito, só vi o restaurante fechado em sexta-feira santa. Isso, porque ele não vende pratos à base de peixe. E talvez uma vez ou outra por situações que desconheço.

Lembro que o restaurante era frequentado por um grupo de abastados fazendeiros, que passavam tardes inteiras conversando e derrubando generosas doses de uísque. Creio que todos já partiram para o lado de lá.

Nunca gostei de uísque. Acho que faz mais estragos que a nossa popular “cachaça”, que aqui por Brasília chamam de pinga. Lembro de uma turma que passava o dia na sombra de uma árvore, frente um bar na rua Mauricio Cardoso.

Quase não sobrava tempo para colocarem algo sólido no estômago. Mas até hoje a maioria deles resiste por lá, enquanto a turma do “escocês” já foi para o saco.

Foi no Brito que fiz amizade com o saudoso Osorinho Bragança, pai da doutora Mônica. Era um sujeito simpático, que estava sempre alegre. Creio que tinha quase 80 anos quando o conheci. Lembro de sua residência na rua Barão de São Gabriel, que parecia um quartel, de tão grande. O banheiro principal era quase do tamanho da minha casa.

O Osorinho também foi um destacado desportista. Participou de várias diretorias do extinto E.C. Cruzeiro, que nos bons tempos do futebol de São Gabriel, rivalizou com o G.E. Gabrielense.

O Brito certa vez me confidenciou que fez uma soma de todas as cervejas que o Osorinho tomou num determinado ano. Foram 2.418 garrafas. Se descontarmos os dias em que não bebeu e as vezes que ingeriu mais, ou menos “geladas”, chega-se a conclusão que foi realmente algo grandioso.

Aqui em Sobradinho-DF, onde moro, conheço alguns personagens que batem o Osorinho de longe. Tem um sujeito aposentado do Banco Bradesco, que cada vez que chega ao “Bar do Ceará”, um dos locais que frequento, derruba num só dia de 16 a 18 cervejas.

Outro, de quase dois metros de altura e uns 120 quilos, dono de uma barriga monumental, costuma esvaziar de 10 a 12 litros de cervejas, em questão de pouco mais de duas horas. Sem desprezar o cigarro, que as vezes é aceso um no outro.

E eu que pensei ser um bom bebedor de cervejas. Perto dessa turma não estou com nada. Hoje, com 75 anos, bastante fora de forma, derrubo no máximo umas 10 garrafas de loiras geladas por semana.

E não nego, sou adepto da “égua com cria”, tão apreciada aí no Rio Grande velho de guerra. Quem já bebeu sabe, é cerveja acompanhada de um calibre 12 de cachaça da boa.

UM COLABORADOR DO FUTEBOL PROFISSIONAL

Devo muito ao Brito. Quando fui presidente da S.E.R. São Gabriel, ele foi um colaborador de primeira linha. Além de dar hospedagem e alimentação a dois ou três jogadores, doava partes de frangos para a cozinha do clube.

E quando vinham delegações de outras cidades para jogos amistosos em São Gabriel, fazia descontos especiais, praticamente nada ganhando, o que garantia uma economia muito grande a S.E.R. São Gabriel.

O saudoso amigo Eroci Vaz, que certa vez arrendou o Hotel Centenário, também não cobrava hospedagem para dois ou três jogadores. Era assim, com a ajuda de amigos, que consegui fazer futebol profissional na cidade por muitos anos.

Pela “Galeteria do Brito” passaram delegações futebolísticas do S.C. Internacional e Grêmio Portoalegrense, Juventude, de Caxias do Sul, Brasil, de Pelotas e de uma infinidade de clubes gaúchos e de outros Estados.

Também nesses anos todos tem sido comum a presença no Brito de gente famosa. Lembro de uma vez em que encontrei por lá o cantor “Gaúcho da Fronteira”, que se apresentou em um evento na Praça Fernando Abbott.

Na época o “Gaúcho” ainda estava “inteiraço” e não desprezava nenhuma bebida. Hoje ele tem problemas nos rins e deixou as garrafas nas prateleiras. Na ocasião bebemos todas e conversamos bastante.

Outro que andou por lá, e certamente se deu bem, foi o Paulo Santana, gremista que nem o Brito. E não deixou por menos, ao elogiar o lugar: “Ir a São Gabriel e não comer um galeto no Brito, é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa”. E complementou: “Tudo se deve ao inigualável temperinho do galeto”.

O tempero que Brito usa no galeto é um segredo guardado a sete chaves. Essa mistura de ingredientes foi criada por ele há 58 anos, e é o que garante o padrão e a qualidade tão elogiados por seus fiéis clientes.

Ele não diz quais os ingredientes que usa, é “segredo de guerra”. Uma vez ele me cedeu um baldo da “maravilha”, que eu trouxe para Brasília. E preparei alguns frangos assados para amigos, pois por aqui não se acha “galetos” com facilidade.

O medalhista olímpico e campeão mundial de Judô, João Derly foi outro que conheceu o Brito e elogiou muito o galeto, o comparando aos melhores pratos que já saboreou. A ex-apresentadora de TV, Maria do Carmo provou e gostou do galeto. O hoje senador Lasier Martins, a mesma coisa.

AMIZADE QUE RESISTE AO TEMPO

Depois que vim para Brasília, e o Brito mudou de endereço, indo para a frente da antiga Estação Férrea, a amizade continuou a mesma. E sempre que visito São Gabriel dou uma esticada até seu restaurante. Sei que é uma amizade sincera de lado a lado, construída com base no respeito mútuo e na admiração recíproca.

O brabo é que o Brito insiste em não querer cobrar minhas despesas, o que me deixa chateado. Afinal de contas amigos são amigos, negócios a parte. E por causa disso sempre derrubo menos cervejas do que deveria, quando visito seu estabelecimento comercial.

Sempre que vou a São Gabriel, mato a saudade de saborear o inigualável galeto servido no Brito. Lembro de uma vez em que lá estive junto da minha esposa Teresinha, do meu saudoso sogro Gelcy Motta e esposa Carmem e a menina Ana Carolina, amiga da família.

Outra vez, num domingo chuvoso que antecedeu meu retorno à Brasília fui de novo ao restaurante do Brito e lá encontrei os amigos Paulo Elmano Borges e esposa e o “imortal” Dagoberto Focaccia.

Não fosse o “clip” sertanejo que aparecia no “telão”, tudo estaria perfeito. Mas agora, que até o amigo Brito aderiu ao som “sertanojo”, estou quase entregue.

Como conforto, comprei mais de 20 CDs gaúchos, adquiridos junto ao Canitar, irmão do Brito, que costumava vender “seu peixe”, nas proximidades da antiga Ponte Seca. Acho que sou um dos poucos que teima em resistir ao som sertanejo. Parece que até o “Gaitinha” já anda ensaiando uma ou outra música sertaneja.

No restaurante do Brito, onde “assino ponto” quase diariamente durante os dias em que visito São Gabriel, sempre encontro vários amigos. Na última vez que estive por lá, me deparei com os empresários rurais Hugo Gonçalves e o doutor Erasmo Chiappetta, que infelizmente nos deixou há pouco tempo.

Também a vereadora Sandra Xarão e seu esposo Chico, que conseguiu o milagre de perder uns 30 quilos. Quase não o conheci. Parecia um galã de cinema. Somos amigos de muitos anos, e a Sandra tem um lugar especial nos corações meu e da Teresinha.

O ÚNICO DEFEITO DO BRITO

O Brito é gremista, acho que seu único defeito. A não ser o Vitor, colorado que nem eu, o resto da filharada é tricolor. Mas ainda assim o Brito mantém dentro da casa bandeirinhas dos dois grandes do futebol gaúcho.

Quando de jogos da dupla famosa, o restaurante fica lotado. Tem no local uma tela grande, que dá a impressão de se estar num cinema. E nesses dias (ou noites) a cerveja corre solta.

Uma noite eu estava lá, bem escondidinho num canto do salão, durante um jogo do Grêmio. Mas fui reconhecido pelo “Bolinha” Porciúncula, colorado, graças a Deus. O Grêmio perdeu e tivemos de ficar bem quietinhos, sem poder extravasar toda a nossa alegria. Caso fizéssemos isso, correríamos o risco de levar uma boa surra.

Eu me considero um verdadeiro talismã para os adversários gremistas. Tanto é verdade, que num outro bar, perto da antiga Ponte Seca, fui tomar umas cervejas junto com o grande amigo de muitos anos, o Toninho Saccol.

E estava passando na TV um jogo do Grêmio, não lembro contra quem. O local estava superlotado, tinha gente “botando pelo ladrão”. E o Grêmio perdeu, para meu deleite. Tive o cuidado de não respirar mais forte, contendo a minha emoção, pois ali o perigo de ser linchado era enorme.

Tinha torcedor bufando, gente que mais parecia um guarda-roupa de tão grande. E eu lá quietinho que nem guri “cagado” em porta de rancho.

No Brito aconteceram coisas inimagináveis. Certa ocasião, quando o restaurante ainda estava no prédio do Hotel Centenário, por volta do meio-dia e com uma chuvarada terrível, chegou uma turma de homens e mulheres, com fome e sede danadas.

Até aí, nada de mais, não fosse o fato de que na caminhonete estacionada frente o restaurante, estivesse um caixão de defunto. Esse pessoal se deslocava para o interior do município, para sepultar o parente falecido. Só saíram de lá à tardinha, de goela e alma lavadas.

Brito não economizou para formar seu clã. É pai de sete filhos: Max, que é juiz de direito, Alex, Eric, Solimar, Marisol, Vitor e Losimar. Alguns ainda estão em São Gabriel e trabalham com o pai. Outros estão espalhados por este Brasil de Deus.

Ainda fazem parte dessa família maravilhosa, entre netos e sobrinhos: Vitória Brito, Kauã de Góes de Brito, Eduarda de Brito, Vanessa Luz, Michele Camargo, Dalton Makoto Senda, Clodomiro de Brito, Veranus Brito, Catiuscia Goes, Kathiucia Santos, Verlaine Brito, Adriana Brito, Charles Nara Brito, Marilete Guedes, Sergio Nunes e a caçula Nicole.

Brito tem muito orgulho de seus filhos. Dá um sorriso de orelha a orelha ao contar que o Max, juiz de Direito, teve o cartório que mantinha ou mantém em Bagé, considerado como o melhor do Rio Grande do Sul.

Em agosto deste ano, Brito completou 80 anos de idade. E a festa rolou solta com a presença de toda a família. Não faltou ninguém. Foi um dia especial na vida do grande mestre da culinária gabrielense.

UM GRANDE SUSTO

Em 2012 Brito deu um grande susto nos seus amigos. Chegou enfartado na Santa Casa de São Gabriel, onde esteve 17 dias internado. Teve de fazer três cateterismos, dois “Stent” (vulgo molinhas no coração ou saídas dele) e 10 dias de recuperação. Com a graça de Deus tudo correu bem e o nosso amigo se livrou dessa, com louros.

Em 2013 Brito foi agraciado com a “Medalha Plácido de Castro”, que é ofertada pela municipalidade anualmente, quando dos festejos comemorativos ao aniversário da cidade, a personalidades que se distinguiram por relevantes serviços prestados a São Gabriel.

Sua filha Marisol, postou no facebook, que essa homenagem foi merecida, pois seu pai faz parte da história de São Gabriel. Não apenas por ter gerado, e ainda gerar trabalho digno a inúmeros cidadãos, ou por ter servido diversas gerações de famílias gabrielenses.

Mas, principalmente pelo fato dele amar o que faz. Amar São Gabriel e tratar a todos com o mesmo carinho, atenção, cordialidade e sabedoria. Sim, pois além de tudo é um ótimo conselheiro sentimental.

Tantos atributos fazem dele um ser humano ímpar que é tão estimado por todos e merecedor de tal reconhecimento. Parabéns “Seu Belo”, que emoção, que orgulho, te amo, disse a filha.

Ainda deu os parabéns a todos os funcionários da “Brito Galeteria” pela dedicação e profissionalismo. E não esqueceu o prefeito Roque Montagner pela amizade e consideração por seu pai e pela sua família.

Uma das grandes paixões do Brito é a dança. Perdeu as contas de quantos concursos já ganhou. Pena é que tenha extraviado os diplomas que comprovam essa performance invejável.

E não é só tango, que dança melhor que muitos argentinos. Também é o “bam-bam-bam”, como diria o Dagoberto Focaccia, em danças de salão, rancheiras, milongas e xotes figurados.

Como não sabe resistir a um convite para dançar, em 2015 quase matou os familiares de susto. Pegou um avião e se mandou para Buenos Aires dançar tango em concursos internacionais. Não avisou a ninguém que iria viajar, pois com certeza iriam se posicionar contra.

Pensaram que ele tinha sido sequestrado, ou algo parecido. Movimentaram Polícia, foram a hospitais da cidade e da região, quase apelaram para a Interpol. Seis dias depois ele apareceu são e salvo, para alivio geral da nação.

A HISTÓRIA DO GALETO

Vale a pena contar que o galeto é uma refeição típica das colônias italianas do Sul do Brasil. O nome real da iguaria na Itália é "passarinhada", mas no Brasil alguns bares e restaurantes substituem os pássaros por pequenos frangos, abatidos ao primeiro mês de nascimento. Em geral são assados na brasa.

Nas “galeterias” é possível experimentar os pratos típicos que compõem o galeto: sopa de capeletti, radicce com bacon, polenta frita, massas (quase sempre macarrão).

O “Galeto ao Primo Canto” é um prato tradicional da culinária gaúcha. Chega a ser considerado um dos três principais pratos do Rio Grande do Sul, juntamente com o arroz de carreteiro e o churrasco.

Acredita-se que a origem deste prato remonte aos hábitos alimentares dos colonizadores, que costumavam preparar “passarinhadas” nos dias de festa. Com a proibição da caça aos passarinhos, o galeto foi adotado.

O prato teve origem na região de Caxias do Sul. O primeiro restaurante a comercializar a “gostosura” foi a “Galeteria Peccini”, fundada em fevereiro de 1931, quando da primeira “Festa da Uva”. Desde então, diversos restaurantes, denominados de “galeterias” obtiveram êxito e se espalharam pelo estado do Rio Grande do Sul.

Em Porto Alegre foi iniciado por um ex-lutador de luta-livre, o “Marreta”. Já o restaurante Don Nicola iniciou com um frango prensado famoso na rua 24 de outubro, que teve a visita de Ieda Maria Vargas, engalanada em trajes de Miss Universo.

O frango jovem (aproximadamente 25 dias) é assado sobre a brasa e comumente servido em uma farta mesa com polenta frita, salada de radiche e espaguete.

A BRIGA COM UM CACHORRO

Estas historinhas abaixo eu li nos livros “Amenidades 2” e “5”, do amigo doutor João Alfredo Reverbel Bento Pereira.

O Brito, imbatível no seu tradicional galeto e um mestre no ramo de restaurantes, entrou em luta corporal com um cachorro enorme que, ao pular na direção da sua jugular, instintivamente o fez colocar o braço à frente, onde o agressor se distraiu.

As mandíbulas da fera quase provocaram fraturas múltiplas e, com os dentes, rasgou o braço em vários lugares. Depois do socorro e do plantão no hospital, feitos os necessários curativos e ataduras, começou a sequência de injeções antirrábicas, antitetânicas e anti-inflamatórias.

Brito contou que tomou mais de 40 injeções. João Alfredo ficou imaginando se a mordida tivesse sido numa das pernas e ele ficasse impossibilitado de dançar. Certamente teria pirado, aí sim, de vez.

E, depois de um almoço memorável, onde degustou um filé acebolado feito no capricho – mais do que mal passado, quase cru – João Alfredo comentou que, agora, o Brito poderia se considerar vacinado contra qualquer tipo de raiva.

O nosso querido doutor foi almoçar na “galeteria do Brito”, coisa que não fazia há um bom tempo. Sentou-se no lugar mais popular, como sempre faz. Nisso, chegaram uma mãe com uma criança de seus 3 ou 4 anos e a avó, carregando um berço devidamente preenchido e que, surpreendentemente foi colocado sobre a mesa.

A criança maior imediatamente pegou uma colher e começou a bater na mesa, freneticamente. A avó e a mãe das crianças conversavam tranquilamente. A avó fazia gracinhas para o bebê, que sem dentes, sorria e babava.

João Alfredo levantou, trocou de mesa, indo para o lado oposto, mas ainda conseguiu ver o olhar de reprovação da avó para ele. A criança maior, desgraçadamente, tinha o nome de João e saiu a borboletear entre as mesas (até derrubou uma cadeira).

Volta e meia era chamado pela mãe e pela avó. Era João para cá e João para lá. Com espirito esportivo, João Alfredo levou tudo numa boa, dizendo que pelo menos o filé acebolado e mal passado, preparado pela dona Iracema, estava uma delicia.

Ainda no restaurante, João Alfredo viu bem a sua frente, um rapaz acompanhado por quatro moças. Terminado o almoço, juntaram-se ao rapaz e o envolveram com abraços generosos e tiraram até uma foto.

João Alfredo não teve dúvidas, levantou-se, foi até a mesa em que estavam e comentou: “Parceiro, tu realizou o meu maior sonho, sendo agarrado por quatro mulheres e todas bonitas” Assimilaram bem e, como diz o gaúcho, “a tenteada é livre”.

Brito é assim, um homem trabalhador, amigo de seus amigos e querido por seus clientes. Constituiu uma bonita família que se mantém sempre unida. Uns trabalhando com ele, outros em atividades diversas por outras plagas. (Texto e pesquisa: Nilo Dias - Matéria publicada no jornal "O Fato", de São Gabriel-RS, em 14-10-2016)
Eu (Nilo Dias) e Brito, quando do lançamento de meu livro "100 anos de futebol em São Gabriel)