quarta-feira, 19 de julho de 2017

Uma gabrielense de destaque

A escritora Ieda Cunha Cavalheiro, que já foi presidente da Casa do Poeta Riograndense é filha de São Gabriel, onde nasceu em 23 de março de 1950. Reside em Porto Alegre desde 1975. É mãe de três filhos: Emmanuel, Leonardo e Isabelle.

Uma intelectual de respeito. Bacharel em Letras pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e em Direito, pelo Instituto Ritter dos Reis, de Canoas, RS. Foi professora primária, em São Gabriel e de Língua Portuguesa em Bagé.

Assessorou Delegacias de Ensino e da Secretaria Estadual de Educação (SEC), em Porto Alegre e atua como advogada em Porto Alegre e Grande Porto Alegre, desde 1988, como profissional liberal, exercendo a profissão, embora aposentada, desde 31 de março de 2005.

Escreveu para vários jornais-informativos do Estado, entre eles “O Imparcial”, de São Gabriel, onde publicou artigos sobre a Reforma do Ensino; Jornal: “A Razão”, de Santa Maria; Jornal da Escola Adventista de Porto Alegre; Revista do Lions - Club Porto Alegre – Redenção, entre outros.

No ano de 2006, criou e editou o Primeiro Informativo da Casa do Poeta Rio - Grandense, “Operário das Letras”. Em junho de 2006 assumiu a Presidência da Associação de Arte e Literatura da Zona Norte de Porto Alegre e a Presidência da Casa do Poeta Rio-Grandense em 24 de julho de 2007.

Livros publicados: “Sinfonia de Vida”, poesia; “O Peixinho e a Menina Triste”, conto infantil; “Nas Asas da Paz”, coletânea em Prosa e Verso; “Casa do Poeta 44 Anos”; “Casa do Poeta 46 Anos” e “Casa do Poeta Rio-Grandense 47 Anos”.  Participou de mais de 30 Coletâneas em Prosa e Verso, possui crônicas publicadas em alguns jornais. Foi Presidenta de 2007 a 2011 da Casa do Poeta Rio-Grandense.


domingo, 16 de julho de 2017

As santas populares de São Gabriel

O município de São Gabriel é conhecido por ter sido palco de batalhas e combates sanguinários, em muitas guerras que tiveram episódios em seu solo sagrado. Também por ser berço de militares ilustres e políticos destacados.

E não fica só nisso. Tem muito mais. Por aqui nasceram outros vultos que alcançaram renome nacional nas artes, na religião e em muitas outras coisas.

E não se deve esquecer a vocação que a cidade sempre teve para venerar pessoas, locais e ter na credulidade algo que se mistura com realidade, história ou ficção.

Vou procurar me aprofundar um pouco nessa questão. Começando com a “Ciganinha” e a “Guapa”, que estão sepultadas no cemitério local. A “Ciganinha”, bem a esquerda de quem entra. É a primeira catacumba, embaixo. A “Guapa” já mais para o centro, mas bem fácil de achar.

E não tem outro jeito para contar com precisão tudo o que aconteceu em São Gabriel, no passado, que não seja pedindo socorro ao historiador da cidade, o admirável amigo Osório Santana Figueiredo.

Ainda bem que tenho na minha biblioteca a totalidade dos livros que ele escreveu. O que garante um estudo minucioso sobre qualquer coisa que diga respeito a São Gabriel. E o seu Osório conta com mínimos detalhes os passos desses personagens que ajudaram a criar toda essa gama de episódios.
Em 1944, a cidade conheceu um de seus piores invernos.

A geada tapava de branco os campos. O vento Minuano soprava implacável, trazendo uma sensação de mais frio. Sei bem o que é isso, pois convivi vários anos com o tenebroso frio gaúcho, em Dom Pedrito, minha terra natal, e em São Gabriel, cidade que mora no meu coração.

E foi num cenário desses que um grupo de ciganos com suas famílias, chegou a São Gabriel. Vieram em caminhões e automóveis, acampando em um terreno baldio, perto dos trilhos da Viação Férrea, onde hoje se encontra um Supermercado.

Anos mais tarde os ciganos acampavam em outro local, uma área próxima ao Armazém Motta, do meu saudoso sogro Gelcy Motta. E quando eu e a Teresinha, minha esposa, morávamos lá, muitas vezes visitamos os acampamentos e até fizemos amizades com vários ciganos e ciganas.

Trata-se de gente boa, nômades por natureza. Comerciantes por vocação e necessidade. Naqueles tempos, quando eu era criança, vendiam tachos de cobres, objetos que duravam uma vida inteira. Ficou um lá em São Gabriel, que ainda pretendo trazer para Brasília, e com ele fazer doces de dar água na boca.

Talvez escondido da amiga Carmenci, viúva do meu sogro e guardiã do que sobrou do armazém. Brincadeira a parte, tenho certeza que ela não vai se importar com isso e me garantirá o presente.Os ciganos também vendiam baterias de carros. E as ciganas buscavam nas ruas clientes interessados em saber coisas de suas vidas.

A futurologia foi sempre uma característica delas. Os pagamentos podiam ser feitos de várias formas, dinheiro, objetos diversos, aves e outros animais.E quem um dia não deixou uma cigana ler a sua mão? Eu deixei muitas vezes.

Era divertido e as histórias contadas por uma, geralmente era repetida por outra. E não vaticinavam coisa ruim para ninguém.A curiosidade levava dezenas de pessoas a visitar os ciganos, especialmente aos domingos e feriados.

Nessas ocasiões tudo se transformava em festa.Lembro de um casamento de ciganos celebrado lá perto de casa. Uma semana inteira de alegria. Comida sobrando e bebida também. Baile da manhã a noite e as vezes varando as madrugadas, tendo a lua como acompanhante.

Uma característica das ciganas jovens é a beleza. Pena que com a idade avançando ela diminua bastante, talvez por força da vida que levam, sempre viajando.

E entre as mais bonitas estava Maria Anita Costichi, que mantinha a formosura, mesmo com 40 anos de idade.Era alegre, descontraída e tratava a todos com educação e doçura no trato. E rapidamente fez amizade com a gente da cidade.

Era solidária com pessoas doentes, não só do grupo como de qualquer outro morador.Mas ela própria, de repente viu-se vítima de terrível doença. Mas como esse mundo é traiçoeiro e as vezes não perdoa nem as melhores pessoas, Anita teve de lutar pela vida.

Não foi mais vista andando pelo acampamento. Teve de recolher-se a uma tenda, visto que o mal se agravava com rapidez.Até que na noite de 8 de agosto daquele ano de 1944, por volta de 22h30min, ela morreu.

O médico gabrielense, doutor Oswaldo Passos D’Utra, que a atendeu durante o tempo em que esteve adoentada, atestou um câncer no reto, como a causa da morte.Uma coisa chamou a atenção das pessoas que compareceram ao velório de Anita. Seus companheiros ciganos pareciam não demonstrar qualquer sensação de dor.

Tudo funcionava normalmente. Ninguém derramava lágrimas e nem lamentava o ocorrido.Por desconhecer o modo de vida dos ciganos, as pessoas estranhavam esse comportamento. Na realidade, esse povo tem uma maneira diferente de encarar a morte. É outra cultura. A morte é vista como algo normal, próprio da vivência terrena.

O enterro da cigana teve um grande acompanhamento. Os ciganos colocaram carros a disposição da população. Muita gente nunca andara de carro antes. Os enterros de pobres especialmente, era feito naquela época no pulso, pelos corredores do cemitério.

Pouco tempo depois, começaram a surgir às primeiras velas no túmulo da “Ciganinha”. Seguindo-se a colocação de enfeites coloridos, fitas e lenços vermelhos e recortes amarelos. E por fim dinheiro, que muitas vezes era surrupiado.

Era gente pedindo milagres à cigana que virou santa.Sua fama de “milagrosa” ultrapassou as fronteiras de São Gabriel e se espalhou por todas as partes, seguindo-se verdadeiras romarias de pessoas a procura da cura de seus males ou de decepções amorosas.

É comum até hoje deparar-se com dias em que a quantidade de oferendas é tão grande, que os funcionários do cemitério são obrigados a efetuar várias limpezas.Quando eu morava em São Gabriel, muitas vezes vi pessoas ajoelhadas frente o tumulo da “Ciganinha”, pedindo alguma coisa e pagando com algo colorido, o que se explica pelo gosto desse povo por cores mais fortes.

A outra “santa do povo” foi Maria Isabel Hornos, popularmente chamada de “Guapa”, uma uruguaia que veio morar em São Gabriel e se tornou dona de um bordel.O apelido ganhou, porque gostava de se vestir a moda campeira, com botas, bombacha e chapéu de aba larga.

Também era eximia tocadora de gaita e trovadora das mais respeitadas.Tratava-se de uma mulher de beleza esplendorosa, cobiçada pelos homens da cidade, na época. Nasceu no vizinho país em 15 de junho de 1897, tomando o rumo de São Gabriel na década de 1920.

Sua casa ficava na rua Celestino Cavalheiro, onde funcionava uma pensão de mulheres, a mais frequentada, não só por causa de “Guapa”, mas também pelas lindas mulheres que lá se encontravam.

O fato de “Guapa” ser uma prostituta não queria dizer nada, perto da bondade de seu coração. Dizem que ela vivia rodeada de crianças. Os vizinhos a apreciavam. E ela se importava com os pobres, procurando sempre ajudar de todas as formas, dando alimentos e roupas aos mais necessitados.

Todos os atributos que tinha, beleza, bom coração, honestidade, não foram suficientes para que continuasse viva. Em uma noite de Carnaval, 3 de março de 1924, “Guapa” foi covardemente assassinada com alguns tiros nas costas, quando se enfeitava a frente de um espelho.

izem que os projéteis partiram da janela, do lado de fora, desferidos por um cabo dos Provisórios do Exército. E o crime fora encomendado por uma esposa ciumenta, que não tolerava o romance de seu marido, estancieiro muito conhecido na cidade, com “Guapa”, mulher mais bonita que ela.

Como sempre acontece quando tem alguém poderoso envolvido em crimes contra pobres, o culpado ficou impune. Até hoje o caso é comentado e nas conversas de botequins, o nome da mandante do crime é falado abertamente, até porque ela já morreu, faz tempo.

O que restou a “Guapa” é o seu espirito ter presenciado um sepultamento com grande acompanhamento, pois era uma pessoa muito querida na cidade, especialmente pelos mais pobres.O caixão foi carregado por dezenas de pessoas, que se alternaram na piedosa missão até a chegada ao cemitério.

 partir dai o seu túmulo virou um santuário, onde pessoas de todas as partes chegam com flores e placas de homenagens, para pagar promessas.E isso se deveu em muito a uma devota de nome Modestina da Silva Dux, já falecida, que durante muitos anos promoveu no “Dia de Finados” uma procissão até o túmulo daquela que ficou conhecida como uma “santa do povo”.

A procissão deixou de ser feita, mas a devoção continua.O saudoso tradicionalista Antônio Augusto Fagundes, escreveu um livro com o título de “As Santas-Prostitutas: Um estudo de devoção popular no RS”, em que conta a história de “Guapa” e de outras mulheres.

E foi nesse livro que encontrei a “Oração a Guapa”, que aqui reproduzo e que foi mandado publicar por Modestina da Silva Dux:

A nossa protetora espiritual, nossa milagrosa Isabel (Guapa), peço que afaste as más companhias, nos consiga saúde, boas amizades e bons negócios, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amém.

Deus, com sua infinita misericórdia Divina e nossa protetora e milagrosa Isabel Guapa, nos dê toda a confiança em vossos méritos perante Nosso Senhor Jesus Cristo. Entrego-me a Vossa proteção rogando-vos afastar de mim as más companhias, aproximando-me dos bons que podem auxiliar-me no caminho da vida.

Livra-me de todos os meus inimigos, Visíveis e invisíveis, nossa protetora e milagrosa Isabel Guapa, assim como Vós foste sacrificada traiçoeiramente, assassinada pelas costas, roubando vossa preciosa vida.Protetora e milagrosa Isabel (Guapa), Vós que a todos estende suas mãos protetoras e amigas, com uma eterna gratidão a todos os seus devotos, que Deus nosso Pai todo poderoso abençoe a Santa Fraternidade, entre todos os seus filhos, com as divinas Vibrações de Harmonia, Amor, Verdade e Justiça.

Que a Paz de Deus a guarde, iluminada e milagrosa Isabel Guapa.Viva Nosso Senhor Jesus Cristo. Viva a nossa protetora espiritual a milagrosa Isabel Guapa.

Pede se a graça e reza-se 1 Padre Nosso 1 ave Maria. Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, Amém.Eu pretendo em outras oportunidades voltar a tocar no tema, que realmente é interessante e envolvente.

Já há quem pense em explorar esse nicho como referencial turístico, o que não deixa de ser uma boa idéia.O espaço do cemitério de São Gabriel já foi objeto de estudo, bem como outros locais da cidade relacionados ao enterramento de pessoas, como a “Capela dos Fuzilados”, a “Capela dos “Noivinhos” e o “Nicho Funerário” com os restos mortais do monsenhor Henrique Rech, na Igreja Matriz.

Seria, vamos chamar de turismo imaterial. Já o turismo em cemitérios já existe, tendo como foco principal a exploração do patrimônio artístico e arquitetônico. E isso também poderia ser explorado em São Gabriel.

Sabe-se que em algumas localidades cemitérios já foram transformados em museus, sem se afastarem das suas funções originais. (Pesquisa: Nilo Dias - Publicado no jornal "O Fato", de São Gabriel-RS, edição de 14 de julho de 2017)

Maria Izabel Hornos, a "Guapa"

domingo, 9 de julho de 2017

Uma foto histórica

Ano de 1914. O primeiro avião que pousou em São Gabriel. Foi na antiga Praça da Caridade e era pilotado por Cícero Marques. Na foto aparecem: Ramon Monteavaro,  João Pedro Nunes, o piloto Cícero Marques e Jerônimo Fragomeni. Esse avião no mesmo ano atravessou o Canal da Mancha. (Fonte: "Às 10 Mais do Dagoberto Focaccia")

sábado, 8 de julho de 2017

Carreta centenária

O amigo Magro Borin, em suas andanças pelo interior de São Gabriel muitas vezes encontra verdadeiras reliquias, que nos levam ao passado do nosso Rio Grande do Sul. A carreta mostrada nas fotos abaixo, por exemplo, é um achado de valor histórico imenso.

A velha carreta centenária encontra-se em uma propriedade no Batovi. Trata-se de um modelo primitivo, com tolda de zinco e porta de entrada, pois servia de casa para os carreteiros da época. Trata-se de uma das mais antigas carretas que percorreram as estradas interioranas de São Gabriel.





sexta-feira, 7 de julho de 2017

Do fundo do baú

A amiga Lourdes Figueiredo achou essa foto lá no fundo do baú, e colocou na página do mano Beraldo. Ela é a terceira, na coluna bem de baixo, ao lado da irmã Gema. Segundo o Beraldo, tudo indica que essa reliquia seja de 1958, portanto com 59 anos.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Irmão Aurélio Ortigara, um educador exemplar

Faleceu recentemente, dia 10 de março deste ano, em Porto Alegre, vítima de parada cardíaca, o irmão Aurélio Ortigara, na avançada idade de 98 anos, 80 deles dedicados à vida religiosa. Era natural de Antônio Prado (RS), onde nasceu no distante dia 19 de maio de 1918.

Um dia após o seu nascimento, foi batizado em ato religioso realizado na Paróquia de São Pedro e São Paulo, no distrito de Nova Roma, pelo padre José Bem. Foi registrado no município de Antônio Prado, no dia 26 de junho de 1918.

Era filho de Albano Ortigara, natural de Caxias do Sul e de Josephina Guetini, nascida em Vercelli (Itália). Teve 12 irmãos de sangue e mais dois de criação. Aos 15 anos ingressou na Congregação dos Irmãos Maristas em Antônio Prado, e ficou na Escola do Sagrado Coração de Jesus por um ano.

Nos anos de 1934 e 1935 estudou e fez estágio onde fica hoje a cidade de Bom Princípio. Em 1936 foi para o Colégio Champagnat, em Porto Alegre, onde estudou e fez o Serviço Militar.
Completou um período de experiência em 1937, quando mudou seu nome para irmão Brício Marcos. E demorou 25 anos para voltar ao nome de batismo. Em 1938 fez um ano de aprendizado com estudos especiais no Colégio Champagnat.

O INÍCIO COMO PROFESSOR

A sua vida de professor teve inicio em 1939, no Colégio Santo Antônio, de Garibaldi. Depois, em 1940 e 1941 esteve no Colégio Santa Maria, em Santa Maria. Só a título de curiosidade, eu, Nilo Dias, fui aluno desse educandário. Claro que não foi no período do irmão Ortigara.

Como eu era um menino muito arteiro, meu pai me internou no Colégio Santa Maria. Estive lá durante quatro anos, não era muito chegado a estudar, mas ainda assim passei de ano sempre. O que eu gostava mais era de jogar futebol.

Em sua trajetória, o irmão Ortigara era reconhecido por ter punho firme com os alunos e exigir muita disciplina – característica que lhe rendeu o apelido de “Tremendão”.

O irmão fez o curso do “Artigo 100”, uma espécie de ensino de segundo grau, o que lhe deu o direito de receber da Secretaria de Educação do Estado, o registro de professor do Curso Primário.

Em 1942 e 1943 trabalhou no Colégio Nossa Senhora do Rosário, em Porto Alegre. Em janeiro de 1943 fez os votos perpétuos, nome que a Igreja dá aos que abdicam de suas vidas familiares e profissionais, para se dedicarem aos institutos da vida religiosa.

Uma de suas mais admiráveis missões teve lugar em Florianópolis, nos anos de 1944 e 1945, quando trabalhou no Educandário Abrigo de Menores, que cuidava de jovens delinquentes, criminosos e abandonados.

Em 1946 conheceu dias menos agitados, já que foi transferido para o Colégio Frei Rogério, em Joaçaba ( SC). E no ano seguinte foi lecionar no Colégio São Tiago, de Farroupilha. Em 1948 até 1957 esteve de volta ao Abrigo de Menores de Florianópolis.

Aproveitou esses anos para fazer exames de Suficiência, perante bancas de professores vindos de São Paulo e do Rio de Janeiro, para obter registro definitivo de professor em várias disciplinas. Nos anos de 1958 a 1964 esteve lecionando no Colégio Cristo Rei, na cidade de Getúlio Vargas.

Não satisfeito e procurando sempre ampliar seus conhecimentos, o irmão Ortigara fez o segundo Noviciado, em 1959, em Campinas (SP), ampliando experiências.

A SUA ESTADA EM SÃO GABRIEL

E de 1965 a 1976 nossa cidade teve a honra e a alegria de receber o religioso, que por aqui foi tesoureiro, vice-diretor e diretor do Ginásio São Gabriel. Também exerceu a função de Superior das Comunidades dos Irmãos Maristas. Em 1973 concluiu a Faculdade de Estudos Sociais (FIC), e obteve o primeiro lugar da turma.

Era um apaixonado pelo conhecimento. Por isso ingressou na Escola Superior de Guerra (Adesg), em 1974, quando foi diplomado. No ano de 1975 esteve em Roma, na Itália, para fazer o Curso de formação da terceira idade.

Em 1979 fez curso de aperfeiçoamento (Cemar) na cidade de Teresópolis (RJ). Sua longa carreira de religioso e professor teve continuidade em 1977, quando foi transferido para o Colégio Santanense, de Santana do Livramento, onde ficou até 1985.

Entre os anos de 1986 a 2003 voltou a exercer atividades no Ginásio São Gabriel, perfazendo 30 anos em nossa cidade. Em 4 de abril de 1997 recebeu o título de “Cidadão Gabrielense”, por proposição do então vereador Caio Rocha e aprovado pela unanimidade dos componentes de Câmara de Vereadores.

Em 2004 foi transferido para o Colégio Marista Maria Imaculada, em Canela, onde assumiu o cargo de ecônomo da comunidade dos irmãos daquela cidade.

UMA MERECIDA HOMENAGEM

No dia 25 de maio de 2008, o irmão Aurélio foi homenageado por irmãos, parentes e amigos em uma Missa celebrada na Paróquia Santo Antônio do Pão dos Pobres, em Porto Alegre. A celebração foi presidida pelo padre Luciano Gouvêa, de São Gabriel, e foi seguida de um almoço no edifício “Tour d’Argent”.

Solidário e amigo de seus colegas religiosos, Ortigara deu sua colaboração para que fosse escrita a biografia “Irmão Taciano: um Marista feliz e solidário”. Tratava-se de alguém simples e humilde a serviço do povo, uma alma de menino, sempre correndo, brincando, sorrindo.

As palavras, cuidadosamente escolhidas pela Fraternidade que leva seu nome, foram usadas para descrever o irmão Taciano Pedro. A biografia do religioso, narra, por meio de relatos, imagens e documentos, a sua trajetória, entre 1909 e 2006.

Ele viveu grande parte de seu apostolado em bairros da cidade de Getúlio Vargas. Foi nessa região que ele ajudou a catequisar crianças, auxiliou as famílias com seus conselhos e promoveu procissões, fortalecendo o espírito de família.

Também teve papel fundamental na construção do Centro Catequético Marcelino Champagnat, do Centro Comunitário São José e da capela do bairro Champagnat, naquela cidade
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PROJETO PRESERVA HISTÓRIA DO RELIGIOSO

A figura do irmão Aurélio Ortigara não será nunca esquecida. Sua vida e sua história estão guardadas para sempre no projeto “Memórias Maristas – Histórias de amor e vida”.

O projeto visa resgatar e valorizar a história de vida de Irmãos que ajudaram a construir a Rede Marista. E nele está a gravação em que o irmão conta detalhes da sua vida.

É, também, uma maneira de prestar uma homenagem àqueles que ajudam a manter vivo o sonho do fundador do Instituto Marista, São Marcelino Champagnat. Várias pessoas de São Gabriel, que conheceram o irmão Aurélio Ortigara, falaram a seu respeito.

Foi professor, entre muitos outros, de Carlos Pufal Machado, que disse ter sido ele o maior dos mestres, disciplinador e amigo dos alunos.

Já Ronaldo Machado da Fontoura enfatizou em sua homenagem ao professor, que ele foi capaz de mostrar que a “Matemática” vai muito além das quatro operações, abrindo janelas que só se ampliam com o passar dos anos.

Calina Correa lembra dele como um amigo dos seus filhos. Pessoa ímpar, como mestre e, principalmente, como ser humano, com uma vida dedicada a servir.

O advogado doutor Augusto Solano Lopes Costa, foi aluno do irmão Aurélio nos anos 70, no Ginásio São Gabriel, quando ele era diretor do estabelecimento de ensino. Garante que com sua partida, deixou uma grande lacuna, pois se tratava de um professor da vida e da religiosidade.

Fabíola Fernandez, advogada e corretora de imóveis, hoje morando em Porto Alegre, também foi aluna do irmão Ortigara. Salienta que se tratava de alguém inesquecível, um homem de valores morais e intelectual.

Para Victor Pires tratava-se de uma pessoa ímpar. Foi aluno dele durante anos no Ginásio São Gabriel. Testemunhou que dedicou a vida toda à educação. E nada mais justo que agora descanse em paz, junto Daquele a quem prometeu servir.

Outro que foi seu aluno em São Gabriel, na década de 70, Jorge Ubirajara Weber dos Santos lembra que se tratava de um professor, austero, quando tinha que ser, e amigo sempre. É agradecido até hoje a geração de irmãos Maristas que moldaram a sua vida, nos tempos de estudante.

Bonito depoimento de alguém que se identificou apenas como Raul, publicado na Internet: “Ah saudade do irmão Aurélio. Grande professor de Geografia no Ginásio São Gabriel.

Fui aluno dele e posso afirmar que foi um dos melhores professores que tive na minha educação. Grande sábio. Ele fazia tanto prova oral como texto. Provas difíceis. Súper exigente. Grande professor.

Oh saudade da escola Ginásio São Gabriel. Tinha o diretor Víctor Rosseto, irmão Ivo, Delfino. Saudades desse tempo. Parabéns. Na época que ele residia na casa dos irmãos Maristas ao lado da escola Ginásio São Gabriel, era quem dirigia uma Kombi, na qual levava os irmãos para assistirem Missas. Era, ainda, dono de um cão de nome “Pajé”, que andava sempre com ele”.

Também na Internet encontrei outra homenagem ao querido irmão. É de Flávio Borguetti, que diz: “Lembrei do querido mestre irmão Aurélio Ortigara, que chamávamos de irmão Brício. Boas lembranças vieram à memória, ano de 1964, Colégio Cristo Rei em Getúlio Vargas.

De todos os professores que tive em minha vida escolar, irmão Aurélio Ortigara foi o mais querido, dedicado, amigo. Que Deus lhe dê um bonito lugar no céu. Saudade, com o carinho de um ex-aluno”.


Laucimir Azambuja da Silva, disse em seu depoimento, que quando o irmão Ortigara nos deixou, foi um dia triste.

Ele foi seu professor no Ginásio São Gabriel. E garante que foi uma época boa, em que se aprendia de verdade. (Pesquisa: Nilo Dias – Publicada no jornal “O Fato”, de São Gabriel-RS, edição de sexta-feira, 30 de junho de 2017)

O irmão Aurélio gostava muito de crianças.

Saudade do Calçadão

É uma pena, mas o "Calçadão" de São Gabriel não existe mais. O tal desenvolvimento desenfreado retirou o que tinha de mais bonito na cidade. Agora é só recordar nas fotografias. o "Chimarródromo" era único e chegou a ser cantado em prosa e verso Estado afora, como um patrimônio do Tradicionalismo. Mas o que fazer agora? Nada, só ter saudade.



terça-feira, 13 de junho de 2017

*Fronteira Agreste, um livro polêmico

Boa Noite Sr. Nilo Dias. Meu nome é Rodrigo Lucca, sou gabrielense morando fora de minha querida terra há bastante tempo, assim como vários conterrâneos que por diversos motivos deixaram nosso município.

Mesmo morando longe de São Gabriel há muitos anos, tenho o hábito de ler sobre o que está acontecendo em nossa cidade, pelos meios de comunicação que estão disponíveis na Internet.
 Acompanho seus textos periodicamente, admiro seus estudos e seu empenho em resgatar a história não só do nosso município, mas de todo nosso Estado.

Em sua postagem do dia 10/06/2017, intitulada de “Fronteira Agreste: Um Livro Polêmico”, no primeiro paragrafo tive uma grata surpresa, o senhor escrevia sobre um saudoso amigo o Ênio Lucca, e logo em seguida falava nos seus também amigos Flávio, Zé e Pico. Pois bem, sou o neto mais velho do seu Ênio, consequentemente sobrinho dos demais citados em seu texto.

 Lendo suas palavras sobre ele, senti uma nostalgia enorme em recordá-lo da maneira na qual o senhor descreveu meu querido avô.

Remeteu em minha lembrança a figura de um homem muito bem informado para sua época, nunca abria mão da leitura diária dos seus jornais, uma pessoa que possuía diversas habilidades, era marceneiro e carpinteiro, a mãe falava na minha adolescência que nos carnavais era ele quem ajudava a construir e montar os carros alegóricos dos clubes para os desfiles de suas rainhas.

Pedreiro, juntamente com seus filhos ergueu sua casa na rua Major Faeco, no Bairro Siqueira. Eletricista, ofício este repassado aos filhos Pico e Flávio, que hoje mantem uma oficina que durante muitos anos ficava na Rua General Marques, quase na esquina do Distribuidor de Bebidas Bergamo, que inclusive são seus parentes.

Até onde sei, árbitro auxiliar de futebol, o famoso bandeirinha ele também foi, enfim era um cidadão versátil (rsrs).

Era também um apaixonado pela pesca. É desta época que tenho a lembrança do senhor como um grande parceiro do meu avô e dos meus tios. Se não me falha e memória o senhor também participou da diretoria da Sociedade Esportiva e Recreativa São Gabriel, juntamente com meu tio Zé Lucca e do saudoso Domingos Rivas.

Durante a leitura de seu artigo, fiquei imaginando meu avô nos dias de hoje, com a quantidade de informação que possuímos e a velocidade com que tudo acontece. Fico pensando que ele em seu “Brizolismo”, iria ver o quanto estava correto este senhor, que em minha humilde opinião foi um dos maiores injustiçados de nossa história, quando não teve a oportunidade de governar esse gigante e hoje infelizmente desgovernado País.

Se bem que, pensando melhor, os culpados fomos nós, povo, que não sei por quais motivos não lhe concedemos essa oportunidade.

Trabalho em uma instituição de ensino e tenho certeza que se meu avô estivesse entre nós neste momento conturbado, com tanta falta de caráter, de princípios éticos e políticos, com tamanha carência de verdadeiras lideranças e total descrédito em nossos representantes, citaria alguma frase do senhor Leonel Brizola.

Por fim, agradeço as palavras sobre nossa família, especialmente pela lembrança de meu avô, referência fundamental para todos nós que tivemos a oportunidade de conviver com ele. Verdadeiras amizades estão cada vez mais escassas.

E me sinto muito orgulhoso em saber que meu avô foi um grande amigo seu. Desejo-lhe muitos e muitos anos de vida, para que possa continuar nos contando mais de nossas origens, assim nos fazendo entender um pouco melhor nossa história.

Abaixo deixo um pequeno trecho de Leonel Brizola, talvez esse seja um dos tantos que seu Ênio iria nos lembrar:

“A educação é o único caminho para emancipar o homem. Desenvolvimento sem educação é criação de riquezas apenas para alguns privilegiados. A Violência é fruto da falta de educação. Venho e volto do campo e os bois são os mesmos: não mudam de caráter. Já os homens...“

Vida longa Sr. Nilo Dias

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Uma bela recordação


O amigo doutor Hermes Marengo Filho, é gremista. O que fazer? Cada um gosta de sofrer ao seu modo. Mas sem dúvida essa foto sua e da esposa, dona Eli, ao lado do grande craque gremista, o uruguaio, Ancheta, que também é excelente cantor, é uma linda recordação.

Ele só não foi o melhor zagueiro do Estado, poque teve o azar de ver o chileno Figueroa, até hoje o melhor do mundo na posição, brilhar com a camisa colorada.

A foto é de cinco anos atrás, foi tirada no "CTG Querência Xucra", quando de uma festa do Consulado gremista. O amigo, advogado e funcionário da extinta Caixa Econômica Estadual, Paulo Valle, era o Consul do Grêmio, em São Gabriel.

domingo, 11 de junho de 2017

Fronteira Agreste: um livro polêmico

Certa vez eu estava na Mercearia do Djalma Munhós, no alto da Sociedade XV de Novembro. E como sempre, encontrei por lá o saudoso amigo Ênio Lucca, pai dos também amigos Flávio, Zé e Pico. Ele sabia um pouco de tudo, era um intelectual. Se provocado, dissertava sobre qualquer tema, de futebol a política, passando por história e geografia.

Muitos foram os bons papos batidos lá na mercearia, também com a presença do tenente reformado do Exército, Alci Dutra e eventualmente do ex-vereador Roque Oscar Hermes. Pena que se tratava de gremistas.

Certa vez seu Ênio me falou que tinha em casa o livro “Fronteira Agreste”, que retratava situações vivenciadas no meio rural de São Gabriel envolvendo uma conhecida família. Apesar de ele ter me oferecido por empréstimo, o tempo acabou passando e não vi e nem li o livro.

Passado muitos anos, e já morando em Brasília, encontrei “Fronteira Agreste” na Internet e acabei comprando, como tenho feito com outras obras que me chamaram a atenção.

Casos de “São Gabriel na história”, de Aristóteles Vaz de Carvalho e Silva; “Aspectos Gerais de São Gabriel”, de Fortunato Pimentel; “A Batalha de Caiboaté”, de Ptolomeu Assis Brasil e a obra de Carlos Reverbel, que estou adquirindo aos poucos.

Já tenho: “O Gaúcho”, “Diário de Cecília Assis Brasil”, “Um capitão da Guarda Nacional” e “Pedras Altas”. Mas pretendo comprar todos os livros do autor, se for possível. Até em homenagem ao meu amigo doutor João Alfredo Reverbel Bento Pereira, primo do grande escritor.

E para conhecer melhor a obra de Ivan Pedro de Martins, também adquiri “Caminhos do Sul” e “Casas Acolheradas”, que são a continuidade de “Fronteira Agreste”, que entendo ser um livro que fala de paisagens, cenas e tipos de uma estância gaúcha da fronteira.

Tradicionalmente ligado ao chamado “Romance de 30” pelos seus estudiosos, contudo, Ivan Pedro não seguiu uma das principais lições daquele grupo de escritores: não trabalhou ele com heróis individuais ou mesmo anti-heróis, se considerarmos o Fabiano, de “Vidas Secas”, dentre outros.

Preferiu conjuntos humanos e sociais que traduzissem, exatamente pelo aspecto coletivizado, as modificações sociais em emergência.

Assim sendo, “Fronteira Agreste” analisa o espaço da estância, enquanto “Caminhos do Sul” busca o espaço do corredor. E, enfim, “Casas Acorelhadas”, fala da cidade e de seus variados espaços representativos, o boliche popular, o bar das elites, o clube social, etc.

Fronteira agreste, publicado em 1944, não deixa de prestar tributo à tradição de lutas da campanha, mas traz bem visíveis sinais de outro momento histórico, pois Ivan Pedro de Martins evoca neste romance os maiores conflitos entre facções rivais ocorridos em solo sul-riograndense:

A Revolução Federalista de 1893 e a revolução de 1923 que já refletia desdobramentos dos primeiros anos da República. No entrecruzar das vozes daqueles que relatam o que lhes ficara na memória, registram-se as gestas desse período histórico.

Sabemos pelo narrador que “as coxilhas estão cheias de histórias e de sangue. Ali perto, fica o Caverá, a serra, com os grotões, onde se metia Honório Lemes quando ia mal”.

OPINIÕES SOBRE IVAN PEDRO

O escritor Lauro Dieckmann, em seu blog “Memória do Escrevinhador”, escreveu o seguinte sobre Ivan Pedro de Martins:

“Na verdade ele era mineiro. Andou pela Campanha no fim da primeira metade do século passado. A exemplo de outro mineiro, Guilhermino César, encantou-se com o que viu”.

O autor e dramaturgo, Guilherme Figueiredo, que era irmão do ex-presidente general João Baptista Figueiredo disse que Ivan Pedro de Martins, com a esplendida obra ”Fronteira Agreste”, colocou pela primeira vez na ficção do campo sulino esta coisa terrível e verdadeira: a vida que é preciso corrigir, a realidade que se deve socorrer.

Olívio Dutra, respeitado político gaúcho escreveu: “Dentre as leituras que me causaram impacto pela reflexão que provocou junto com a fruição prazerosa de seu universo ficcional, lembro-me de uma, muito singular, porque trata do mundo e da cultura gaúcha. E foi um livro escrito por um mineiro. Trata-se de Fronteira agreste, de Ivan Pedro de Martins.

De repente, os personagens de Fronteira agreste eram parentes próximos do povo do qual eu fazia parte ali na periferia de São Luiz Gonzaga. Gente que, como meus pais, agregados num fundo-de-campo, aos poucos foram vindo para a cidade em busca de um ganho que não mais encontravam como peões nas fazendas. Seus relatos e causos passaram a ter um outro significado para mim.”

O trecho que segue é transcrito do livro “Caminhos do Sul”, edição da Livraria do Globo (1946), quando ainda era da família Bertaso, e descreve um temporal em pleno campo, coisa muito comum por estes pagos.

“O ar estava pesado. Tio Virgílio pensava que o melhor era por a carga no boliche e esperar que a tempestade passasse. A tormenta se aproximava. O sol era um tição vermelho no borralho das nuvens cinzentas.

Esfiapadas, as nuvens brancas saíam como lã de novelo das bandas do Sul e formavam uma cola de pomba no céu esbranquiçado. Os cachorros andavam de língua pendurada, sentados debaixo dos cinamomos, pois não aguentavam ficar deitados.

“Vai ser gorda”. Disse tio Virgílio. Os outros concordaram.

O dia morria sufocado de eletricidade e o céu parecia inverter a abóbada em nuvens cada vez mais negras e mais próximas da terra, espremendo o ar úmido que oprimia os homens. Já era quase noite quando o ar parou completamente, como se esvaziasse o mundo de ruídos e um vácuo tenebroso ocupasse tudo, apertando os ouvidos e fazendo latejar as fontes.

Os homens se olharam e Laudelino riu. O barulho da risada repercutiu pelas coxilhas silenciosas e um trovão profundo a terminou, acompanhando o chispaço que cruzou de uma nuvem a outra sobre o boliche.

“Aí vem ela”.

E se desencadeou uma sarabanda de raios e trovões, cortando o ar em todas as direções, unindo o céu e a terra em ziguezagues ofuscantes que carbonizavam árvores ou estatelavam vacas e ovelhas.

A chuva começou com um granizo grosso como ovo de quero-quero, branqueando o campo com as pedras brilhantes, que saltavam ao golpear o chão, depois se despencou em cataratas, imensos cordões de água, unidos e parelhos a ponto de mais semelhar o derramar gigante do mar que o esfiapar de nuvens prenhes de umidade.

Em poucos minutos estava o corredor transformado em regato barulhento e o pátio do boliche em lagoa que escorria pelos valos naturais em direção do “espantoso”. A noite que chegava se apressou em ficar negra e no escuro soava aquele chuá sem fim sobre as santa-fés do rancho do Laudelino.

Os trastes estavam dentro do galpão, os bois no potreiro e a carreta não era a primeira tormenta que aguentava. Ele estava sequinho no boliche”.

O CAMPEIRO TIO REMIGIO

A exemplo de Blau Nunes, de João Simões Lopes Neto, também Ivan Pedro encontra e centraliza sua atenção em um antigo campeiro, “Tio Remígio”.

Em “Casas Acolheradas”, “Tio Remígio” é o narrador e o modelo referencial tomado pelo escritor para desenvolver sua obra. “Tio Remígio”, ao contrário de Blau Nunes que é congelado na obra de Simões Lopes, tem retratada sua vida na velhice em “Fronteira Agreste”, embora sob certa sobrevivência tranquila, a sombra da estância.

Depois é que foi examinado em processos anteriores ou paralelos de afastamento do centro das atenções, dando lugar a novos tipos e personagens, como ocorre em “Caminhos do Sul”, situado temporalmente antes da narrativa de “Fronteira Agreste”.

A juventude de “Remígio”, levando-o a compartilhar dos corredores com outros personagens, até o conhecimento dos desdobramentos da decadência vivida pela gauchada em “Casas Acolheradas”.

Observe-se que a “Tio Remígio”, como principal personagem referencial de “Fronteira Agreste”, se sucedem ou somam Maneco, peão exemplar, Geraldo, um negro capão, seu Guedes, peão marginalizado que anuncia a consciência em formação da rebeldia do gaúcho a pé e Miguelina, desejada pelos irmãos, filhos do dono da estância.

Além de Valderedo, este sim, retrato do antigo gaúcho épico, mas que, por isso mesmo, acaba eliminado violentamente, à traição pelo ronda Armando, justamente após aceitar sua proletarização através do emprego em uma estância.

O episódio se completa no capítulo seguinte, quando “Remígio” cede o principal lugar às figuras múltiplas de Chico Fonseca, que lhe arrebata a mulata “Candoca”, ao carreteiro João Cardoso, ao platino Manuel Garcia, outra figura rebelde assassinada a mando do dono da estância e ao negro “Rosica”, ladrão de gado que se acostumou a tal prática para sobreviver.

E de tal forma, que, mesmo quando encontra abrigo e garantia de alimentação, não deixa de roubar, porque, como afirmava: “roubado é mió”.

O painel continua com a figura do velho Ambrósio, contrabandista heroico, ao mesmo tempo em que novos tipos já se anunciam, à maneira de “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo, nas figuras do italiano Giuseppe, ou dos mascates Salim e Jamil. Mais do que tipos exóticos, anunciadores de novas etnias e novas ocupações a se fazerem presentes no chão do Rio Grande.

Enfim, em “Casas Acolheradas”, onde “Tio Remígio” ressurge esporadicamente, aqui e ali, e onde nas observações das figuras que desenvolvem as ações principais, ganham espaço as personagens negativas de Pedro Vinhas, Vaz, coronel Pontes, Olguinha, Mariazinha, etc.

Aparecem os ativistas sindicais urbanos, como José, Américo, Raimundo e até mesmo um estancieiro moderno, como é o caso do Pituca Gomes, capaz de entender a importância da industrialização, enfrentando, assim, a partir da terra natal, os avanços das multinacionais simbolizados pelos frigoríficos. Ou as ideologias retrógradas, como o nazi-fascismo e o caipira integralismo.

Sei que Ivan Pedro foi um escritor polêmico, que adquiriu uma legião de inimigos. Não vou fazer nenhum tipo de comentário favorável a respeito do que ele escreveu, nem contra. Até porque acho que um livro sempre retrata o pensamento do autor.

ESTÂNCIA COM NOME FICTÍCIO

Em “Fronteira Agreste” todos os personagens tinham nomes supostos. O doutor Camilo Mércio era o Coronel Tavares. Murilo, filho do doutor Camilo era Tonico no livro. E a “Estância Santa Cecília”, era “Estância Santa Eulália”.

A “Estância Santa Cecília” é uma das mais antigas do nosso município, à margem do rio Santa Maria, junto ao Passo de São Borja, no distrito de Batovi, hoje pertencente a Família Veríssimo.

O nome foi uma homenagem a Cecília Menna Barreto, filha de João Propicio Menna Barreto, Barão de São Gabriel. Pertenceu ao doutor Camilo Mércio, médico humanitário e chefe revolucionário nos anos 1930.

Mais tarde foi vendida ao senhor Clarindo Verissimo da Fonseca. Hoje, metade da estância pertence a Carlos Alberto Verissimo da Fonseca. A outra metade, denominada “Santa Adriana”, pertence a Hebe, casada com Milton Viera da Costa.

A antiga sede da estância foi desativada, tendo sido construída outra próxima do local. As duas propriedades dedicam-se à pecuária e a agricultura, utilizando moderna tecnologia.

Sei também que em “Fronteira Agreste” Ivan Pedro abordou temas enigmáticos, que até hoje são comentados pelos mais antigos.

É inegável que ele, mesmo não sendo natural do Rio Grande do Sul, tinha um conhecimento enorme de nossas coisas. Vejam só a profundidade e beleza deste trecho do livro:

Santa Eulália dorme. O gado espalhado pelo campo não faz ruído. À meia-noite, dizem os gaúchos, as reses se levantam, mugem, deitam do outro lado e dormem esperando a manhã. Já os cavalos são diferentes; os garanhões pastoreiam suas manadas e, no retouço noturno, trocam coices, mordidas e relinchos surdos, ou gemidos, devido aos golpes.

As éguas não se entregam de primeira mão. As ovelhas são silenciosas e o rebanho se move no campo como uma espessa nuvem branca, arrastando-se no chão; só se ouvem balidos, se um estranho aparece.

A noite nas coxilhas e banhados é dum silêncio profundo, e o alerta estridente dos quero-queros ou o sinal de alarme, grave, dos ta-hans, se perde no vazio da noite como o barulho de pedra caindo num poço: sem ressonâncias.

Só o minuano assobia raivoso, levantando a geada que cai e levando-a pelos ares como uma bofetada de gelo que racha os beiços, dói nos olhos e amarela os brotos novos das plantas. Se não fosse o vento, os campos iriam amanhecer cobertos de uma geada de renguear cusco e o frio agora penetra por todos os lados como um castigo.

QUESTÕES SOCIAIS

“Fronteira Agreste” mexe com questões sociais envolvendo os peões campeiros, que tinham salário fixo, normalmente vivendo nos galpões das estâncias, mantendo certa independência frente ao patrão.

Os mesmos tinham mobilidade e facilmente mudavam de emprego, por divergências, querendo acompanhar a tropeada, “embora submetidos ao comando dos estancieiros que os recrutavam para as batalhas em conflitos civis ou guerras externas”.

A morada desses peões em galpões é retratada por Ivan Pedro Martins, quando coloca que o galpão do fogo não é tão silencioso. Ali dormem os peões, aproveitando o calor da roda. É um rancho de torrão com paredes de uns dois metros de altura, coberto de santa-fé em quincha de escada.

“O vento entra por todos os lados fazendo tinir os arames e latas encontrados no caminho. Aquilo é a casa dos peões, se se pode chamar de casa um rancho sem portas onde moram o fogo, a fumaça, o vento e a poeira.

No canto escuro, onde não há brechas, está no chão o aro de ferro de uma velha roda de carreta – é a roda do fogo; dentro dela uma fogueirinha de tocos pequenos é o fogo, e, pendurada em um arame retorcido que pende de um caibro, fica a chaleira de mate.

Não há mais fogo nem se vê a chaleira. No meio do galpão fica um poste que serve de escora à cumeeira e ao caibro onde se penduram a lata d’água e os arreios. Encostadas à parede fechada, atrás da roda do fogo, ficam as camas da peonada. São de dois tipos; ou quatros estacas de forquilha, sustentando tábuas de esquilar, ou os arreios no chão mesmo. A arrumação, em cima das tábuas ou no chão, é a mesma.

QUEM ERA IVAN PEDRO

Ivan Pedro de Martins foi presidente nacional da juventude da Aliança Nacional Libertadora, em 1935. Após a Insurreição Comunista de novembro, tornou-se clandestino, sendo abrigado em uma fazenda de um amigo de seu pai, no interior do Rio Grande do Sul, que mais tarde se tornou seu sogro.

Dali surgiu a inspiração de seu romance, apresentando a estrutura socialmente injusta de uma fazenda de pecuária extensiva na região Oeste do Rio Grande do Sul.

O livro acabou sendo julgado ofensivo à moral e aos bons costumes da época, pelo diretor do Departamento Estadual de Imprensa, o artista-plástico Ângelo Guido, que expediu ordens para que as edições de “Fronteira Agreste” fossem apreendidas e proibida sua venda.

Em meio à discussão travada nos jornais entre os partidários e os contrários à censura, a intelectual Lila Ripoll, poeta de Quarai, se posicionou contra a apreensão da obra do escritor e militante comunista Ivan Pedro de Martins, que no entender dela não passava de um romance social sobre a vida na campanha gaúcha.

Além de “Fronteira Agreste”, “Caminhos do Sul” e “Casas Acolheradas”, Ivan Pedro ainda escreveu “Do campo e da cidade”, “A flecha e o alvo – A Intentona de 1935”, “Um amor depois do outro”, “Trilogia da campanha – O Rio Grande do Sul invisível”, “O amanhã e hoje”, “Introdução a economia brasileira”, “Bahia” e “Interno “.

MISTÉRIOS DE UM CASAMENTO

O casamento de Ivan Pedro com a filha do doutor Camilo Mércio não se sabe como começou e muito menos como acabou. Depois que saiu do Sul, Ivan Pedro foi casado com a jornalista paulista e escritora Elsie Lessa, falecida aos 86 anos em 17 de maio de 2000, em “Cascaes”, uma vila litorânea de Portugal. Ela era neta do escritor e gramático Júlio Ribeiro, membro da Academia Brasileira de Letras.

Elsie Lessa escreveu e publicou, sem interrupção, no jornal “O Globo”, de 1952 a 2000. Nenhum outro escritor teve um espaço por tanto tempo nas páginas do jornal.

Na juventude, embora natural de São Paulo, foi considerada uma das duas mais belas mulheres do Rio de Janeiro. A outra era Adalgisa Nery.

Se não observarmos outras questões, realmente “Fronteira Agreste” poderia ser visto assim, como um livro retratando o dia-a-dia de uma propriedade rural no Sul.

Poucos escritores, talvez só Alcides Maia, Simões Lopes, Érico Verissimo, Carlos Reverbel, Pedro Wayne, Aureliano de Figueiredo Pinto e Barbosa Lessa, puderam descrever tão bem o que era na verdade o Rio Grande do Sul rural. Sem enveredar, é claro, por possíveis distorções do autor as pessoas retratadas em sua obra.

Li o livro com atenção e sei que ele envolve pessoas de famílias que ainda hoje residem em São Gabriel. Por razões óbvias não cito nomes. Fora isso existem trechos lindos como este:

Na estância toda só se ouve o assobio do Minuano, que chia entre as folhas dos eucaliptos, torcendo-lhes os galhos, quebrando ramos secos e seguindo sua rota triste, contando, por onde passa, as histórias tenebrosas das geleiras dos Andes e as correrias pelos pampas do Sul.

A lua rola no alto engolindo as estrelas, parece que vai tapando os buracos na cuia velha do céu. Algum ta-han desperto por barulho desconhecido largou seu chamado sério de atenção e os quero-queros bochincheiros desandaram no berreiro nervoso de seus gritos.

Depois tudo volta à calma, até a cavalhada parece adormecida, e fica cantando no silêncio da noite o assobio raivoso do Minuano que leva a bofetada de gelo da geada por cima das árvores e dos homens. É o modo de respirar dessas noites nas coxilhas.

E segue. Santa Eulália é grande, tem galpão de material com a garagem para o auto, a aranha e a carroça, varanda de esquila, quarto de guardar milho e aveia, quarto de hóspedes e os quartos onde dormem o chofer, o negro velho “Tio Remígio” e “Manequinho”, o cozinheiro.

“Seu Duca”, sota da estância, dorme com Geraldo, o peão caseiro, no quarto que dá para a varanda da esquila e onde se guarda a carroça. Entre os dois galpões fica o aramado que cerca as casas e a borboleta de passagem.

Entre a casa grande e os galpões, deixando um pátio grande no meio, é a casa do capataz, que consta de um quarto assoalhado e uma sala de terra batida; do outro lado estão a despensa e a cozinha da peonada. Atrás, o forno do pão e o galinheiro, mais adiante, os chiqueiros vazios.

A OPINIÃO DO HISTORIADOR

Mais uma vez me vali do amigo e historiador Osório Santana Figueiredo, que tem uma visão sólida a respeito do livro “Fronteira Agreste” e de seu autor, Ivan Pedro de Martins.

Ele confirma que Ivan já morreu. Conta que se tratava de um intelectual comunista. Perseguido pela policia refugiou-se na estância Santa Cecília, do seu sogro, doutor Camilo Mércio, em Batovi. Embora a estância ficasse nos mesmos pagos do historiador, ele não o conheceu pessoalmente.

Na concepção de Osório o livro “Fronteira Agreste” é uma obra de injustiça. Os seus personagens pobres, muitos que ajudaram Ivan a se esconder nos matos, foram covardemente aleivados e arrasados por ele. Ainda existe na cidade gente descendente desses injustiçados.

Em consequência teve de fugir para Porto Alegre e depois para a França, porque havia muitas pessoas dispostas a matá-lo por ser difamador das criaturas humildes. Osório conviveu com esse povo, e quando leu o livro ficou com pena dessas pessoas e muita raiva do escritor.

Não podia compreender como que uma criatura poderia ter sido tão má. Desde essa ocasião, por ver tamanha injustiça, o nosso historiador pegou uma aversão pelo comunismo. O sogro e os cunhados de Ivan Pedro aparecem no livro com nomes supostos e as criaturas pobres que ali viviam, eram identificadas por seus próprios nomes.

Sabe-se que um dos protetores de Ivan, na época, foi o saudoso amigo, militar reformado e vereador, Lázaro Xarão, que sofreu na carne a ingratidão.

Ivan publicou uma notícia falsa envolvendo o pai de seu Lázaro, que não vale a pena repetir. Em consequência, o Lázaro buscou retratação, mas o escritor já havia fugido para longe de São Gabriel. (Pesquisa: Nilo Dias. Matéria publicada no jornal “O Fato”, de São Gabriel-RS, edição de 9 de Junho de 2017)

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Armazém Rangel: o antigo que resiste:

O Armazém do seu Ari Rangel fica na rua Barão de São Gabriel, antes dos trilhos. É a casa comercial mais antiga de São Gabriel, em atividade há quase 70 anos.

Ele está com 92 anos e muita vitalidade para trabalhar. O armazém tem de tudo, a variedade é imensa. A Casa não tem letreiros, nem precisa. Todos sabem que ali está o seu Ari Rangel, figura carismática de nossa cidade.

A freguesia é fiel. O atendimento cortes é marca da casa. Armazém Rangel, um lugar de muita história. Muito frequentei essa casa comercial, nos bons tempos que morei em São Gabriel. (Fotos e histórico de Rhê Cor, publicado na página de Beraldo Lopes Figueiredo, Facebook)







sexta-feira, 2 de junho de 2017

Lembrando um velho gaúcho

Essa foto foi postada pelo amigo Júlio César Ferreira, em sua página no Facebook. Lembrança de seu avô materno, com certeza um gaúcho autentico. Bonita lembrança.