quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Fernandez: um trem mudou sua vida

*O descarrilamento da máquina que puxava o trem de passageiros em que viajava o cidadão uruguaio Frederico Humberto Fernandez Branca, acabou sendo responsável pela permanência em São Gabriel, daquele que se consagraria como um dos melhores goleiros que nosso futebol conheceu em todos os tempos. Fernandez, ou simplesmente “Castelhano”, como era conhecido pelos mais íntimos, vinha de Livramento, emprestado pelo Grêmio Santanense ao Aimoré de São Leopoldo.

O acidente obrigou Fernandez a ficar na cidade, até que a Viação Férrea Rio-Grandense providenciasse outro comboio. Para passar o tempo, Fernandez foi dar uma volta pela cidade, e acabou reconhecido por um torcedor do Cruzeiro local, o motorista de táxi, Parente.

De imediato, os dirigentes do estrelado, Helvécio Prates, Vicente Astarita e Sílvio de Faria Corrêa, alertados por Parente, localizaram Fernandez e o convenceram a ficar. Um avião foi fretado para uma viagem a São Leopoldo, onde foi conseguida a liberação, junto ao Aimoré.

O imprevisto foi quem proporcionou a Fernandez a chance de jogar no E.C Cruzeiro, na época um time respeitado em todo o interior do Estado. Foi no áureo-cerúleo que conheceu os melhores momentos de sua carreira. Recorda de jogos inesquecíveis, como nas vitórias diante do E.C. 14 de Julho, de Livramento, que tinha uma equipe poderosa e fazia jus ao cognome de “Leão da Fronteira”.

De confrontos importantes com o Cachoeira, o Uruguaiana, as equipes de Bagé, Pelotas e Rio Grande e, principalmente, os clássicos locais frente o G.E Gabrielense. Recorda com saudade os jogos frente o Grêmio Portoalegrense, pelo campeonato estadual, quando teve a oportunidade de atuar contra craques da envergadura de Airtom, Juarez, Miltom, Ortunho, Henrique, entre outros. Fernandez teve atuações destacadas nessas partidas, fazendo com que o Internacional, de Porto Alegre, Metropol, de Criciúma e Palmeiras, de São Paulo disputassem sua contratação.

Apesar de convites tão honrosos, Fernandez preferiu permanecer em São Gabriel, recordando que o Cruzeiro também possuía em seu grupo extraordinários jogadores, como Camejo, Velho, Pipoca, Lacerda, Zezo e Caboclo. É verdade que o futebol na época não acenava com as vantagens financeiras de hoje. Os clubes ofereciam um emprego, um dinheirinho na assinatura de contrato e “bichinhos” nas vitórias. Apesar disso, os jogadores entravam em campo com muita disposição e suavam a camiseta.

A carreira de Fernandez como jogador de futebol, começou por volta de 1948 quando tinha apenas 14 anos de idade, na equipe do Laureles, de Fray Bentos, no interior da República Oriental do Uruguai, cidade onde nasceu no dia 24 de agosto de 1934. A primeira posição de Fernandez foi a lateral esquerda, onde não conseguiu convencer o técnico Geóvio (pai do ex-goleiro do Brasil, de Pelotas, George Geóvio, já falecido), até porque estava muito gordo, e fora de forma. Em vista disso, foi treinar como goleiro e ganhou de imediato a posição de titular.

O sucesso foi tão grande que alguns clubes uruguaios passaram a observá-lo. Escolheu o C.A. Peñarol, de Montevidéu, onde permaneceu pelo período de 1 ano e 6 meses, na categoria juvenil. Depois, jogou pelo River Plate, também de Montevidéu, onde ficou pouco tempo, sendo contratado pelo Velez Sarsfield, da Argentina. Após oito meses, retornou à capital uruguaia, onde disputou posição com dois extraordinários goleiros, Maidana e Dimitrio, ambos da seleção de seu país.

Como as chances de chegar a equipe de cima eram poucas, foi emprestado para a seleção de Paso de los Toros. Sua fama chegou ao Brasil, e acabou contratado pelo Grêmio Santanense, onde se sagrou campeão do centenário, em 1957.

Fernandez viu e participou de muitas situações inusitadas em sua longa carreira. Recorda de uma viagem com a seleção do interior do Uruguai, em hidroavião, até a cidade de Salto. O aparelho não conseguia amerissar (pousar em água), o que deixou o grupo de jogadores em pânico. Após várias tentativas, finalmente o pouso nas águas turvas do Rio Negro.

Em São Gabriel, lembra que no G.E Gabrielense havia um diretor de nome João da Luz, que certa ocasião deu tremendo susto no técnico do Cruzeiro, Luiz Alberto Vives. O Cruzeiro queria treinar no estádio, mas a chave estava com João da Luz, que se negava a entregá-la. Dom Vives resolveu ir para a briga, mas foi desencorajado depois que o dirigente do Gabrielense sacou de um tremendo revólver. Vives, para não ser ferido teve que correr em volta do estádio.

Observação: Frederico Humberto Fernandez Branca, 57 anos de idade, casado com Dona Maria Cléia Gomes Fernandez, pai de quatro filhos, aposentou-se como funcionário do Clube Caixeiral.  Foi uma das maiores glórias do futebol gabrielense. Faleceu em 2001. (Artigo de Nilo Dias - Publicado no “Jornal do Município”, primeira quinzena de novembro de 1991)

Fernandez. (Foto: Arquivo de Nilo Dias)

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