domingo, 10 de janeiro de 2016

A “Toca” é cultura

O “Bar A Toca”, do Marciano Bastos, localizado frente à Prefeitura Municipal é uma das casas mais tradicionais da cidade. Não sei ao certo quanto tempo de funcionamento tem, mas certamente anda em volta de 40 ou 50 anos. Cheguei em São Gabriel em 1983 e saí da cidade em 1999. Estou há 16 anos em Brasília. Passaram-se, só aí, 32 anos. E “A Toca” já existia.

Com certeza o Marciano deve ter me falado de quando deixou Bagé, sua terra natal e veio para São Gabriel. Chegou, se aquerenciou e ficou, constituindo família, casando com a professora dona Carmem, com quem tem uma linda filha, que peço perdão por haver esquecido o nome.

Marciano tem uma afeição muito grande pela Vila Maria, onde morou por muitos anos. Por essa razão é fiel torcedor da “Escola de Samba Vai Mesmo”, digna e popular representante da localidade no Carnaval de rua de São Gabriel.

A “Vai Mesmo” dos saudosos amigos Domingos Rivas, Benhur, que foi zelador do estádio Silvio de Faria Corrêa por longos anos e Gabriel Alves Pereira, entre tantos outros abnegados carnavalescos que a memória já gasta pelos 74 anos de idade não permite lembrar.

Sou eternamente grato ao Marciano. Ele quase não ia aos jogos da SER São Gabriel, quando eu presidia o clube, pois reservava o domingo para descanso e estar junto dos familiares. Mas nunca negou apoio e auxilio financeiro. Marciano gosta de futebol. É torcedor do S.C. Internacional.

O “Bar a Toca”, é um local democrático, de tantas e tantas discussões, onde os frequentadores tratam de política, religião, futebol e qualquer coisa, sem que por isso haja briga. Local frequentado pela turma das rádios e jornais da cidade, funcionários da Prefeitura, vereadores e profissionais liberais.

Lembro que o saudoso amigo, advogado doutor Francisco Marciano Ferrer, com toda a sua inegável sabedoria dizia que “A Toca é cultura”. Verdade absoluta. Basta ver alguns de seus clientes, além do próprio doutor Ferrer:

Doutores Biage, Dagoberto Focaccia, Domingos Rivas (falecido), Plauto Pereira (falecido), José Antônio Macedo e Charlesmagne Neme (falecido), brilhantes advogados gabrielenses; Bereci da Rocha Macedo, economista renomado e articulista político respeitado; João Alfredo Reverbel Bento Pereira, jurista aposentado e empresário rural; Guido Ávila, do “Jornal da Cidade”; o amigo Zeca do Sindicato Rural (o “Butiá” é maldade); o saudoso Eraldo, aposentado do Posto de Saúde e suas histórias incríveis (já falecido); Luiz Porciuncula, o “Popô, de saudosa memória; Clóvis Moure, o popular ”Sete Vacas”; Bebeto, carnavalesco de escol e funcionário da Prefeitura Municipal; o saudoso Toninho do açougue, fanático torcedor do Internacional; o “Gaitinha”, figura popular da cidade; José Geraldo Bisogno, funcionário do Sindicato Rural; o jovem Lincoln Bento Pereira, filho do gabrielense João Tito Bento Pereira; José Amiltom Paixão de Mello, o “Sapinho”, um dos melhores jogadores que o futebol de São Gabriel conheceu em todos os tempos; Homero Moura, funcionário municipal aposentado, de saudosa memória. Foi uma verdadeira legenda do bar; Outro que nos deixou faz tempo foi o taxista Antônio Luiz; Nelson Martins Miralha, lateral da SER São Gabriel; Luiz Antônio Pereira Lopes, o popular “Bocha”; o competente fotógrafo José Carlos Conceição; Luiz Fernando Mendes, o “famoso” Curitiba; o conhecido e saudoso radialista Glauco Fernando de León Vezzani; José Lucca, político, esportista, carnavalesco e sindicalista, entre outras atividades. O sempre lembrado Carlos Alberto Moreira, que alegrava as tardes do bar “A Toca” com seu violão e voz, em improvisos sempre bem humorados. O também saudoso Luiz Carlos Bastianello, funcionário da Justiça e amigo de todas as horas.

Sobre Cláudio Castro o homem da TV Rio Grande, que tive o prazer de trazer de Rio Grande para a nossa cidade ao início dos anos 80, conto o ocorrido no Restaurante do Clube Caixeiral. O Geraldo Bisogno, do Sindicato Rural que me acompanhava falou bem baixinho ao meu ouvido: “O Cláudio Castro está repetindo a sobremesa!!!”.

O “Montanha”, um dos grandes impulsionadores do glorioso Independente F.C.;  José Ritta, bajeense que de brincadeira eu chamava de “carma do Marciano”; os saudosos carnavalesco Carlinhos Rangel, fundador do Bloco da Geni e Anastácio Paulo Gama, o “Tacho”, eterno massagista da SER São Gabriel e meu inesquecível companheiro de pescarias. E tantos outros, que peço desculpas por não nominar. Cabeça de velho é sujeita a esquecimentos.

O doutor Ferrer, alguns meses antes de falecer, morando em Caxias do Sul, me enviou uma carta que guardo até hoje como uma verdadeira relíquia, em que falava dos seus tempos de São Gabriel e do bar “A Toca”. Ele dizia do grande afeto que tinha pelo Marciano Bastos. E comparava o bar a um verdadeiro zoológico.

Isso, porque na época alguns clientes eram conhecidos apenas por apelidos e quase formavam uma lista de “jogo do bicho”. Alguns já morreram, outros não, mas confesso que nunca mais soube nada deles. Lembro que tinha “Gato”, “Pinto”, “Bagre”, “Sabiá”, “Zebra” e “Rato“.

Os jantares na “Toca” foram famosos. Cozinheiros improvisados mostravam suas aptidões no preparo de pratos os mais diversos e deliciosos. Verdadeiros “chefs” de cozinha. Eu mesmo fui cozinheiro por diversas vezes. Também o Zé Lucca, o “Tacho” e tantos outros. 

Muitos nomes famosos passaram pela “Toca”. Os prefeitos Erasmo Chiappetta, Balbo Teixeira, Rossano Gonçalves, doutor Eglon Meyer Corrêa, o governador Alceu Collares, conterrâneo e amigo de Marciano. O ex-jogador “Flávio Minuano”, que treinou a SER São Gabriel. O cantor regionalista “Gaúcho da Fronteira”, entre outros.

Toda a vez que visito São Gabriel guardo um tempo para ir até a “A Toca” rever o amigo Marciano e matar a saudade dos tempos em que era um fiel cliente. Sei que qualquer dia desses o Marciano vai se aposentar. Ele me falou. E quando isso acontecer, certamente vai se abrir uma lacuna difícil de ser preenchida. A cidade vai ficar “culturalmente” mais pobre. (Nilo Dias - Matéria publicada no jornal "O Fato", da amiga Ana Rita Focaccia)

Nilo Dias e Marciano Bastos, quando do lançamento do livro "100 anos de futebol em São Gabriel.

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