domingo, 29 de maio de 2016

As charqueadas de São Gabriel

São Gabriel teve seis charqueadas funcionando ao mesmo tempo. Elas tomaram forças graças à malha ferroviária que passara a ser na época a única via de aproximação. Cabe lembrar, contudo que em 1.841, por decisão de Bento Gonçalves, foi instalado em campo aberto na Freguesia de São Gabriel, um matadouro de emergência (charqueada a campo aberto) para vender charque para o Uruguai, arrecadando fundos para a revolução.

CHARQUEADA VACACAÍ - A primeira de São Gabriel, localizada a 12 km da sede do município. Localizada a margem direita do Rio Vacacaí, teve como fundador Manoel Patrício de Azambuja e Filhos, ele pai de Fábio Azambuja, engenheiro responsável pela construção da mesma, fundada no ano de 1.885.

O ano de fundação foi escolhido para coincidir com a chegada da estrada de ferro, que atrasou por conseqüência da Revolução Federalista de 1.853. No início, sem a estrada de ferro, a charqueada usava como meio de transporte a carreta. Em 1.918 a Charqueada foi adquirida pela firma José Antônio Martins (Filho) que passou a assumir a firma e arrendou três estâncias: a da Barra, do Pavão e do Jacques.

COMPLEXO INDUSTRIAL DA FIRMA MARTINS - Essa empresa era poderosa por grandes extensões de campo. Com um grande planejamento, tirou o máximo rendimento das terras. Assim o agrônomo Retamal Andes cultivou mudas de eucaliptos, que hoje são famosas florestas de produção permanente no Waick e Ferrugem. 

Desenvolveu criação de suínos, produzindo carne, charque, banha, toucinho e outros derivados, também plantou arroz, milho e feijão e mais um milhão de pés de mandioca para o preparo da farinha, polvilho e outros.

COOPERATIVA RURAL GABRIELENSE E A CHARQUEADA DO VACACAÍ - A Cooperativa Rural Gabrielense comprou em 1.936 a Charqueada do Vacacaí, conhecida como Charqueada Velha. Exigiu reformas internas e externas.

A Charqueada do Vacacaí viveu um grande progresso, vencendo crises de oscilação dos preços do gado. Por envelhecimento de suas instalações, transformou-se mais tarde na Indústria da Frigorificação de Carne Gabrielense. Em 1.957 encerrava suas atividades, realizando as últimas matanças.

Suas dependências foram demolidas, casas, galpões e a povoação do local, tudo desapareceu, no local restaram apenas ruínas. Mantém-se ainda a velha chaminé, considerada hoje como excelente fotografia para cartão postal, antecede ao Balneário do Pedroso.

CHARQUEADA SANTA BRÍGIDA - O jornalista Fileto da Cunha Ramos escreveu um minucioso trabalho em 1898 publicado no Anuário do Rio Grande do Sul em 1.889. Ele cita a existência de três charqueadas em São Gabriel (Correio do Povo - 15.05.1.977, Mário Gardelin).

Todas as charqueadas do interior foram tributárias da estrada de ferro. O jornalista destaca “Charqueadas do Vacacaí, do Trilha, localizada após o Balneário do Passo do Pinto e a de Azevedo Sodré. A Charqueada do Trilha possuía uma industrialização diversificada com o aproveitamento do couro”.

Em 1.912 seu proprietário Augusto Nogueira firmou sociedade com Boaventura Ferreira da Silva. Em 1.914 desfizeram a sociedade. Boaventura adquiriu a charqueada até 1.934, quando admitiu como sócios os seus filhos e denominou-a Boaventura Ferreira da Silva e Cia.

O nome da Charqueada - Na década de 40 encerrou suas atividades com a falência dos proprietários. Boaventura Ferreira da Silva era casado com Brígida Cironi Ferreira da Silva, com seu falecimento, foi dado a Charqueada e a Estação Rodoviária o nome de Santa Brígida.
Em 1.932 a família de Boaventura da Silva mandou inaugurar uma capela para receber a imagem da Santa Padroeira.

CHARQUEADA DO AZEVEDO SODRÉ - Essa charqueada já existia no ano de 1.898. Quando foi fundada a charqueada só existia no local a Estação Ferroviária. Foi construída por Ramão Lopes da Rosa, considerado na época um homem humanitário. Era chamado de Dr. Ramão.

Depois de enfrentar muitas dificuldades econômicas, Ramão teve de vendê-la a Antônio Cândido da Silveira (Tunuca Silveira) que viveu excelente momento econômico chegando ao auge de produção.

A crise de 1.929 fez com que a Charqueada do Azevedo Sodré entrasse em colapso, chegando em 1.935 a ser Cooperativa Rural Gabrielense. Encerrou suas atividades em 1.940. Da velha charqueada restaram apenas vestígios, hoje quase desaparecidos.

CHARQUEADA SANTO ANTÔNIO - Era a charqueada mais nova de São Gabriel. Seu grande criador e charqueador, Antônio Coimbra Gonçalves, juntamente com Fernando Gonçalves, Egídio Brenner e José Franco (Zeca Franco) fundaram a firma Antônio Coimbra Gonçalves. Com o afastamento dos demais sócios, assumiram a Charqueada Coimbra e seu filho Fernando, até 1.941 quando fechou suas portas.

A Charqueada iniciou suas atividades em 1.929. Coimbra possuía a mística dos negócios, segundo contam, nunca foi surpreendido com crises que abalaram fortunas na industrialização do charque. Assim fez-se forte criador de gado tendo adquirido as Estâncias Santa Cruz, Tiaraju e Estância Velha. Tendo dado inclusive sinal em dinheiro para compra da Estância da Barra.

Sua povoação ainda existe. É sede distrital, (Tiaraju) é o único povoado das principais charqueadas gabrielenses que não pereceu. Na época devido à idéia empreendedora de Antônio Coimbra Gonçalves, foi construída a escola e a capela que ainda hoje existem no Tiaraju.

Hoje ainda restam vestígios da velha charqueada, no Distrito, naturalmente perto da velha estação férrea da localidade. No início a estação era chamada de Bela Vista. Em 1.935 passou a chamar-se Tiaraju.
A CHARQUEADA SÃO GABRIEL - Foi uma das menores charqueada gabrielense. Nasceram da tradicional família Manoel Bicca Filho (Polaco) e José Rodrigues Barbosa Bicca (Dodigo). Foi constituída no local onde antes havia matadouro público que abastecia o município. Ficava próximo ao Rio Vacacaí, no alto de uma coxilha, onde hoje se localiza a Estação de Tratamento da CORSAN. 

Era a única distante da Estrada de Ferro. Os galpões do matadouro foram aproveitados para a construção da charqueada. O saladeiro era de pequeno porte. A cancha de carneação apenas para seis animais, enquanto as outras comportavam 30 a 40 animais. O povo a chamava de “Charqueadinha do Dodigo”.

Abaixo da Charqueda existia uma fábrica de sabão a vapor, era chamada de saboeira e aproveitava a gordura das reses abatidas. Foi erguida no ano de 1.924.

Da charqueadinha existem apenas vestígios e lembranças marcados por ruínas soterrados pelo tempo em meios aos matos da Vila Maria.

O FIM DOS CICLOS DAS CHARQUEADAS - As charqueadas entraram em declínio depois de mais de 250 anos. A causa principal no contexto gabrielense foi o advento dos frigoríficos a partir de 1.910. Naturalmente fizeram à história, como ciclo fundamental a participação na histórica econômica e social do município.

Em relação ao fim do ciclo das charqueadas é importante ressaltar a falta de associativismo dos proprietários na época, motivo pela qual, organizações européias começaram a comprar gado a preço mais alto que as charqueadas podiam pagar, motivo pela qual também começaram a sucumbir.

DA CHARQUEADA AO COORIVA - Das seis charqueadas existentes na época somente a do Vacacaí sobreviveu, primeiro pela união de forças que criaram a Cooperativa Rural Gabrielense, transformando-se mais tarde em Frigorífico Santa Brígida, que encerrou suas atividades em 1.991. O Patrimônio veio a ser destruído mais tarde.

Recuperado totalmente por um grupo de empresários, foi inaugurada no mesmo local a Cooperativa de Derivados Rio Vacacaí - Cooriva - Frigorífico. Com apoio da Administração Municipal recebendo incentivo para funcionamento em 2.001.

Curiosidade - Nas proximidades de cada charqueada eram construídos cemitérios, onde eram enterrados os funcionários e familiares de proprietários. Alguns proprietários de charqueadas tornaram-se mais tarde fazendeiros, por isso os cemitérios também eram construídos perto das Estâncias, pois não haviam devido às distâncias, cemitérios comunitários. (Fonte: Prefeitura Municipal de São Gabriel-RS)

Charqueada do Vacacai, em 1948.

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