terça-feira, 15 de novembro de 2016

A Revolução dos horrores (Final)

O livro “Voluntários do Martírio”, publicado em 1896 por Ângelo Dourado, médico da força revolucionária é um verdadeiro clássico sobre o assunto, um valioso documento sobre as forças de Gumercindo Saraiva.

Foi ele que prestou socorro aos feridos no “Pulador”, em que calcula em 1.500 homens a força “maragata”, 800 dos quais lanceiros comandados por Prestes Guimarães, de Passo Fundo, e em 3 mil os combatentes “pica-paus”, distribuídos em três quadrados de infantaria, com mil guerreiros cada.

O general Prestes Guimarães, além de advogado, foi um dos grandes líderes da região, estando à frente inclusive da Revolução Federalista. Segundo o historiador e diretor do Instituto Histórico de Passo Fundo, Fernando Miranda, havia uma rixa entre Prestes Guimarães e o então coronel Chicuta, herói da guerra do Paraguai.

O historiador conta ainda que, por volta de 1892 a briga entre os dois teve início devido a um ser favorável a República da época e o outro contrário. A rivalidade dos dois marcou a história de Passo Fundo, sendo que hoje, Coronel Chicuta se tornou nome de uma das principais ruas da cidade. Já Prestes Guimarães, se tornou nome de uma escola do município.

Ângelo Cardoso Dourado nasceu em Salvador (BA), a 6 de outubro de 1856, e faleceu na cidade gaúcha de Rio Grande, a 23 de outubro de 1905.

Formado pela Faculdade de Medicina da Bahia, em 1880, prestou serviços médicos ao Exército, vindo a deslocar-se para o Rio Grande do Sul e exercendo sua profissão na cidade de Bagé, onde manteve sua família e atingiu projeção política, chegando a ser presidente da Junta Administrativa em 1890. Participou ativamente do movimento rebelde que sacudiu o Sul do Brasil à época da formação republicana.

Adepto dos revolucionários federalistas, Ângelo Dourado emigrou para Melo, no Uruguai, onde também exerceu a Medicina, e foi nomeado coronel do “Exército Libertador”, como se autodenominavam as forças rebeladas, percorrendo as terras do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, com as tropas do chefe maragato Gumercindo Saraiva em suas empreitadas contra as forças governistas.

Encerrada a revolta, permaneceu em terras rio-grandenses e exerceu a Medicina em várias localidades gaúchas, como na cidade de Rio Grande, na qual foi médico oculista.

Após atravessar o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, com mais de cinco mil homens, e ameaçar Curitiba, Gumercindo retornou ao Rio Grande do Sul com um exército reduzido e esfarrapado.

Realizava uma das maiores façanhas militares da história do Brasil, comparável à “Retirada de Laguna”, durante a guerra contra o Paraguai, alguns anos antes, e à “Coluna Prestes”, três décadas depois.

No lugar denominado “Tope”, os revolucionários receberam o comunicado do coronel Veríssimo de que continuava no Passo Fundo, tendo sepultado os seus mortos. Ele calculou o número de cadáveres deixado pelo inimigo em 800, não podendo se saber ao certo, porque muitos estavam confundidos com os dos inimigos.

O POTREIRO DAS ALMAS

A prática da degola dos prisioneiros não foi rara em ambos os lados contendores, adquirindo o caráter revanchista. Por muito tempo foi atribuído ao coronel maragato Adão Latorre a degola de 300 "Pica-paus" prisioneiros, às margens do Rio Negro, contidos em um cercado (mangueira de pedra) para gado, que ficou conhecido como “Potreiro das Almas” nas cercanias de Bagé, hoje em território do município de Hulha Negra, em 23 de Novembro de 1893, após a "Batalha do Rio Negro".

O fato, porém, é desmentido por vários documentos históricos, como o "Diário" do general Maragato João Nunes da Silva Tavares, que refere o número de 300 como sendo as baixas totais do inimigo, entre mortos em combate e feridos.

O general afirmou que o número de degolados foi de 23 "patriotas", membros das forças provisórias castilhistas, assassinos conhecidos em todo o Estado, pelas tropelias cometidas contra os Federalistas, particularmente no saque a Bagé no final de 1892 pelas forças dos coronéis castilhistas Pedroso e Motta.

Correm histórias em Bagé, que a noite, no “Potreiro das Almas”, os corajosos que se atrevem a ir até lá, conseguem escutar os lamentos dos degolados.

Em 1993, "Centenário da Revolução Federalista", a Urcamp Bagé, através do professor, pesquisador e historiador doutor Tarcísio Antônio da Costa Taborda, realizou um conclave em comemoração a data, quando anunciou que Adão Latorre era um tenente-coronel do Exército Uruguaio e que atuava como mercenário na dita revolução.

Já no ano 2004 membros do "Núcleo de Pesquisas Históricas de Bagé", visitaram o túmulo de “Chico Diabo” (na Guardinha) e logo a seguir o de Adão Latorre (cemitério de Santa Tecla) aproximadamente a oito quilômetros de Bagé.

José Francisco Lacerda, vulgo “Chico Diabo”, nasceu em Camaquã, no ano de 1848 e morreu em Cerro Largo, no ano de 1893. Foi um militar (cabo) brasileiro que lutou na "Guerra do Paraguai" e ficou famoso por ter matado o ditador paraguaio Francisco Solano López, na "Batalha de Cerro Corá", ocorrida em 1º de março de 1870.

"Chico Diabo" nasceu numa família de poucos recursos e, ainda menino, empregou-se na carniçaria de propriedade de um italiano, em São Lourenço do Sul, município vizinho à Camaquã, sua terra natal. Nesta carniçaria fabricava produtos como charque, linguiça e salame.

Em 1863, quando contava apenas 15 anos, Chico descuidou-se da vigilância e um cão entrou no recinto onde estava guardada a carne, devorando alguns pedaços. Ao tomar conhecimento do ocorrido pelo próprio Chico, o italiano passou a agredi-lo.

O menino tomou de uma faca usada no seu trabalho e matou seu patrão. De imediato, fugiu a pé para a casa de seus pais, onde chegou na manhã do dia seguinte, portanto caminhando um dia e uma noite sem parar para descanso.

Ao ver um vulto, ao longe, a mãe de Chico exclamou: “Garanto que é aquele diabinho que vem vindo”. Por causa desta frase, ganhou o apelido de “Chico Diabo” que o acompanhou pelo resto da vida.

Os pesquisadores aproveitaram para conhecer o local onde moravam os pais de Adão Latorre, no lugar conhecido como “Rodeio Colorado”. Sabe-se que o coronel Manoel Pedroso depois de atear fogo na "Estância do Limoeiro" cruzou pelos “Olhos D’Água” e a poucos quilômetros, próximo a Encruzilhada, degolou os pais de Adão Latorre e ateou fogo no seu rancho.

Por esse motivo é que Adão Latorre se apresentou como voluntário aos revolucionários com o intuito de vingar o assassinato de seus pais por Manoel Pedroso, o que aconteceu com a sua degola.

Contam que Pedroso, antes de morrer, pediu a Adão que entregasse um anel de seu uso a uma filha residente em Pelotas, o que foi feito pelo degolador. Passaram-se anos e segundo as pessoas que conviveram com Adão, este era um cidadão de paz, amigo e servidor.

Pedro Antônio de Souza Neto, o “Tio Pedro”, ferreiro do antigo 12º RC, hoje “3º Batalhão Logístico Presidente Médici”, contou que no ano de 1923, com a patente de 3º sargento do Exército, foi designado a integrar um pelotão para fazer o translado do corpo de Adão Latorre, do "Passo da Maria Chica" (Ferraria, Dom Pedrito) para Bagé, onde foi sepultado no cemitério de Santa Tecla onde se encontra até hoje, juntamente com seu irmão, o major João Latorre.

Segundo informações, Adão Latorre foi fuzilado pelos capangas do major Antero Pedroso irmão de Manoel Pedroso em uma emboscada. Pedro Antônio de Souza Neto desempenhou suas funções no "3º Batalhão Logístico", até os 90 anos de idade, vindo a falecer com toda a sua lucidez, aos 93 anos.

Ele tinha dois filhos com sua primeira companheira, Maria Francisca Nunes, João Latorre e Nicamoza Latorre, ambos uruguaios. Deixou oito braças de sesmaria e a casa onde morava para Josefina Machado, sua segunda companheira.

A FACA DE ADÃO LATORRE

Adão Latorre foi contemplado com uma composição musical de autoria de Moisés Silveira de Menezes, intitulada “A faca de Adão Latorre”:

A faca, lâmina, cabo/ferro e pau-ferro fundidos/a faca parte, reparte/corta, perfura, ponteia/passa, perpassa, transpassa./A faca fere se é fera/o mando que ergue a mão/garra tenaz que a sustenta/fera feroz fere a faca/por isso ferro com fio/fio de vida, fio de morte/vida fugaz, fio da faca.

A faca de Adão Latorre/é faca na mão de negro/negro acuado, negro fera/negro ferido de açoite/tronco amarrado no tronco/marcas de algemas nas mãos/correntes nos pés descalços./Tem olhos negros a faca /olhos de medo, assustados/noite nos olhos a faca/olhos de vida fugindo/pelo fio fino da faca.

A faca de Adão Latorre/traz marcas, marcas doridas/canaviais, minas, senzalas/África, banzo, savana/revoltos mares bravios/porão cheio, porão sujo/úmido, fétido, impuro./Grilhões arrastando gente/ao rumo desconhecido/leilão, chicote, trabalho,/não cantavam tribos negras:/"Mérica, mérica, mérica".

A faca de Adão Latorre/é faca rumo à garganta/do branco que tem o mando;/dono de tudo e de todos,/senhor de terras e almas./É faca do oprimido/a mando de outro opressor/cumpre ordens negro velho/brancas ordens, ordens sujas/vai pra história negro Adão/bandido, degolador/feroz de faca na mão.

Um grande rio o Rio Grande/o Rio Negro rubro vivo,/rio de sangue/negro ingrato,/anjo sinistro da morte./A vida no fio da faca/vertendo sangue de irmãos,/irmãos de distintos lenços./Guilhotina em movimento/estranho açougue de gente,/pergunta que não se cala:/A quem vingava Latorre/feroz de faca na mão?

Pedroso, o coronel branco/porque preso, presa fácil/negaceia, regateia/pensa até que a vida vale/vida de homem de bem/vida de homem valente/Vida opressora não vale/na mão de negro oprimido,/mas o mando é sempre branco,/no final, manda Pedroso:/"Então degola, degola/negro filho de uma puta."

A faca de Adão Latorre/cortou bem forte e bem fundo/a carne viva da história./Inconsciente, rude e feia/a cicatriz do Rio Negro/desnuda a casta social/brandindo a lâmina crua/sangrando vidas e vozes./Mas a pergunta não cala:/Cumprindo ordens de branco/a quem vingava Latorre/feroz de faca na mão?

O COMBATE DO BOI PRETO

Em 5 de Abril no “Combate do Boi Preto” houve a degola de 250 maragatos em represália à “Degola do Rio Negro”. O pica-pau “Cherengue” ou “Xerengue” rivalizou com Latorre em número de degolas praticadas. Seu apelido, em linguagem popular, queria dizer faca ordinária.

O “Cherengue” ou “Xerengue” deu lugar a uma poesia feita por um poeta jornalista e que apareceu em “O Canabarro”, em 1903. Tratava-se de uma das costumeiras bicadas do jornal.

Já que pedem, cedo/Por hoje esta bicada;/Mas confesso tenho medo/Do João Francisco e Brigada/Xerengue não é brinquedo/Bicar assim corro risco/Por tanto confesso medo/Da Brigada e João Francisco.

Muitas vezes a degola era praticada em meio a zombarias e humilhações. Embora não com frequência, poderia ser antecedida por castração. Conta-se, por exemplo, que apostas eram feitas em corridas de degolados.

Na degola convencional a vítima, ajoelhada, tinha as pernas e mãos amarradas, a cabeça estendida para trás e a faca era passada de orelha a orelha, como se degolasse uma ovelha, rotina nas lides do campo.

Os ressentimentos acumulados, as desavenças pessoais, somados ao caráter rude do homem da campanha acostumado a sacrificar o gado, tentam explicar estes atos de selvageria.

Do ponto de vista militar e logístico a degola decorria da incapacidade das forças em combate de fazer prisioneiros, mantê-los encarcerados e alimentá-los, pois, ambas lutavam em situação de grande penúria. Procurava-se, pelo mesmo motivo, poupar munição empregando um meio rápido de execução.

Durante a Revolução de 1893, o município de Cruz Alta foi apelidado de "Ninho dos Pica-paus", sendo um dos mais importantes palcos dos acontecimentos, e também o lugar onde a prática da degola neste período foi mais intensa.

Cruz Alta foi atacada em 26 de agosto de 1894 pelas tropas maragatas sob o comando de Aparício Saraiva, irmão de Gumercindo Saraiva (morto dias antes em Carovi, perto de Santiago), com aproximadamente 1.500 homens. A cidade foi atacada por oito horas sem tréguas.

A HIENA DO CATY

No "Combate de Campo Osório", a 24 de junho de 1895, episódio final da revolução federalista e onde foi morto a golpe de lança o almirante Luis Felipe Saldanha da Gama pelos cavalarianos gaúchos da força de provisórios, sob o comando do coronel João Francisco Pereira de Sousa, denominado por Flores da Cunha a "Hiena do Caty", foram degolados dois guardas marinhas das hostes do malogrado almirante.

Com os prisioneiros contidos e deitados, o cabo degolador do coronel João Francisco debruçou-se sobre eles suspendendo com o pé direito a cabeça das vitimas. Com a mão esquerda conteve a respiração, colocando os dedos nas fossas nasais e a palma da mão sobre a boca do rapaz.

As veias do pescoço ressaltadas e entumecidas, neste momento a mão direita enterrava a lâmina da faca logo abaixo do queixo num vai e vem. A degola se consumara.

Este relato consta de uma carta de testemunha ocular do episódio e se encontra no arquivo do historiador gaúcho Alfredo Jacques, através do seu "Dom Ramon", no livro "Os Provisórios”.

E explica: "Degolar não era tão fácil como parecia. Requeria ciência. O gaúcho velho explicava minucias, ensinava processos e concluía: "Hay dos maneras de degolar um cristiano, a la brasilera (dois talhinhos seccionando as carótidas, a la criolla (de orelha a orelha).

Esses processos de degolamento, utilizados em nossas lutas revolucionárias, constituem um ato que desmente todo o tradicional no gauchismo, pois reflete terrível covardia: matar um adversário contido, amarrado, já vencido e muitas vezes ferido.

Inúmeros foram os casos em que a faca do degolador atingiu o osso hióide, as cartilagens de traquéia ou da laringe, não ocasionando morte, mas o ferimento era gravíssimo, pois realizava a abertura dos órgãos respiratórios e digestivos, junto ao pescoço.

Sabe-se de relatos de um médico que suturou vários destes traumatismos durante a revolução de 1923, exigindo trabalho cirúrgico de grande perícia para sua resolução.

O acaudilhamento do chefete-guerrilheiro rural surgia de sua insegurança patrimonial, sem terra, ignorante na interpretação da doutrina politica e da valentia fanfarrona até hoje cantada pelos trovadores.

Um clássico da música nativa do Rio Grande do Sul é “Colorada”, de autoria do cantor e compositor Mário Barbará:

Olha a faca de bom corte olha o medo na garganta/O talho certo e a morte no sangue que se levanta/Onde havia um lenço branco brota um rubro de sol por/Se o lenço era colorado o novo é da mesma cor.

Quem mata chamam bandido quem morre chamam herói/O fio que dói em quem morre/Na mão que abate e não dói/Na mão que abate e não dói.

Era no tempo das revoluções/Das guerras braba, de irmão contra irmão/Dos lenço branco contra os lenço colorado/Dos mercenário contratado a patacão.

Era no tempo que os morto votavam/E governavam os vivos até nas eleição/Era no tempo dos combate a ferro branco/Que fuzil tinha mui pouco e era escassa a munição;

Era no tempo do inimigo não se poupa/Prisioneiro era defunto e se não fosse era exceção/Botavam nele a gravata colorada/Que era o nome da degola nestes tempos de leão.

Há poucos anos a professora de um colégio durante uma festa tradicional, fez um dos meninos recitar publicamente este versinho de nosso folclore: Quem arrogante pisar/No poncho da gauchada/Há de sentir a vacina/Da gravata colorada...

Durante a “Revolução Paulista de 1932”, um grupo de gaúchos, “Os Pé no Chão" de Palmeira das Missões, liderados pelo caudilho Vazulmiro Dutra, entrincheirados perto de um posto paulista, junto à fronteira paranaense, gritavam á noite: "É só te pegar que te passo a gravata colorada".

Pois numa das viagens do então presidente do Brasil, Getúlio Vargas (isso durante o Estado Novo), alguns coronéis e pecuaristas resolveram homenagear o ditador com uma grande churrascada no Country Club. Nessas idas e vindas um tanto fisiológicas, uma década depois, Vazulmiro fora nomeado delegado regional do Instituto Nacional do Mate.

Por coincidência, o coronel estava ao lado de Vargas na imponente mesa quando trouxeram o espeto com a costela para servir o presidente.

Aproveitando a ocasião, Vazulmiro puxou da cintura um facão enorme, oferecendo-se para servi-lo. Getúlio, ao ver de quem se tratava, fitou o coronel com uma cara marota - que entendeu perfeitamente a brincadeira. E respondeu, entre risos gerais: “Calma doutor Getúlio, essa faca o senhor não precisa se preocupar não foi usada ainda”.

A arma fundamental do gaúcho é a faca, instrumento que serve para tudo: carneia o gado, embeleza suas vestimentas, mata o inimigo e até apara e limpa as unhas. Cada vez que alardeia valentia, a faca esta aí para garantir.

Vazulmiro cumpriu as etapas de um genuíno caudilho, conforme escreve Loiva Otero Félix. Exercitou-se na vida econômica, foi estancieiro, assumiu papel político e adquiriu condição de chefe militar.

Patriarca como o foram quase todos os caudilhos do Rio Grande do Sul, exerceu diversas funções públicas. Participou da Revolução de 1923, ao lado do Partido Republicano Rio-grandense, limitando sua ação à região de Palmeira das Missões. Existem várias tendências da historiografia sobre a presença dos caudilhos no Rio Grande do Sul.

OS GRANDES CAUDILHOS

O caudilhismo foi traço marcante no Rio Grande do Sul, em face da ocupação militarizada da área fronteiriça. Não pode ser dissociado de seu contexto platino, já que são constatadas aproximações e semelhanças.

A oligarquia rural é fornecedora de caudilhos, revolucionários e legalistas, tanto em nível regional como nacional, já que a classe dominante rio-grandense, os estancieiros, fazia valer sua posição do poder central, em relação à classe dominante regional, ora apoiando o governo central, se houvesse interesses comuns, ora auxiliando os revolucionários, se em conflito com os interesses oligárquicos.

Os nossos grandes caudilhos foram produtos das planícies: Pinheiro Machado, Borges de Medeiros, Getúlio Vargas, Flores da Cunha, Honório Lemes, Assis Brasil, Felipe Portinho, João Francisco Pereira de Sousa, Antônio Ferreira Prestes Guimarães e o mais famoso de todos, o gabrielense José Serafim de Castilho, “Juca Tigre”, conhecido como “Peito de Ferro” e outros.

Todos os degoladores de nossas forças revolucionárias eram homens ignorantes e sem terra, mas com formação e elã telúrico de valentia inata. O ato de agradar ao patrão que o escravizava, justificava qualquer tarefa e a degola era o que mais impressionava seus chefes.

Psicologicamente o degolador era um místico e o chefe, um realista. Matar era um ato de rotina e o mais fácil era usar a arma predileta a faca, e as carótidas estavam somente protegidas por uma massa muscular mole, facílima de ser seccionada.

E a prática esmerou a técnica. Leonel Rocha que foi um caudilho à pé, não pampiano, e teve como companheiros os "mateiros do Alto Uruguai”, pelo que se conseguiu investigar, não permitiam a degola.

Pequeno agricultor e quase analfabeto, Leonel Rocha trabalhava de enxada em terras que não lhe pertenciam, o que o diferenciava de todos os demais caudilhos gaúchos.

Em 1923, reuniu uma coluna de quase mil homens, mantendo combate com a maior e melhor parte da coluna do General Firmino de Paula.

Os fazendeiros o desprezavam, os roceiros viam nele um espelho de seus próprios sentimentos, um depositário de suas insatisfações, preconceitos e de suas vagas esperanças.

A DEGOLA EM CANUDOS

E a degola gaúcha se fez presente em Canudos, na Bahia. Euclides da Cunha, ao tratar do gaúcho tece loas à combatividade da Infantaria do Sul, que qualificou como “uma arma de choque”: “Podem suplantá-la outras tropas, na precisão e na disciplina de fogo, ou no jogo complexo das manobras. Mas nos encontros à arma branca aqueles centauros apeados arremetem com os contrários, como se copiassem a carreira dos ginetes ensofregados das pampas”.

Apesar desses elogios românticos, a crueza dos fatos venceu o estilo euclidiano. Com seus próprios olhos, o escritor compreendeu o que significava a especialidade daqueles homens no manejo da “arma branca”.

Os gaúchos agarravam cada derrotado pelos cabelos, lhe dobrando a cabeça, esgargalando o pescoço e, francamente exposta a garganta, degolavam-na. Conforme Manoel Benício, correspondente do “Jornal do Commercio”, do Rio de Janeiro, essas degolas ocorriam “sem diferença de sexo e idade”.

Para suas vivências nos cenários da guerra transpunham, assim, as técnicas das “charqueadas” dos pampas, impressionante matadouro destinado a obter a matéria-prima para fabricar o charque (carne-seca), principal produto de exportação, onde se habituavam a conviver com a morte violenta.

É possível imaginar os soldados gaúchos transitando nos espaços dos combates com os canos das botas e as bombachas ensanguentadas, insígnias onde tinham limpado as armas assassinas e onde tinha respingado o sangue das vítimas.

Pensávamos que barbaridades, tão tétricas quanto cabeças decepadas, jamais sairiam do passado. Mas os ditos humanos não têm mesmo jeito. Não é que o barbarismo está de volta? Por sorte, bem longe daqui.

Ele agora nos é servido com uma pitada a mais de crueldade: a divulgação pela Internet dos crimes do “Estado Islâmico”. Os novos Adões Latorre, de rosto escondido, espalham-no pelo mundo, de forma a que todos, inclusive os apavorados familiares das vítimas, o presenciem. (Pesquisa: Nilo Dias)

Gravura de soldados "pica-paus" e "maragatos".

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