quarta-feira, 19 de abril de 2017

Um ícone da cultura gabrielense

O doutor Milton Teixeira era considerado o decano dos advogados de São Gabriel. Além da sua atuação na área jurídica destacou-se também no desenvolvimento da cultura em nosso município. Ele e mais algumas ilustres pessoas da comunidade fundaram a Associação Cultural Alcides Maia (ACAM), que resiste até hoje.

Como costumo fazer, me valho do historiador Osório Santana Figueiredo. Fiquei sabendo, em sua obra “História de São Gabriel”, que a ACAM partiu de uma idéia do doutor Milton. Ele, inclusive, cedeu o prédio localizado na rua General Mallet, de sua propriedade, para as primeiras reuniões da entidade e acabou virando sua sede.

Hoje, a entidade funciona em uma sala do “Sobrado da Praça”, cedida pela Prefeitura Municipal de São Gabriel.

O prefeito Balbo Teixeira criou uma Comissão para tratar do tema, que teve como membros o doutor Nelson Lydio Andrade de Azevedo, historiador Osório Santana Figueiredo, doutor Milton Teixeira, doutor Charlemagne Neme, Galeno Evangelho Costa, Ricardo Pereira Teixeira e doutor Aluizio Macedo.

Em 10 de setembro de 1986, em reunião festiva realizada no auditório da Câmara Municipal foi criada oficialmente a Associação Cultural Alcides Maya, cuja primeira Diretoria ficou assim constituída:

Presidente, Galeno Evangelho Costa; Secretária, doutora Maria Anita Prestes e Tesoureiro, doutor Gabriel Padilha Dornelles.

Lembro que depois do ato na Câmara Municipal, foi realizado um jantar na sede da entidade, na rua General Mallet, quando estive presente com a minha esposa, a jornalista Teresinha Motta.

Depois foi presidente o historiador Osório Santana Figueiredo, o doutor Milton Teixeira, a poetisa e escritora Maria da Graça Ferreira Cunha, o pastor Cláudio Moacir Moreira, Humberto Petrarca, Mara Rangel e Italo Zailu Gatto, se bem me lembro.

Hoje a entidade está nas mãos de Carlos Alberto Torres de Menezes, que ceertamente dará um grande impulso à entidade. Se faltou alguém peço desculpas, não foi intencional, sim  falta de memória, mesmo.

Durante todos esses anos a entidade realizou várias atividades de cunho cultural, como concursos literários, de declamações, músicas e danças, exposições de fotografias e artes plásticas, torneios, feiras, lançamentos de livros, com destaque para duas antologias de escritores gabrielenses, entre outras.

Patrocinou, ainda, o 7º Encontro Estadual de Micro História, em 1990, quando estiveram em São Gabriel historiadores de todo o Estado. E ainda o 7º e 8º Encontros do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul, em 1990 e 1991.

Em 28 de julho de 1992 a entidade promoveu a I Festa Mundial do Folclore, com participação de grupos da Bélgica, Alemanha e Argentina. Em 1998 organizou o livreto “Talentos Gabrielenses”, junto a Editora Alcance, de propriedade do escritor gabrielense Rossir Berny.

O PATRONO DA ACAM

Alcides Maia (Alcides Castilho Maia), que dá nome a entidade, foi jornalista, político, contista, romancista e ensaísta, nascido em São Gabriel, no dia 15 de setembro de 1878, e falecido no Rio de Janeiro, em 2 de outubro de 1944.

O pai de Alcides Maya, Henrique Maia de Castilho, era funcionário federal e de origem citadina. O vínculo com o pago e o sentimento gaúcho, que marcaram a ficção do escritor, vieram através da linha materna.

Carlinda de Castilho Leal, sua mãe, era filha de Manuel Coelho Leal, dono da “Estância do Jaguari”, no município de Lavras do Sul, e ainda de duas frações de campo em São Gabriel, chamadas “Tarumã” e “Guabiju”.

Alcides Maia passou a infância na “Estância de Jaguari”, cenário de muitas de suas páginas regionalistas, sobretudo no romance “Ruínas Vivas”, que é, de certo modo, a visão nostálgica da estância avoenga.

Antes de ter concluído o primário, Alcides foi levado para Porto Alegre, onde fez os estudos de humanidades. Em 1895, quando contava 18 anos, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo.

A sua verdadeira vocação, porém, eram as letras e o jornalismo, por isso abandonou o curso de Direito. Retornando a Porto Alegre em 1896, entregou-se à prática do jornalismo militante, atividade que exerceu ao longo de toda a vida.

Quando em atividade profissional no seu “Escritório Camboatá”, o doutor Milton distribuía aos seus clientes, ao preço de Cr$ 5,00, exemplares de uma revista chamada “Quadrins”, criada por desenhistas e roteiristas gaúchos. Isso por volta de 1979 e 1980.

O nome “Camboatá” que o doutor Milton tanto gostava, e que definia seu escritório de advocacia e sua propriedade rural, curiosamente lembra uma espécie de peixe de água doce e uma árvore sapindácea (plantas com flor).

O doutor Milton também enveredou pelos lados da política, tendo sido eleito vereador em São Gabriel no distante ano de 1959, pelo antigo Partido Social Democrático (PSD), alcançando a soma de 300 votos, bastante expressiva para a época quando o número de eleitores era bem menor que hoje.

Prova disso é que o prefeito eleito, José Sampaio Marques Luz, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) teve 4.472 votos. O candidato derrotado, Bernardo Fernandes Barbosa, da União Democrática Nacional (UDN), alcançou 4.161 votos.

UMA JUSTA HOMENAGEM

A IX Feira Municipal do Livro, a partir da edição de 2016, passou a chamar-se oficialmente de “Dr. Milton Teixeira”, uma justa homenagem a quem em vida fez tanto pela cultura de nosso município.

O prefeito Roque Montagner disse na ocasião que se tratava de um reconhecimento do Poder Executivo, uma forma de gratidão e agradecimento do município a quem dedicou uma grande parte da sua vida em prol da cultura de São Gabriel, e que jamais será esquecido por toda a comunidade. “Temos a certeza que a energia do doutor Milton está aqui, através de sua esposa dona Leni e demais familiares”, frisou.

A patronesse da Feira de 2016 foi a escritora Fernanda Alves Pinto, colunista de “O Fato”, que sofre de uma doença chamada “Distonia Muscular Generalizada”. Ela conhece as limitações que tem, mas sabe que nenhuma a impede de buscar e querer a felicidade. O Capataz da IX Feira do Livro foi José Fernando dos Santos.

O doutor Milton Teixeira era natural da cidade de Lavras do Sul, tendo nascido na estância de seu avô em Pontas do Salso, município de São Gabriel.

Ao ler isso uma dúvida me bateu na cabeça e fez com que consultasse o amigo Osório Santana Figueiredo, que atenciosamente respondeu:

“Caro Nilo. Ele mesmo contava e dava risada. Não sabia de que lado. Se nasceu em terras de São Gabriel, gabrielense é de fato. Foi sepultado no cemitério de Lavras do Sul, em jazigo próprio da família. O Edilberto também. Abraço. Osorio”.

Era filho de Valério Teixeira Neto e Maria Julia Teixeira e irmão do saudoso doutor Edilberto Teixeira, advogado, agropecuarista, proprietário da “Estância do Capão”, em Santa Margarida, além de autor de obras de cunho regionalista. Hoje, Edilberto Teixeira é nome de praça no município de Santa Margarida do Sul.

Ele teve grande importância para a cultura regionalista, através de poemas, composições e livros que retrataram o cotidiano da vida do homem do campo e das cidades do interior.

Mesmo passados muitos anos de sua morte, composições por ele escritas – de forma inédita – são entregues pelo seu filho Mariano Teixeira para serem musicadas e defendidas por músicos e intérpretes nos festivais de São Gabriel e também em vários outros municípios do Rio Grande do Sul.

Eu conheci tanto o doutor Milton, quanto seu irmão Edilberto. Deste, ganhei, quando de uma visita que fiz a ele em sua casa, com direito a autógrafo, um livro de poesias especificando as várias pelagens de cavalos, que guardo até hoje com carinho.

O falecimento de Milton Teixeira ocorreu no dia 29 de maio de 2015, após longa enfermidade. O sepultamento aconteceu no cemitério de Lavras do Sul.

O doutor Milton Teixeira era proprietário de terras no hoje município de Santa Margarida do Sul, que agora pertencem a viúva Leni e ao filho único do casal, Rogério Brenner Teixeira, conceituado empresário rural em São Gabriel.

UM LUGAR HISTÓRICO

E não se trata de uma propriedade qualquer, igual a tantas outras existentes na região. É um lugar histórico, onde nasceu Plácido de Castro, que hoje é nome de município no Acre, de um time de futebol, de um CTG e também está inserido no "Livro de Aço", chamado "Livro dos Heróis da Pátria", o qual lhe confere o status de "herói nacional".

A inclusão do nome do gabrielense aconteceu em 17 de novembro de 2004, por ocasião do centenário da celebração do Tratado de Petrópolis.

O historiador Osório Santana Figueiredo, anos atrás, fez uma pesquisa de campo para saber o local exato onde Plácido de Castro nasceu. Esteve acompanhado do saudoso Alberto Saboia de Castro Franzen, o “Seu Saboia”, que era sobrinho do herói pátrio.

Ao final da empreitada, que contou com a ajuda do doutor Milton Teixeira, chegou-se a conclusão que Plácido de Castro nascera em terras que pertenceram a sua bisavó materna, Genoveva Maria de Assumpção de Oliveira, situada entre os arroios Cambai Grande e Cambaisinho, que antigamente era conhecido por “Rincão da Genoveva”.

Atualmente, essa área fica localizada nos campos da família do doutor Milton Teixeira, em Laranjeiras, Santa Margarida do Sul, e chama-se “Estância do Camboatá”, conforme explica o historiador Osório Santana Figueiredo em seu livro “Plácido de Castro, o colosso do Acre”.

UM MONUMENTO PARA PLÁCIDO DE CASTRO

No local onde estão as ruinas da “Tapera da Genoveva” e em que Plácido nasceu, foi erguido um monumento em homenagem à ele, por ocasião do seu centenário de nascimento.

A inauguração do monumento foi um momento histórico, com a presença do vice-governador do Estado do Acre. A “Tapera da Genoveva”, desde então, é um símbolo de admiração e respeito para os povos margaridense e acreano.

Sabe-se, através da história contada pelos acreanos quando aqui estiveram, na ocasião da inauguração do monumento, que demonstram sentimentos de fanatismo pelo herói, por meio de gestos simples, mas de significação, como o de levar consigo um punhado de terra do lugar onde se localiza a “Tapera”, símbolo de recordação.

Em 2001, a prefeitura de Santa Margarida do Sul, através de ato assinado pelo então prefeito Orestes Goulart, instituiu no município a “Semana Farroupilha”, que desde então é realizada anualmente de 13 a 20 de setembro.

O acendimento da “Primeira Chama Farroupilha” no novo município aconteceu às 18 horas do dia 13 de setembro de 2001, na “Tapera da Genoveva”, localizada na propriedade do doutor Milton Teixeira, em Laranjeiras.

A primeira “Chama Crioula” de Santa Margarida do Sul foi denominada “Chama Crioula Plácido de Castro”. Os desfiles da “Semana Farroupilha” são realizados hoje na “Praça Edilberto Teixeira”, irmão de Milton Teixeira, localizada no Bairro Camboatá.

O município de Santa Margarida do Sul emancipou-se em 17 de abril de 1996, pela Lei nº 10.751, desmembrando-se de São Gabriel. Acredita-se que a origem do nome do município está ligada à existência de uma antiga estância de criação de gado.

Os primeiros habitantes que se estabeleceram em Santa Margarida do Sul eram de origem portuguesa e seus descendentes dedicaram-se, até meados do século XX, somente à pecuária tradicional.

Procurei a amiga Elody Helena Veiga de Menezes, gabrielense de destacada atuação nos meios culturais, que desde a infância dedica-se à poesia e à literatura. Cursou letras, foi professora e aposentou-se como serventuária da Justiça.

Publicou quatro livros: “Réstias de Luz” (poesias), “A História e as Lendas de uma Família”, que conta a trajetória da família Menezes no Brasil, e que recebi de presente da amiga, “Baú de Sonhos” (poesias) e “Reflexões e Devaneios” (crônicas e poesias).

Dona Elody também publicou duas antologias de escritores gabrielenses, quando participou da ACAM. Conquistou vários prêmios com as suas poesias, entre eles o primeiro lugar num concurso da Casa do Poeta de Porto Alegre e segundo lugar no concurso da revista Brasília, de Brasília, DF.

Atualmente, dedica-se mais às crônicas, embora continue a fazer poesias. É dinâmica, gosta de estar sempre atualizada e participar de tudo o que se refere à literatura.

Nos últimos anos aderiu ao uso do computador e, através da Internet, mantem-se informada de tudo o que se passa no mundo e está sempre em contato com familiares e amigos em qualquer lugar.

Pois também recorri a ela, para que escrevesse algo sobre a trajetória do doutor Milton nos meios culturais de São Gabriel. E aproveitei sua inspiração para dar título a esta matéria histórica.

UM ÍCONE DA CULTURA GABRIELENSE

Eu já conhecia o doutor Milton Teixeira, há muitos anos, mas somente através da Associação Cultural Alcides Maya (ACAM), quando convivi quase diariamente com ele, foi que pude compreender a importância de sua atuação na vida cultural de São Gabriel.

Durante o tempo em que participei da diretoria da ACAM, cuja sede, naquela época, funcionava em um prédio que lhe pertencia, pude constatar que a admiração pela sua grande inteligência, caráter íntegro e a maneira respeitosa e educada com que tratava as pessoas, era unanimidade, entre todos os associados.

Sempre que surgia alguma dúvida para organizar um evento, redigir um documento, ou qualquer outro problema inerente ao funcionamento da ACAM (e isso ocorria com muita frequência) nós apelávamos para a experiência e a grande cultura do doutor Milton para resolver a situação, sempre recebendo dele uma orientação paciente, lúcida e segura.

Porém, o que mais destacava a importância do doutor Milton Teixeira na sociedade gabrielense era a sua participação no desenvolvimento cultural e artístico de São Gabriel naquela época. Ele era, sem dúvida nenhuma, um verdadeiro agregador de talentos.

São incontáveis as exposições de artes, lançamentos de livros, saraus literários e encontros artísticos e culturais que se realizaram nas dependências do seu prédio, sempre sob a sua orientação e beneplácito. Isso sem falar em feiras do livro, concursos literários e festivais nativistas que ocorreram naquele período e que tiveram o apoio e o incentivo do doutor Milton Teixeira.
         
Apesar de contar com a participação de vários outros escritores e literatos gabrielenses, pode-se dizer que ele foi o verdadeiro idealizador e fundador da Associação Cultural Alcides Maya a qual, durante muitos anos, cresceu e se desenvolveu graças ao esforço e a generosidade daquele homem invulgar.

Foi ele também que, ao escolher o nome de Alcides Maya, o primeiro gaúcho a participar da Academia Brasileira de Letras, para patrono da ACAM, deu o destaque merecido a esse grande escritor conterrâneo, cuja importância na literatura gaúcha, infelizmente, a maioria dos gabrielenses ignorava.

O doutor Milton Teixeira, certamente, merece ser considerado um dos ícones da cultura gabrielense. (Elody Helena Veiga de Menezes) (Pesquisa: Nilo Dias - Publicada no jornal "O Fato", de São Gabriel-RS, edição de 31 de março de 2017)

Dr. Milton Teixeira com a esposa, Leni Benner Teixeira, o filho, Rogério, e as netas, Gabriela e Helena, na comemoração das Bodas de Ouro do casal.

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